Evolução do PIB per capita e situação política

06/01/2020

Entramos nos anos 20. A virada de indicador decenal levou às análises de sempre sobre nossa nova “década perdida”, supostamente a terceira desde 1980. Diante dessa avaliação, este texto tem por objetivo uma tarefa simples, apresentar a evolução do PIB per capita do Brasil desde 1900 e associar momentos de desaceleração/recessão com mudanças políticas.

Os dados de 1900 até 1946 se baseiam em uma estimativa do economista Claudio Haddad.[1] A partir de 1947, os números são do nosso sistema de Contas Nacionais, incialmente calculado pela FGV e posteriormente assumido pelo IBGE (nos anos 1970). A história das estatísticas está descrita em dois livros do IBGE,[2] disponíveis on-line, mas me concentrarei nos números neste texto.

Como a série histórica do IBGE só começa em 1900, a tabela 1 abaixo apresenta o crescimento médio do PIB per capita em cada década do século XX e nas duas primeiras décadas do século XXI. Para obter o número de 2011-20, assumi que a população brasileira aumentará 0,8% ao ano, em 2018-20, que o PIB cresceu 1,14% em 2019 e que o PIB crescerá 2,3% em 2020, conforme o último levantamento das expectativas de mercado pelo Banco Central (Relatório Focus de 27/12/2019). Todos os números estão disponíveis em uma tabela em Excel, para os leitores fazerem sua própria periodização histórica ou inserirem outras hipóteses sobre 2019-20.[3]

Tabela 1: Crescimento acumulado do PIB per capita por década.

 

Crescimento acumulado
em 10 anos

Crescimento
médio anual

1901-10

11.3%

1.1%

1911-20

17.3%

1.6%

1921-30

34.2%

3.0%

1931-40

32.3%

2.8%

1941-50

40.8%

3.5%

1951-60

51.1%

4.2%

1961-70

36.9%

3.2%

1971-80

79.1%

6.0%

1981-90

-3.9%

-0.4%

1991-00

18.1%

1.7%

2001-10

27.8%

2.5%

Projeção 2011-20*

0.0%

0.0%

Fonte: IBGE e BCB até 2017 e estimativa do autor para 2018-20.

Os dados mostram que, do ponto de vista do crescimento econômico, nossa maior “década perdida” ocorreu em 1981-90, quando o Brasil sofreu os efeitos da crise da dívida externa e da alta inflação subsequente. Em 1990, o PIB per capita estava aproximadamente 4% abaixo do verificado em 1980.

A década de 1991-00 também é considerada perdida por alguns analistas, mas os números indicam crescimento de 18,1% em tal período. A década 1991-00 pode ser considerada perdida em relação ao crescimento do resto do mundo, mas do ponto de vista de nossa história, o desempenho foi ligeiramente superior ao verificado no início do século XX, isto é, até 1920.

O período de rápido crescimento e desenvolvimento do Brasil ocorreu de 1920 a 1980, quando nossa economia registrou uma das maiores expansões do PIB per capita no mundo. O crescimento total foi de 826% em 60 anos, média de quase 4% ao ano, com auge na década de 1971-80, durante o “milagre econômico”.

Voltando ao período recente, após o retrocesso dos anos 1980 e lento crescimento dos anos 1990, tivemos um “milagrinho econômico” em 2001-10, com expansão de quase 28% do PIB per capita. O bom desempenho não atingiu o ritmo de crescimento verificado entre 1920 e 1980, mas depois do que aconteceu entre 1980 e 2000, a expansão verificada em 2001-10 foi um alívio, sobretudo porque ela aconteceu em uma economia mais complexa, com população bem maior do que no passado, e foi acompanhada pela redução da desigualdade.

A situação voltou a piorar a partir de 2011 e, baseado nas projeções de crescimento para 2019 e 2020, devemos fechar a segunda década do século XXI com expansão zero do PIB per capita. Mesmo que a economia surpreenda e cresça 3% neste ano, o desempenho do PIB per capita em 2011-20 será o segundo pior desde que temos estatísticas econômicas sobre nossa renda por habitante.

Para colocar o desempenho recente em perspectiva histórica, a figura 1 abaixo apresenta a evolução do log do índice de PIB real per capita desde 1900. Definindo o valor de 1990 como 100 (log decimal igual a 2), os dados claramente indicam estagnação no início do século XX, “decolagem e expansão” de 1920 a 1980, e desaceleração a partir de 1980.

FIGURA 1

Fonte: IBGE e BCB até 2017 e projeções do autor para 2018-20

Focando no período recente, os dados também mostram a intensidade das recessões de 1981-83 1990-92 e 2014-16. Outro fato interessante do gráfico é a coincidência entre queda/estagnação do PIB per capita e crises/mudanças políticas. Por exemplo, houve recessão e mudança de governo no início dos anos 1930. Quinze anos depois, houve estagnação e nova mudança de governo, com a deposição de Getúlio Vargas. A crise política seguinte ocorreu no início dos anos 1960, após nova estagnação do PIB per capita. Já no início dos anos 1980, a grande recessão associada à crise da dívida externa contribuiu para o fim da ditadura militar. Dez anos depois, a recessão com quase hiperinflação foi seguida do impeachment do Presidente Collor e, mais recentemente, outra grande recessão contribuiu para o impeachment da presidente Dilma, em 2016. Como exceção à regra, cabe apontar a estagnação na virada do século XX para o século XXI, durante o segundo mandato de FHC, quando não houve crise política. Naquela época houve “apenas” uma mudança substancial de poder, com a eleição de Lula em 2002. O mesmo pode ser dito sobre o atual momento, dado que a estagnação verificada durante o governo Temer contribuiu para a derrota dos partidos tradicionais nas eleições de 2018, e a uma nova mudança substancial de poder, com ascensão da extrema-direita no Brasil. Assim, se nossa história serve de guia, a continuação do lento crescimento tende a gerar nova crise ou mudança política nos próximos anos.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.  

 


[1] Haddad, C. (1975).” Crescimento do produto real brasileiro, 1900-1947.” Revista Brasileira de Economia 29(1), pp.3-26.

[3] Consulte a tabela de Excel no link apresentado no anexo.

Comentários

Marcos Henrique
Bom ponto o do Nelson Barbosa. Mas vou além. As crises políticas não expressariam o acirramento da luta de classes em cada período desses e a recessão não seria a forma de conter as ascensão das massas? Seja politicamente como em 1964 ou seja simplesmente pelo crescimento do salário real em 2016.
Maicon
Extrema-direita!?!?! Bom, quando a base de um artigo econômico é um artigp do Haddad, não dava para esperar nada pior. Já posso cortar meu plano de fazer MBA na FGV.
Blog do IBRE
Reforçando a mensagem que está no pé de todos os artigos publicados pelo Blog do Ibre: "As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV."

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