Recessão e retomada de 2020 invertem padrão de ciclos econômicos do passado

08/02/2021

A pandemia da Covid-19 provocou uma recessão mundial e posterior retomada com padrões totalmente diversos das oscilações econômicas do passado. Com a quarentena e o isolamento social, o surto do novo coronavírus atingiu muito mais o setor de serviços do que a indústria, e quase não teve efeito na agropecuária. Com base nos processos de contrações anteriores da economia brasileira, esta Carta procura trazer elementos que ajudem a entender a recessão atual.
 

Na recessão do Brasil em 2020, após um baque inicial, a indústria foi beneficiada, especialmente no segmento da transformação, pelo consumo popular aquecido em itens como eletrodomésticos, eletrônicos, computadores, celulares, mobiliário, material de construção etc. Para alguns produtos finais e matérias-primas, chegou a haver redução expressiva de estoques, gargalos de oferta e grande alta de preços.
 

Esse fenômeno teve algumas causas que ficaram claras a posteriori. Os programas de governo de sustentação da renda das famílias e do emprego, com absoluto destaque para o auxílio emergencial, significaram uma poderosa injeção de poder de compra, que mais do que compensou as perdas sentidas no mercado de trabalho. Adicionalmente, impedidas de consumir serviços, as famílias redirecionaram seu consumo para bens.
 

Ao analisar o desempenho recente da economia brasileira, chama a atenção a forte retomada. Aloisio Campelo, superintendente de Estatísticas Públicas do FGV IBRE, aponta que, segundo dados do Monitor do PIB do FGV IBRE, em novembro de 2020 o PIB brasileiro já havia recuperado 87% das perdas de março e abril, e estava 1,7% abaixo do nível de fevereiro do ano passado. No caso da mediana das nove recessões anteriores à de 2020, datadas pelo Comitê de Datação de Ciclo Econômico do FGV IBRE (Codace), passados 7 meses de seu início, a recuperação verificada foi de apenas 48% da perda do PIB. Como se vê, após 7 meses, a recuperação da economia em 2020 foi significativamente mais vigorosa do que a experiência pregressa poderia sugerir (87% contra 48%). 
 

Quando se analisam os setores do PIB pela ótica da oferta, após 7 meses do início da atual recessão, a indústria de transformação registrava um ganho equivalente a 122% do total de perdas. O comércio, outro setor de destaque, avançava 112% na mesma base de comparação. O que contrasta com o ocorrido, sempre na mesma comparação, com indústria e comércio na mediana das nove recessões anteriores, com recuperação de, respectivamente, 22% e 16% das perdas.
 

Já os serviços, que 7 meses após o início da recessão de 2020 haviam recuperado 84% das perdas iniciais, registraram na mediana das nove recessões anteriores um avanço de 128%, também no sétimo mês após o início. O resultado histórico tão expressivo se deve, em parte, ao fato de que o setor costuma perder muito pouco durante recessões. Na mediana das nove recessões anteriores, a perda de PIB dos serviços foi de apenas 1,8%, contra expressivos 11% em 2020. Para fins de cotejamento, a indústria recuou, em termos medianos, 11,9% nas recessões anteriores e, desta vez, perdeu 15,9% entre fevereiro e abril. Não muito distante.
 

No padrão clássico dos ciclos econômicos, as recessões e retomadas são puxadas principalmente pela indústria, com os serviços com o papel de estabilizador. Como fica evidenciado, esse esquema foi posto de pernas para o ar na recessão da Covid-19. Agora, os serviços contribuíram expressivamente para a dinâmica da queda e são o fator vital para a retomada, uma vez que a indústria vem apresentando robusta recuperação. 
 

As características da recessão de 2020 tornam evidente as razões pelas quais emergiu com destaque a questão dos “invisíveis”, dezenas de milhões de trabalhadores informais que não são protegidos nem pela CLT nem pelos programas vinculados ao Cadastro Único, voltados aos muito pobres, como o Bolsa Família. A criação do auxílio emergencial foi uma reação ao efeito devastador do isolamento social sobre o meio de vida dessas pessoas e famílias, deixando à mostra uma importante lacuna no sistema brasileiro de seguridade social. Ao atingir de forma intensa os serviços – em especial, o subsetor dos chamados “outros serviços” – a recessão do ano passado explodiu no colo do imenso contingente de trabalhadores informais. 
 

