Não existe sucateamento no IBGE, e nossa preocupação é quanto ao futuro

26/11/2018

Em relação ao post publicado neste Blog com o título de “Brasil enfrenta risco de apagão estatístico”, de Bráulio Borges, é relevante ressalvar que não nem houve sucateamento do IBGE. De início, buscaremos mostrar como o Brasil é inserido no indicador de capacidade estatística, calculado pelo Banco Mundial.

Nesse indicador, estão incluídas três categorias da produção e disseminação de dados dos países: Metodologia, Fontes de dados e Periodicidade e tempestividade. Na página do Banco Mundial na Internet, nos dados sobre os países (não sobre instituições dos países), é possível compreender melhor a composição deste índice.

Na visão geral – quadro “Overview” no site do Banco Mundial com dados para o Brasil –, observa-se que há uma queda geral do indicador Brasil desde 2005. Saindo de um nível acima da média da América Latina, o indicador cai até a média, oscila em 2015 e passa a acompanhar a média nos últimos anos. Entre as três categorias consideradas, há uma queda mais forte na Fontes de Dados, que a partir de 2014 está abaixo da média. A categoria Metodologia é sempre superior à média e tem uma queda, acompanhada pelo indicador da América Latina como um todo, nos dois últimos anos. Já Fontes de Dados e Periodicidade, a menos de uma queda em 2014, iguala-se à media. Pelo indicador geral identifica-se que houve uma queda na capacidade estatística do país.

No entanto, qual seria o papel do IBGE nesse movimento? Será que todas as fontes adotadas no indicador são do IBGE? Ou pelo menos a maioria?

É preciso analisar a composição do indicador por fonte adotada (por precisão, preservaremos os nomes em inglês):

Assim, na metodologia estatística temos:

1. National accounts base year;

2. Balance of payments manual in use;

3. External debt reporting status;

4. Consumer Price Index base year;

 5. Industrial production index;

6. Import/export prices;

7. Government finance accounting concept;

8. Enrolment reporting to UNESCO;

9. Vaccine reporting to WHO;

10. IMF’s Special Data Dissemination Standard.

Já em termos de fontes de dados, temos:

1. Population census conducted within last 10 years;

2. Agriculture census conducted within last 10 years;

3. Number of poverty surveys conducted within last 10 years (IES, LSMS, etc.);

4. Number of health surveys conducted within last 10 years (DHS, MICS, Priority survey, etc);

5. Completeness of vital registration system

E finalmente, em termos de periodicidade e tempestividade, temos:

1. Periodicity of income poverty indicator;

2. Periodicity of child malnutrition indicator;

3. Periodicity of child mortality indicator;

4. Periodicity of Immunization indicator;

5. HIV/AIDS indicator;

6. Periodicity of maternal health indicator;

7. Periodicity of gender equality in education indicator;

8. Primary completion indicator;

9. Access to water indicator;

10. Periodicity of GDP growth indicator.

Os indicadores agregados das três categorias são estimados a partir de uma enorme e diferenciada quantidade de fontes, misturando estatísticas básicas com informes de organizações internacionais, olhando apenas uma ou outra característica de cada fonte. E não avaliam a qualidade das fontes.

Das listas de itens, que compõem os índices por categoria, aparentemente o IBGE é responsável por três itens de metodologia, três de fontes de dados e um de Periodicidade e tempestividade. Aparentemente porque na, notas metodológicas sobre o indicador, disponível na página do Banco Mundial, os links para os dados são para agências das Nações Unidas ou para a base de dados do próprio banco. Não se obtêm informações diretamente nos produtores.

Os quadros, disponíveis no site do Banco Mundial, mostram as avaliações dos componentes por categoria. A análise desses quadros indica claramente a pouca participação do IBGE no total das fontes escolhidas para compor o indicador e também que a qualidade dos indicadores associados ao IBGE está sempre com a classificação verde, a máxima.

O que pode ser deduzido deste indicador é que não é possível se identificar, mesmo nebulosamente, os dados obtidos do IBGE como os responsáveis pela queda no indicador agregado. Ao contrário, a produção do IBGE considerada no indicador evitou quedas maiores. As pesquisas do IBGE são responsáveis por oito em 25 indicadores e, como indicado nos quadros do anexo, não apresentam problemas nos últimos anos, estando sempre com verde (nota máxima), com exceção de duas fontes: índice de preços ao consumidor, em 2008-9, e contas nacionais em 2012 – 1014, os dois casos associados a bases com mais de dez anos. Em ambos os casos, houve rápida correção com atualizações nas bases, voltando-se ao verde.

A atual situação do IBGE é indiscutivelmente preocupante. A direção do IBGE tem chamado atenção para diversas situações, como a não recomposição do quadro ou a não autorização de orçamento quando da data prevista para uma grande operação. São fatos que, no futuro, poderão afetar a produção do IBGE. Dessa forma, as situações mencionadas são de fato uma preocupação quanto ao futuro da instituição.

Entretanto, quanto ao nosso passado, temos o orgulho e a tranquilidade de saber que nenhuma pesquisa por nós divulgada foi afetada de forma a ter perda de qualidade. Não há nem houve sucateamento do IBGE e os indicadores do Banco Mundial não mostram nada disso. A afirmação do artigo é equivocada e mostra pouca atenção ao conjunto de dados que compõem esse indicador. E como instituição de estatística, analisamos dados de forma imparcial e detalhada para evitar equívocos em sua interpretação.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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