Europa: desaceleração com estabilização na margem

27/02/2019

Após 2017, em que a zona do euro surpreendeu positivamente e cresceu 1 ponto percentual a mais do que se imaginava um semestre antes, o ano de 2018 registrou forte desaceleração, principalmente no segundo semestre. Depois de crescer 2,4% em 2017, a zona do euro fechou 2018 em 1,8%.

De fato, os índices PMI (Manufacturing Purchasing Managers), tanto da indústria quanto dos serviços, apontaram desaceleração. Na indústria, de um pico de 60,6 em dezembro de 2017 (números acima de 50 apontam expansão), o PMI caiu para 50,5 em janeiro de 2019, última observação disponível. Os serviços não ficaram atrás e, de um máximo de 58,0 em janeiro de 2018, o PMI caiu para 51,2 na leitura de dezembro e de janeiro últimos.

Fatores conjunturais e estruturais explicam a desaceleração. O mau desempenho no terceiro trimestre de 2018 das exportações, que deve ser parcialmente revertido no quarto trimestre, explica uma parte. Talvez já seja sinal da redução do comércio internacional, fruto da guerra comercial.

A figura abaixo mostra a associação do crescimento da zona do euro e do comércio internacional. Nota-se a forte associação da zona do euro com o comércio mundial e a parada que ocorreu no terceiro trimestre.

Há problemas específicos aos países maiores: o movimento dos “coletes amarelos”, na França; problemas na Volkswagen na Alemanha, com mudança de padrão ambiental para a indústria; e a recessão italiana, fruto do aumento dos prêmios de risco da dívida soberana e seus impactos em toda a concessão de crédito. A falta de compromisso com a responsabilidade fiscal – aparentemente revertida em parte – do atual gabinete italiano (formado pela improvável união da Liga Norte, de extrema-direita, com o partido de esquerda do humorista Beto Grillo) produziu a alta nos prêmios de risco da dívida soberana italiana. Esses prêmios maiores contaminaram o custo da concessão de crédito ao setor privado em geral, agravando a desaceleração.

Na França, Macron parece reverter o sucesso inicial dos “coletes” com um pacote fiscal, reversão de algumas medidas (como elevação do preço da gasolina – a queda do petróleo ajudou bastante) e o cansaço com a continuada mobilização. O movimento dos coletes amarelos tem perdido unidade. Na Itália, houve recuo parcial da postura hostil à responsabilidade fiscal, e o déficit primário para o orçamento de 2019 foi reduzido.

Por outro lado, diversos países menores da zona do euro – Espanha, Portugal e Grécia, por exemplo – têm apresentado desempenho melhor.

Provavelmente haverá no segundo semestre um aumento do impulso fiscal na Alemanha e na França. Adicionalmente, a queda do preço da gasolina terá impacto positivo sobre a renda e, portanto, sobre o consumo. Assim, deve haver recuperação do crescimento no segundo semestre.

Se o desenho do ano passado foi um primeiro semestre mais forte e um segundo semestre fraco, o deste ano deve ser a imagem especular de 2017. Segundo as estimativas da Bloomberg, a zona do euro fechará 2019 com crescimento de 1,4%.

Como os cálculos situam o PIB potencial na casa de 1,0%, tudo indica que o mercado de trabalho continuará a melhorar, mesmo que bem lentamente.

Este artigo faz parte do Boletim Macro IBRE de fevereiro de 2019.Leia aqui a versão integral do BMI Fevereiro/19 

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

 

Comentários

Giorgio Trebeschi
Caro Samuel, só um detalhe importante em relação à Itália. Você menciona um deficit nominal no orçamento de 2019. Na verdade o governo projeta um superavit primário (1,7% PIB). O que vai ser negativo é o saldo nominal (-2,0%) já que as despesas com juros vão atingir 3,7%. Pode ter mais informações no site da Banca d'Italia: http://www.bancaditalia.it/pubblicazioni/bollettino-economico/2019-1/index.html Um grande abraço

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