O aumento nas exportações da agropecuária

14/09/2020

O aumento no preço de alguns produtos do setor de agropecuária no mercado doméstico tem sido relacionado com o crescimento das exportações, num cenário de desvalorização do real. As exportações do setor já vinham crescendo em volume, desde março, na comparação mensal interanual. Em junho, a variação mensal chegou a atingir o valor de 42,8% e desde então, as variações diminuíram (Gráfico 1). Em agosto, a variação foi de 13,8%.[1]

Gráfico 1: Variação (%) dos preços e volumes exportados da agropecuária:
Mês contra mês do ano anterior

A elevação nos preços domésticos não é explicada somente pelas exportações. Entressafra de produtos como o arroz, o auxílio emergencial de renda e o aumento da demanda chinesa contribuem para essa alta.

Nos primeiros meses do ano, as expectativas para o setor não eram favoráveis. O acordo entre a China e os Estados Unidos, com metas de exportações, suscitaram temores nos produtores brasileiros. No entanto, como mostram os dados até julho, as metas provavelmente não serão cumpridas. Segundo o acompanhamento realizado por Chad Bown[2], a meta de US$ 33,4 bilhões de exportações de produtos agropecuários dos Estados Unidos para a China no ano de 2020 não será cumprida. Até julho, as exportações acumuladas eram de US$ 7,6 bilhões, 39%, do valor esperado para os sete primeiros meses do ano, segundo a meta negociada.

No Brasil, os temores dos efeitos negativos do acordo foram afastados com o crescimento em volume das exportações para a China. No acumulado do ano até agosto, o volume exportado para a China aumentou 31,4% em relação a igual período de 2019. A soja, principal produto da pauta de exportação do Brasil e na pauta para a China, registrou variação de 30,8% em valor e de 29% em volume na comparação interanual do acumulado até agosto, entre 2019 e 2020. As exportações de carne cresceram em volume 15,1% e, em valor, para a China ,138% (carne bovina) e 154% (carne suína)

Na pauta chinesa não entra o arroz, um dos produtos destacados no debate atual. As exportações registraram crescimento de 58% (arroz sem casca) e 163% ( arroz com casca), representam 0,29% das exportações e somaram cerca de US$ 407 milhões até agosto, na comparação do acumulado até agosto de 2019 e 2020. Nesse mesmo período, as importações recuaram 11,4% (arroz sem casca) e 18,3% (arroz com casca). Uma das hipóteses é que o câmbio desvalorizado não compense as importações taxadas com uma alíquota de 10% (arroz sem casca) e 12% (com casca), mesmo com escassez de oferta.

Nesse caso, se a hipótese do desabastecimento do produto é correta, a decisão do governo de zerar a alíquota de importação para uma cota de 400 mil toneladas até o final do ano faz sentido. Entretanto, declarações de produtores agrícolas na imprensa chamam atenção que a importação, como forma de pressionar os preços para baixo, depende da configuração do mercado de distribuição. Além disso, a baixa de preços no varejo não é imediata e se espera que a oferta comece a se regularizar nos próximos meses.

No entanto, o risco maior está nas declarações sobre um possível controle de preços para que não aumente o custo da cesta básica. Controle de preços como forma de driblar a inflação tem vida curta e termina por desorganizar os preços relativos e a oferta agrícola.

Um dos poucos resultados positivos no cenário econômico brasileiro tem sido a melhora do superávit da balança comercial, puxada pelo aumento das exportações da agropecuária. Pensar formas de assegurar o consumo da cesta básica para a população vulnerável é crucial, mas as medidas têm que considerar alternativas possíveis que não desincentivem a oferta agrícola.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva da autora, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.      


[1] Para uma análise detalhada dos índices de comércio exterior em agosto ver o Boletim de Comércio Exterior do Ibre/FGv a ser divulgado em 17/09.

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