Segundo Rodolpho Tobler, economista do FGV IBRE, dos 8,8 milhões de trabalhadores a menos na população ocupada (PO) total em novembro de 2020, comparado ao mesmo mês de 2019, a metade, ou 4,9 milhões, era de serviços. Vale destacar que, deste grupo, 4 milhões foram subtraídos do segmento de “outros serviços”.
 

Tobler observa ainda que o saldo de respostas do quesito de “emprego previsto” das Sondagens do IBRE sugere que houve forte impacto em todos os setores inicialmente, mas, no caso dos serviços, as perdas perduraram. Ele explica que empresários são mensalmente consultados se planejam aumentar, manter ou reduzir o quadro de funcionários nos próximos 3 meses. O saldo do “emprego previsto” é construído pela diferença entre o percentual de respostas “aumentar” e o percentual de “diminuir”. Ou seja, quando o saldo está negativo, há mais empresários planejando demitir do que contratar. 
 

Em abril do ano passado, indústria, serviços, comércio e construção tiveram saldos do indicador de emprego previsto de, respectivamente, -42,6, -45,5, -28,0 e -48,9. A partir desse ponto, os saldos ficaram gradativamente menos negativos e, em seguida, passaram ao território positivo entre agosto e setembro, com exceção justamente dos serviços. Em janeiro de 2021, os saldos de indústria, comércio e construção foram de, respectivamente, 17,8, 11,9 e 11,5. Em contraste, o saldo de emprego previsto dos serviços em janeiro foi de apenas 1,2, vindo de uma leitura negativa (-1,1) em dezembro.
 

De acordo com Viviane Seda Bittencourt, coordenadora das sondagens do FGV IBRE, uma das maiores dificuldades da atual retomada econômica é justamente que os segmentos que mais contratam, como o de “outros serviços”, estão sendo particularmente prejudicados. Assim, o mercado de trabalho sofre, o que retroalimenta a insegurança do consumidor, cujo índice de confiança recua há 4 meses consecutivos.
 

Olhando para 2021, o setor de serviços, como apontam os números desta Carta, continua numa situação crítica, que tende a se agravar caso a combinação da piora no número de casos da Covid-19 e da lentidão na vacinação se verifique. Paralelamente, há um enfraquecimento geral da economia provocado pelo fim do auxílio emergencial (ainda há dúvidas sobre se algo será criado para substituí-lo a partir de fevereiro) e pelo efeito negativo da alta da inflação na renda real. O fim dos programas de manutenção de emprego, como o BEm (o maior deles), também vem causando insegurança sobre o futuro da renda, num primeiro momento, e provavelmente trará desemprego num segundo, afetando negativamente o consumo.
Aloisio Campelo relata que a confiança empresarial e do consumidor subiram até outubro. A partir daí, no caso dos consumidores, recuaram primeiro as expectativas e, a partir de dezembro, a avaliação sobre a situação atual. Segundo o economista, a confiança do consumidor é um pouco menos aderente ao ciclo econômico – afinal, a economia se recuperou bem no final do ano –, e nela pesam preocupações com saúde, aceleração da inflação e medo de desemprego. Em janeiro, por outro lado, já foi registrada queda, tanto por parte de consumidores como de empresários, das expectativas e da percepção sobre a situação atual.

 

A última safra de indicadores econômicos, tanto quantitativos como qualitativos, indica que as assimetrias do ciclo de recessão e retomada no Brasil iniciado em 2020 não estão se abrandando. Há sinais de arrefecimento na indústria, cujos indicadores de confiança desaceleraram em dezembro e janeiro, mas o movimento foi acompanhado por piora também nos serviços – de forma que o desequilíbrio setorial na retomada não diminuiu. Pela importância dos serviços na dinâmica da retomada, acelerar a vacinação da população brasileira é absolutamente essencial. 
 


O texto é resultado de reflexões apresentadas em reunião por pesquisadores do IBRE. Dada a pluralidade de visões expostas, o documento traduz minhas percepções sobre o tema. Dessa feita, pode não representar a opinião de parte, ou da maioria, dos que contribuíram para a confecção deste artigo.

Esta é a Carta do Ibre de fevereiro de 2021, publicada na revista Conjuntura Econômica do mesmo mês.

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