Frente democrática, bolsonarismo e Trump

A ideia de uma frente democrática vertebrada a partir do eixo Lula-centro liberal pode e deve ser retomada na campanha eleitoral de 2026. Em momento de crescentes riscos políticos e geopolíticos, ampliar a base de apoio doméstico é crucial.
Uma das marcas distintivas do governo Lula III tem sido o movimento pendular entre dois polos: a defesa da democracia e a defesa da economia popular1. A amplitude e a frequência das oscilações têm como causas a popularidade presidencial, a solidez do apoio legislativo do Executivo, as ações disruptivas da extrema-direita brasileira e o imperialismo escancarado da política externa de Donald Trump.
Amplas oscilações, conquanto inevitáveis no atual contexto brasileiro e mundial, passam a imagem de uma presidência fraca e sem foco. Se Lula tivesse efetivamente concretizado a ideia de frente democrática defendida ao longo da campanha eleitoral de 2022, o atual governo teria tido mais lastro político, o que, por sua vez, teria lhe permitido navegar de maneira mais estável em mar encapelado.
Os principais traços de uma frente democrática de Lula III são a escolha de Geraldo Alckmin para vice-presidente em 2022 e sua nomeação para o cargo de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços em 2023, a nomeação de Simone Tebet para a chefia do Ministério do Planejamento e Orçamento e a de José Múcio para o posto de ministro de Defesa, ambas as nomeações feitas em 2023. Alckmin, conquanto filiado há quatro anos ao PSB, partido de centro-esquerda, fez carreira no hoje quase finado PSDB, agremiação de centro-direita. Trata-se do grande herdeiro da tradição democrata-cristã brasileira, cujo expoente havia sido Franco Montoro, governador de São Paulo em 1983-1987. Simone Tebet foi candidata a presidente pelo MDB, também de centro-direita, em 2022, com uma plataforma liberal. Derrotada no primeiro turno, apoiou Lula no segundo. Anteriormente, fizera carreira legislativa como representante do agronegócio. José Múcio, hoje sem partido, é um experiente e hábil político conservador. Antes de liderar o Ministério da Defesa, havia sido ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais em 2007-2009, no segundo mandato de Lula, e ministro do Tribunal de Contas da União em 2009-2020.
Os arranjos políticos de Lula tanto com os partidos de esquerda quanto com o centrão não devem ser considerados componentes-chave de uma frente democrática, uma vez que, por razões de afinidade ideológica, a esquerda estaria no governo Lula III de qualquer maneira, assim como o centrão apoia qualquer presidente em troca de recursos fisiológicos.
A essência de uma frente democrática no Brasil hoje em dia reside, portanto, na relação entre, por um lado, Lula e, por outro, a centro-direita programática (com seus vários matizes). Chamemo-la de centro liberal.
Apesar da presença de Alckmin, Tebet e Múcio no ministério, eles não têm dado o tom do governo. Alckmin foi escalado para missões importantes. Múcio tem sido bem-sucedido no esforço de pacificar as relações das Forças Armadas com Lula. Tebet tem cooperado amplamente com o Ministério da Fazenda. Os três têm sido bastante leais a Lula. Todavia, têm influência sobre poucos parlamentares. Como já mencionado, Múcio não tem partido. O MDB de Tebet conta com uma bancada de 42 deputados (8,2% da Câmara). O PSB de Alckmin só tem 3,1% dos deputados.
A relação política que tem dado o tom do atual governo é com o centrão (PP, Republicanos, PRD, MDB, União Brasil, Podemos e PSD), o qual, hoje, soma 263 deputados (51% da Câmara). Não é pouco. Não à toa, trata-se da força política dominante no Congresso. Aparentemente, foi a lógica dos números que esvaziou o papel do centro liberal e, consequentemente, da frente democrática sob Lula III.
Contudo, uma frente democrática deve transcender a aritmética parlamentar. Seu objetivo é subsumir diferenças ideológicas e antigos conflitos políticos ao imperativo de defesa do regime democrático frente às ameaças autoritárias de uma potente extrema-direita (leia-se bolsonarismo). Para tanto, além de ampliar seu escudo legislativo, um governo de frente democrática deve também mobilizar a sociedade civil em prol de um novo programa que aponte para um futuro de maior bem-estar econômico para todos, sobretudo para a população de baixa renda. A defesa da democracia deve ser indissociável do progresso material, caso contrário, torna-se um slogan vazio.
É no tocante ao segundo quesito – a mobilização da sociedade civil em prol de um novo programa econômico – que Lula III foi insuficiente. Contentou-se com o necessário restabelecimento, com algum módico de aggiornamento, de políticas públicas que o governo Bolsonaro arruinara. Mas não deu o passo seguinte.
Que passo seria esse? Articular um novo programa com os economistas do centro liberal, vários dos quais ligados ou simpáticos ao PSDB dos tempos de FHC. Seria uma tarefa hercúlea, uma vez que as diferenças programáticas, desconfianças pessoais e rancores mútuos são enormes. Lula teria que aceitar alguma redução do déficit primário e da dívida pública, enquanto os economistas do centro liberal teriam que abrandar seu fiscalismo. Qual seria o ponto de encontro das duas posições? Só uma autêntica negociação política poderia dizê-lo. Lula jamais tentou entabular tal negociação, mas o outro lado jamais deu a entender que afrouxaria a defesa da austeridade fiscal. Nesse sentido, o esvaziamento da frente democrática é também responsabilidade dos membros da sociedade civil do centro liberal, e não apenas de Lula.
A ideia de uma frente democrática vertebrada a partir do eixo Lula-centro liberal pode e deve ser retomada ao longo da campanha eleitoral de 2026. Não apenas porque o bolsonarismo, apesar de suas derrotas recentes, continua a liderar o campo da direita e ter sólida base social, mas também por conta do esforço de Trump de reafirmar a autoridade imperial dos EUA sobre a América Latina, esforço cristalino com o ataque militar a Caracas e o sequestro de Nicolás Maduro no dia 3 de janeiro do corrente. O imperialismo sem maquiagem de Trump reduzirá consideravelmente a margem de ação diplomática do Brasil, podendo até nos isolar na América do Sul.
Num momento de crescentes riscos políticos e geopolíticos, ampliar a base de apoio doméstico é crucial. Por mais difícil que seja, estreitar laços – de forma crível – com o centro liberal é uma das melhores alternativas à disposição de um eventual governo Lula IV.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
Notas:
[1] Ver Octavio Amorim Neto, “A Natureza Dual do Mandato de Lula”, Boletim Macro, abril de 2023.










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