Macroeconomia

Fed: primeira etapa quase lá

29 out 2018

No dia 17 de outubro, o banco central norte-americano, Federal Reserve (Fed), divulgou a ata da reunião do Comitê de política monetária que se reunira em 25 e 26 de setembro.

Logo após a reunião, o Comitê divulga um comunicado. A decisão foi de elevar em mais 0,25 ponto percentual a taxa básica de juros, conhecida por fed funds rate (FF), para o intervalo entre 2% e 2,25%.

A maior alteração do comunicado foi retirar do texto a afirmação de que a “política monetária continua estimuladora”. O comunicado e a ata resolveram detalhar os motivos da supressão da afirmação.

A política monetária é estimuladora quando a taxa de juros real praticada é inferior à taxa de juros real neutra. A taxa de juros real neutra é aquela que mantém a economia crescendo em um ritmo que equilibra o mercado de trabalho a pleno emprego e não acelera a inflação.

As diversas estimativas de taxa de juros real neutra da economia americana estabelecem valores entre 0,25% e 1,5%. Como a FF está entre 2% e 2,25% e a expectativa de inflação encontra-se em 2%, a política monetária, a depender da estimativa empregada para a taxa real neutra, está adentrando terreno de neutralidade.

Essa foi a justificativa para a mudança da linguagem do comunicado. Quando há uma grande distância entre a taxa real praticada e as diversas estimativas de taxa neutra, faz sentido afirmar que a política monetária é expansionista ou contracionista, a depender do caso. Mas quando a taxa de juros praticada adentra o intervalo das estimativas da taxa neutra não é possível saber ao certo a natureza da política monetária. Sabemos somente que, seja qual for essa natureza, será próxima da neutralidade.

Assim, podemos afirmar que a primeira etapa da normalização da política monetária está quase lá. Quais são os próximos passos?

Segundo as previsões dos membros do Comitê, representadas por uma avaliação trimestral de cada um deles sobre qual é o caminho previsto para a FF, haverá um nova subida de 0,25 ponto percentual (pp) na reunião de dezembro e mais três em 2019, fechando o próximo ano com FF entre 3% e 3,25%. O ciclo de alta se completa com mais uma subida em 2020, com FF entre 3,25% e 3,5%. Esse é o desenho da política monetária da mediana dos membros do Comitê.

O mercado não acredita que haja espaço para toda essa alta. Considera que a FF estará na casa de 2,90% no final de 2019 e de 3% no final de 2020. Essa diferença já foi bem maior. E, diferentemente do que ocorrera no início da recuperação após a crise de 2008, agora o mercado tem se aproximado das estimativas do FED e não o inverso. Evidentemente, a trajetória da FF pode caminhar por uma posição intermediária entre o caminho do Comitê e o do mercado.

Se houver algum limite à subida da FF, não parece que virá da economia americana. O mercado de trabalho encontra-se extremamente apertado e a inflação, mesmo que lentamente, tem subido. O mesmo ocorre com a taxa de crescimento dos salários.

O que pode limitar o processo de subida da taxa de juros na economia americana será uma desaceleração mais forte da economia mundial em função da guerra comercial e dos efeitos sobre os emergentes da própria alta dos juros americanos.

O fortalecimento do dólar e a redução do crescimento da economia mundial gerariam poderosas forças desinflacionárias.

A economia americana já não é tão grande como foi no passado – no pós-guerra chegou a ser 50% da economia mundial –, mas a sua política monetária ainda é a grande baliza para os mercados financeiros mundo afora.

Este artigo foi originalmente publicado no Boletim Macro IBRE FGV de outubro. Acesse aqui a versão completa.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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