Mudança política no Brasil e turbulência internacional: uma velha história

09/05/2022

Mudanças radicais na política brasileira muitas vezes se seguiram a turbulências internacionais, como a vinda da família real e a Independência ao tempo das guerras napoleônicas e seus desdobramentos imediatos, ou a Revolução de 30 após o crash da Bolsa de Nova York.    

“Sopra demais o vento... Para eu poder descansar... Sopra um vento excessivo... Tenho medo de pensar”. Assim exarava sua angústia Fernando Pessoa. Este poema bem retrata o estado de ânimo dos brasileiros neste desconcertante ano de 2022. Afinal, a pandemia ainda está aí, há uma guerra na Europa, há inflação no Brasil, uma profunda crise social é visível a cada esquina nas grandes cidades do país, e a eleição presidencial de outubro será duríssima. 2023 promete ser extremamente difícil para quem for eleito.

Vento, ventos. “O Brasil e os Ventos do Mundo” é o belo e sugestivo título das memórias do ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia. De fato, não foram poucas as vezes em que os ventos do mundo sopraram excessivamente para, pouco depois, a política nacional mudar de maneira radical.

Senão, vejamos. Sete anos após o fim das Guerras Napoleônicas e do Congresso de Viena, o Brasil se tornou independente. Com a invasão de Portugal pelas tropas francesas em 1807, a família real portuguesa foge para o Rio de Janeiro, dando início à saga que desaguaria no nosso Sete de Setembro há exatos 200 anos.

Um ano após a quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929, tivemos a Revolução de 1930. A gigante crise financeira originada nos Estados Unidos foi a gota d’água no processo de degeneração da Primeira República, iniciado em 1921.

Em 1937, tivemos o golpe que instaurou o Estado Novo. Na segunda metade da década de 1930, a iminência de uma nova guerra mundial acabou causando grande impacto político no Brasil, sobretudo no meio militar. Segundo o historiador Frank McCann, “[...] a política de defesa produziu a ditadura chamada Estado Novo”[1].

Em 1945, Getúlio Vargas é apeado do poder por um golpe militar logo após a participação do Brasil na Segunda Guerra, lutando ombro a ombro com o exército dos EUA. Logo em seguida, inicia-se a primeira experiência democrática do país com a República de 46.

A intensificação da Guerra Fria na América Latina – pelas mãos da Revolução Cubana em 1959 e da Crise dos Mísseis, também em Cuba, em 1963 – atingiu-nos com força, contribuindo para a radicalização ideológica que está na raiz do golpe de 1964, ao qual se seguiu o mais longo regime militar latino-americano.

Por sua vez, o regime militar se encerra na primeira metade da década de 1980 passo a passo com o esmaecimento da Guerra Fria e no rastro da crise da dívida do Terceiro Mundo, iniciada em 1982, a qual acertou o Brasil em cheio.

Findo o regime militar, começa nosso segundo regime democrático em 1985, regime em que nos encontramos até hoje. Todavia, na sequência do Brexit no Reino Unido e da eleição de Donald Trump nos EUA – ambos eventos ocorridos em 2016 e intimamente ligados à ascensão da extrema-direita populista no mundo desenvolvido –, o Brasil, dois anos depois, alça, à presidência da República, Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército, político de extrema-direita e defensor de ditaduras.

Leia aqui o artigo completo na versão digital do Boletim Macro de Abril/2022.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

[1] Ver Frank D. McCann, Brazil and the United States During World War II and Its Aftermath: Negotiating Alliance and Balancing Giants (Cham: Palgrave Macmillan, 2018), p. 61.

Comentários

Delmar Antonio ...
A desonestidade da maioria dos jornalistas e da academia sobre a questão do voto impresso é oceânica. Todos deveriam saber, se fossem intelectualmente honestos, que há projeto aprovado neste sentido e que os partidos de esquerda, a maioria parasitas e corruptos, defendiam o voto impresso lá atrás. O Brasil e mais dois países de terceiro mundo ainda adotam a atual urna eletrônica, que tem mais de 20 anos, quando já existem urnas de 3ª geração. Por que o STE tem dado medo de que as urnas e a votação sejam fiscalizadas? O que há a esconder? Defender esta laia que compõe o atual STF e STE é outra atitude de má fé. As Forças Armadas são a única instituição que o povo brasileiro confia. Já o STF está abaixo do rabo do cachorro. Só o fato de manobrarem para anularem os processos do maior ladrão do Brasil já mostra quem são. Lula não foi declarado inocente. E quando uma juíza solicitou as provas para dar continuiade aos processos em Brasília, as provas lhe foram negadas. E por fim, é preciso deixar claro. Somente ladrões votarão no vigarista cachaceiro de 9 dedos, o maior ladrão do Brasil. Que futuro tem um país onde um ladrão, ex-presidiário, venha governar este país. Mostra o caráter de quem o elegeu. Ou seja, de bandido.

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