Hiato de recursos: quando a inflação virá?

16/02/2018

A inflação caiu. Fechou 2017 em 2,95% e as expectativas Focus sugerem que fique em 3,9% em 2018. Esta projeção pressupõe que a inflação de alimentos este ano atinja o nível de 4%-5%, “devolvendo” em parte a deflação de 5% do ano passado. Nossa avaliação na FGV IBRE é que a inflação de alimentos ficará na casa de 2%, e que o IPCA fechará 2018 em torno de 3,5%, abaixo do consenso atual do mercado.

Por outro lado, é certo que 2018 será liderado pela agenda política. Em 2017, o que desativou a dominância política –  a partir da divulgação da conversa do presidente Temer com o empresário Joesley – e fez economia e mercados andarem muito bem foi a forte desinflação não esperada por aqui – no final de 2016, a inflação projetada andava por volta de 5% – e a desinflação também inesperada na economia americana.

No entanto, para sabermos de verdade quanto tempo temos para arrumar a nossa casa fiscal, é necessário conhecermos a ociosidade de recursos na economia nacional. Os economistas empregam o conceito de “hiato de recursos”. Um hiato positivo ocorre quando há escassez de recursos, isto é, excesso de demanda. Não há dúvida que hoje o hiato é negativo no Brasil, ou seja, há ociosidade de recursos. No entanto, quando o hiato caminhar para zero, a política monetária praticada terá que estar próxima do juro neutro – hoje ela está abaixo do neutro, para estimular a economia e colocar em utilização os recursos ociosos. Nossos cálculos sugerem que juro real neutro no Brasil é de aproximadamente 4,5%. Com meta de inflação de 4,0%, vigente para 2020, a taxa nominal de juros neutra, com inflação na meta, é algo por volta de 8,7%.

Assim, quanto maior for a ociosidade de recursos, mais tempo levará para o hiato deixar de ser negativo. Portanto, mais tempo terá o BC antes de iniciar um ciclo de alta das taxas de juros – consequentemente, menor será o crescimento da dívida pública até lá. Ou seja, a agenda doméstica de economia estrito senso (economics, como dizem os ingleses) em 2018 é acompanhar o ritmo de fechamento do hiato. Conforme escrevi na coluna Ponto de Vista da edição de fevereiro da revista Conjuntura Econômica – em que comento duas estimativas diferentes de hiato, uma apresentada pela Instituição Fiscal Independente (IFI), outra pelo economista Bráulio Borges em artigo aqui no Blog do IBRE –, quanto mais o mercado se convencer de que ele irá continuar negativo por mais um bom período, mais tempo teremos para que o sistema político resolva nosso problema fiscal, com a reforma da Previdência em destaque.

Leia aqui a íntegra da coluna Ponto de Vista de fevereiro

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