Macroeconomia

O PT e a “mobilização dos organizados”

10 ago 2018

O sistema eleitoral brasileiro favorece uma orientação personalista da política, em detrimento dos partidos. As regras do sistema, particularmente a lista aberta, o grande número de cadeiras legislativas em disputa em cada estado (i.e., “alta magnitude”) e o modo de financiamento prevalente pelo menos até o último ciclo eleitoral reforçam-se mutuamente, fazendo com que haja uma prevalência do candidato sobre o partido. Nada mais natural, dessa forma, que candidatos se preocupem sobretudo em cultivar suas próprias reputações e imagens pessoais. 

A consequência lógica, da ótica do eleitor, seria uma total ausência de identificação com partidos. A figura abaixo, já apresentada no meu post anterior, sugere que essa previsão é basicamente correta. Produzida a partir de pesquisas do Datafolha, a figura descreve a evolução da simpatia partidária no Brasil ao longo das últimas três décadas e mostra que há mais de 20 anos o PMDB vem perdendo apoiadores e hoje comanda menos de 4% das simpatias. A simpatia em relação ao PSDB, um dos partidos mais bem-sucedidos eleitoralmente, jamais ultrapassou 7% e hoje é apenas a metade disso. A identificação com outros partidos menores raramente passou de 1%, e por isso nem é incluída na figura. 

Tudo seria como o previsto, não fosse o PT. A simpatia em relação ao PT cresceu durante a maior parte do período em análise, chegando a alcançar quase 30% do eleitorado. Hoje, um em cada cinco entrevistados pelo Datafolha mencionam simpatia pelo partido, e isso depois das jornadas de 2013, da crise econômica e do impeachment. 

Em um trabalho de 1999, que hoje já pode ser considerado clássico, David Samuels examinou os incentivos para cultivar um voto partidário em um sistema completamente individualista. Analisando, na época, a infância e adolescência do PT, Samuels notou que o fato de o partido ter sido inicialmente um real "outsider" no sistema político brasileiro, sem acesso a recursos do governo, levou-o a cultivar uma imagem própria. O PT, ao contrário dos demais partidos da época, não nasceu da refiliação de políticos com cargos eletivos e, portanto, acesso a recursos de governo. A falta de recursos torna impossível competir pelo voto clientelista ou mesmo assistencialista. A falta de recursos também dificulta a comunicação direta com eleitores que seriam potencialmente sensíveis a uma mensagem mais programática. Neste sentido, uma legenda com conteúdo permitiria à agremiação se comunicar com essa parcela do eleitorado, com um custo relativamente mais baixo. Assim, para os membros de um partido de "outsiders", e sem recursos, investir numa legenda política que comunique valores e preferências é uma opção com alto retorno político potencial. Como cultivar essa legenda requer coordenação e colaboração dos membros, e ela tende a não ser possível se cada político detém recursos próprios para avançar sua própria carreira. 

Essa análise se encaixa bem na primeira década e meia de vida do PT, e contribuiu para a formação da "marca" PT. A amplicaçãodo número de simpatizantes do partido, no entanto, parece estar associada à forma pela qual o partido se expandiu pelo país afora.  

Em “Partisans, Nonpartisans, and  Antipartisans, Voting Behavior in Brazil", eu e Samuels analisamos o que acontece com o eleitorado quando um dos grandes partidos brasileiros se estabelece fisicamente em um novo município. Mostramos, por exemplo, que qualquer que seja o partido, ele tende a conseguir mais votos na próxima eleição para a Câmara Federal. Até aqui, não há surpresa. A presença de membros do partido na localidade faz com que mais pessoas votem no partido. Também não há grande surpresa, dado o que foi discutido acima, que apenas o PT consiga aumentar de simpatizantes nas localidades aonde chega. O interessante nesse processo é que este aumento de simpatizantes do PT aconteceu somente em municípios onde a “densidade da sociedade civil” anterior à presença do partido já  era alta. Ou seja, quando o PT se estabeleceu em locais onde havia associações e sindicatos, o partido conseguiu angariar simpatizantes. Quando se estabeleceu em locais com uma sociedade civil menos organizada, o resultado foi semelhante ao o que ocorre com os demais partidos. 

A regularidade empírica que constatamos é compatível com descrições do modus operandi do PT, que tendeu a recrutar pessoas que já participavam de outras organizações da sociedade civil. Pessoas que valorizam participação em entidades de representação (dos mais variados tipos) eram petistas potenciais, e, oferecida a oportunidades, muitos se converteram em petistas efetivos. Esta ligação via "processos participativos" é bastante orgânica. O partido sempre reconheceu, dentro de sua estrutura, as diferentes entidades de “origem”. Assim, mesmo quando o PT adotou políticas substantivas que desviaram das preferências de seus membros, a prática diária nas entidades e o comprometimento com o processo de representação política sustentaram a identificação.  

Essa estratégia pode ser descrita como a de “mobilizar os já organizados” e não é algo que o PT inventou. Muitos dos partidos políticos tradicionais na Europa Ocidental foram construídos tendo entidades sindicais ou agrupamentos cívicos e/ou religiosos como base. Essa estratégia também não é completamente diferente do que fazem hoje alguns políticos evangélicos, embora talvez de forma menos estruturada do que o PT. A analogia, no entanto, não se estende necessariamente para grupos que se organizam via internet. No caso de entidades "reais", os custos da ação coletiva já foram pagos pelos membros, e, portanto, a adesão a uma nova organização é relativamente barata. Na internet, pelo contrário, é possível “participar” de entidades virtuais sem custo algum, e, portanto, a adesão a uma organização partidária real seria, ainda, um salto bastante custoso e, por isso, improvável. 

Na terça-feira, 14/8, às 19 horas, Cesar Zucco e David Samuels vão debater o livro “Partisans, Antipartisans, Nonpartisans, na Blooks Livraria RJ, na Praia de Botafogo, 316 (Espaço Itaú de Cinema), no Rio de Janeiro. A mediação será feita pelos jornalistas Déborah Thomé e Fernando Dantas.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Deixar Comentário

To prevent automated spam submissions leave this field empty.