Petróleo e Gás

Impacto da defasagem da gasolina da no IPCA e reflexos de sua subvenção nos resultados da Petrobras

28 mai 2026

Contenção de preços da Petrobras representa um represamento do IPCA cujos efeitos diretos podem chegar a 0,6 pp — dimensão estimada pelo comportamento do preço da gasolina no Nordeste, onde o papel da empresa no fornecimento é menos significativo.

O objetivo do texto (cuja versão completa pode ser acessada neste link), é discutir dois aspectos do impacto do conflito entre EUA e Irã sobre os preços dos combustíveis fósseis no Brasil.

Na primeira parte apresenta-se um exercício que procura estimar o impacto direto da defasagem dos preços da gasolina praticados pela Petrobras sobre o IPCA Geral, considerando o bimestre março-abril de 2026.

A despeito da forte elevação verificada no mercado internacional em função do conflito no Oriente Médio, a empresa tem mantido inalterados, desde o final de janeiro, os preços da gasolina A cobrados aos distribuidores.  A gasolina A é o produto que sai da refinaria, e que representa aproximadamente 33% do custo da gasolina C, aquela adquirida pelo consumidor nos postos.  Ainda assim, no bimestre março-abril a variação do subitem do IPCA Gasolina, na média nacional, foi de 6,5%; e os aumentos foram muito maiores nas regiões metropolitanas e municípios do Nordeste — com destaque para Salvador —, como pode ser visto no gráfico 1.

As estimativas mostradas no texto indicam que nessa região a participação da Petrobras como fornecedora de gasolina A é bem menor do que na média nacional. Isso decorre da presença de refinarias ou centrais petroquímicas pertencentes a outras controladoras, e de uma parcela maior das importações no fornecimento total (ver tabela 1).

Essa estrutura de oferta é bem representada pela Bahia, cujo abastecimento é em grande parte suprido pela refinaria da ACELEN (antiga Mataripe) e por uma central petroquímica da Braskem.  Essas empresas têm por característica uma estratégia comercial que leva seus preços a seguirem mais de perto as cotações internacionais já convertidas em reais.  Como se vê no gráfico 2, os preços cobrados pela ACELEN às distribuidoras nos pontos de entrega na Bahia responderam ao aumento observado nos preços de paridade de importação, algo que não se verificou com os preços cobrados pela Petrobras nas outras unidades da Federação.

Um exercício levando em consideração a composição de preços da gasolina C divulgada pela ANP para as grandes regiões brasileiras produziu resultados que reforçam a hipótese de que os preços da gasolina C nos postos de Salvador tenham sido pressionados, em grande medida, pelo repasse do aumento da cotação da gasolina A no mercado externo. Essa consistência torna plausível adotar a variação do IPCA Gasolina naquela cidade como parâmetro de quanto o IPCA Gasolina dos outros recortes regionais teria se comportado, caso a Petrobras não tivesse mantido seus preços inalterados.

A partir dessa hipótese, imputou-se a todas as cidades e regiões metropolitanas consideradas no cálculo do IPCA uma variação, no bimestre março-abril de 2026, idêntica à variação observada em Salvador; realizadas as devidas ponderações, chegou-se a um impacto adicional de 0,59% sobre o IPCA Geral. Ainda que seja baseado em um método simples, o exercício mostra que se os preços da Petrobras tivessem evoluído conforme suas congêneres não controladas pelo Governo Federal, a variação acumulada em doze meses do IPCA Geral teria alcançado valor muito próximo de 5,0% já em abril — ressaltando-se, mais uma vez, que esse cálculo estima apenas os impactos diretos de uma variação contrafactual dos preços da gasolina.

Cabe aqui, por fim, registrar as limitações do exercício. Ainda que os PPI estimados nos vários pontos de entrega ao redor do país sejam próximos — o que significa que o sinal de preço ao qual os produtores estão expostos é semelhante — é preciso considerar que a concorrência enfrentada pela Petrobras tende a ser maior, seja pela oferta de outros players do mercado de gasolina A, seja pela relação do preço do etanol hidratado com a gasolina C em alguns estados, especialmente em São Paulo. A ACELEN, contudo, é a única refinaria de porte no estado da Bahia e opera em posição de fornecedora dominante regional. Seus preços podem refletir poder de mercado local, não necessariamente um equilíbrio competitivo. Os dois fatores, embora distintos, apontam na mesma direção: o contrafactual tende a superestimar o efeito represado — seja porque a Petrobras não poderia praticar aumentos da mesma magnitude sem perda de share, seja porque os preços da ACELEN podem já refletir poder de mercado regional, e não um equilíbrio puramente competitivo.

A hipótese de que as margens e o preço do etanol anidro teriam se comportado de modo semelhante em todas as unidades da federação também pode parecer forte, mas essa é uma limitação imposta pela forma como a ANP calcula a variável, o que impede sua desagregação por praça e inviabiliza o uso de controles mais precisos no exercício. A estimativa de 0,59% deve ser lida, portanto, como um limite superior da ordem de magnitude do efeito direto represado, condicionada às premissas descritas.

A segunda parte do texto é dedicada a uma avaliação de como a recente subvenção a ser paga aos produtores e importadores de gasolina A poderia impactar os resultados da Petrobras.  Diante da duração do conflito no Oriente Médio, a presidente da empresa sinalizou em meados de maio que a Petrobras estaria preparando um aumento dos preços cobrados pela gasolina A.  Teria sido essa sinalização o que levou o Governo Federal a criar uma subvenção temporária de R$ 0,44 por litro a ser paga a produtores e importadores do combustível — desde que tal valor seja descontado do preço pago pelos distribuidores.  O que, em tese, permite que os fornecedores elevem o preço da gasolina A sem que isso chegue aos consumidores.

Com base no histórico recente, um exercício numérico mostrou que tal subvenção reduz, mas não elimina o potencial prejuízo da Petrobras nas operações de importação caso os preços internacionais mantenham-se no atual patamar. Porém, os ganhos obtidos com a venda de gasolina A produzida internamente superariam em muito as perdas ocorridas na compra do combustível importado, já que o volume produzido internamente é muitas  vezes superior ao volume de importações (ver tabela 2). 

Isso, no entanto: i. não impediria que a empresa continuasse a deixar de lucrar uma parcela relevante do que poderia com a alta das cotações internacionais, já que a diferença entre os novos preços praticados pela empresa e os preços de paridade de importação continuaria relevante e ii. manteria os importadores de gasolina A em situação delicada, em função da menor competitividade frente ao combustível fornecido pela Petrobras e ao etanol hidratado.  

Assim, se as cotações do combustível permanecerem altas por muito tempo, é razoável esperar alguma pressão sobre as ações da empresa; porém, diante do calendário eleitoral, é muito provável que o já anunciado aumento da gasolina A não seja muito maior do que os R$ 0,44 proporcionados pela subvenção.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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