Cenários

A inflação brasileira ficou mais complexa - Parte 1

21 mai 2026

A inflação brasileira em 2026 tornou-se multifatorial e resistente, acumulando 4,39% em 12 meses. A desaceleração é lenta devido à pressão conjunta de serviços, preços administrados, câmbio e derivados de petróleo, afetando toda a cadeia produtiva.

A inflação brasileira entrou em uma fase menos simples de interpretar. Depois do período em que os choques globais explicavam boa parte da pressão sobre os preços, seguido por uma etapa em que os serviços ganharam protagonismo, o cenário atual combina diferentes fontes de risco ao mesmo tempo. Petróleo, energia, clima, serviços, preços administrados, mercado de trabalho e expectativas passaram a atuar de forma simultânea, tornando o processo de desinflação mais lento, mais sensível a choques e mais dependente de credibilidade.

O IPCA ainda mostra sinais de resistência. Em abril de 2026, a inflação acumulada em 12 meses estava em 4,39%, ainda acima da meta. As projeções do Boletim Focus do BACEN de 15 de maio de 2026 apontavam para inflação de 4,92% em 2026, 4,00% em 2027 e 3,65% em 2028, no cenário de convergência mais favorável. A inflação pode caminhar para patamares mais baixos, mas a trajetória tende a ser gradual e sujeita a interrupções.

A dificuldade não está apenas no nível da inflação, mas em sua composição. A inflação não caiu de forma uniforme entre os grupos. Em abril de 2026, enquanto alguns segmentos já mostravam variações mais comportadas, como bens duráveis, com alta de 0,68% em 12 meses, e alimentação no domicílio, com 1,64%, outros grupos permaneciam acima de uma trajetória compatível com a meta. Serviços acumulavam 5,74% em 12 meses e preços administrados chegavam a 6,12%. Esse contraste mostra que a desinflação brasileira deixou de ser um movimento homogêneo e passou a depender de grupos mais persistentes.

Essa mudança de perfil é importante. Entre 2021 e 2022, a inflação foi fortemente marcada por choques globais: pandemia, gargalos produtivos, commodities, petróleo e câmbio. Entre 2023 e 2025, os serviços passaram a ter peso maior na explicação da inflação, apoiados em mercado de trabalho aquecido, reajustes salariais, demanda resiliente e maior inércia. Agora, em 2026, o quadro ficou multifatorial. O risco não vem de uma única frente, mas da sobreposição de pressões que podem contaminar diferentes etapas da cadeia produtiva.

O petróleo é um exemplo claro dessa nova complexidade. O IGP-DI de abril de 2026 mostrou alta de 1,14% no mês, com aceleração importante no IPA, que subiu 1,29%. No mesmo período, a taxa acumulada em 12 meses do IGP-DI ainda era negativa, em -1,30%, mas a leitura mensal já indicava reversão de tendência em alguns preços industriais. Isso sugere que a inflação ao produtor ainda não havia sido transmitida integralmente para a inflação ao consumidor, mas começava a mostrar sinais de pressão na origem da cadeia.

Nos derivados de petróleo no IPA da FGV, houve reversão depois de meses de desaceleração. A taxa interanual dos derivados de petróleo atingiu 2,73% em abril de 2026, depois de ter chegado a patamares negativos no início do ano. Na cadeia petroquímica, os dados também indicavam disseminação do choque: petróleo e gás avançaram 47,23% em abril de 2026 na variação mensal registrada pelo Monitor FGV IBRE, enquanto produtos finais subiram 7,26%. Na leitura em 12 meses, petróleo e gás acumulavam 31,51%, e produtos finais, 9,34%. Esse movimento é relevante porque mostra que o choque deixou de estar concentrado no petróleo bruto e começou a atingir etapas mais avançadas da cadeia industrial, alcançando setores que, à primeira vista, não parecem diretamente ligados ao petróleo — como embalagens, tintas, resinas, asfaltos e materiais de construção.

Na construção civil, esse canal é particularmente relevante. Materiais como PVC, tintas, resinas, aditivos, asfaltos, impermeabilizantes e outros insumos industriais podem incorporar pressões vindas do petróleo. Além disso, fretes e logística encarecidos ampliam o efeito sobre materiais pesados e de maior dependência de transporte. Recentemente divulgamos um estudo que indicava impacto potencial de 3,89 pontos percentuais no INCC, especialmente via materiais e equipamentos. Entre os itens mais sensíveis aos reajustes informados pelos fabricantes estavam tubos e conexões de PVC, vergalhões e arames de aço, cimento, material para pintura e pisos cerâmicos.

O câmbio é outro vetor de transmissão de primeira ordem que merece atenção. Dada a dolarização de insumos estratégicos, oscilações no valor do real afetam com rapidez tanto os preços no atacado quanto o custo final ao consumidor — especialmente em bens industriais, combustíveis e alimentos exportáveis.

Outro ponto central é o comportamento dos serviços. A inflação de serviços — especialmente aquela intensiva em mão de obra, que em maio alcançava 7% em 12 meses — continua resiliente porque depende menos de commodities e mais de fatores domésticos, como renda, emprego, salários e demanda. Os dados indicavam taxa de desemprego de 6,1%, no menor nível da série para o período, além de alta de 5,5% no salário médio habitual em 12 meses e expansão de 7,1% da massa real de salários. Esses dados ajudam a explicar por que os serviços demoram mais a perder força: há sustentação de renda, mercado de trabalho aquecido e demanda ainda firme em segmentos intensivos em mão de obra.

Esse grupo é especialmente importante para a política monetária, pois carrega maior persistência. Quando serviços sobem de forma disseminada, a inflação tende a ficar mais difícil de trazer de volta à meta. Em abril de 2026, a inflação de serviços estava em 5,74% em 12 meses, patamar elevado e acima da meta.

Além dos serviços, os preços administrados também ajudam a explicar essa persistência, com alta de 6,12%. Energia, combustíveis, planos de saúde, tarifas públicas e outros itens regulados podem gerar pressões relevantes mesmo quando alimentos ou bens industriais desaceleram. Isso cria uma inflação menos homogênea: enquanto alguns grupos aliviam, outros impedem uma queda mais rápida do índice cheio. Por isso, olhar apenas para o IPCA agregado pode esconder movimentos importantes de composição. A energia elétrica é um bom exemplo disso.

A discussão continua no segundo artigo, que examina por que energia elétrica, choques estruturais, cenários de inflação e credibilidade da política econômica passaram a ser decisivos para entender a velocidade de convergência do IPCA à meta.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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