As táticas de Lula e o fim da direita envergonhada

28/11/2019

No dia 8 de novembro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi solto após 580 dias de prisão na sede da Superintendência da Polícia Federal do Paraná, em Curitiba. A soltura do ex-presidente foi decorrência direta da decisão tomada, no dia anterior, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), segundo a qual um réu só pode ser preso após o trânsito em julgado, revogando, portanto, a jurisprudência que, desde 2016, havia possibilitado a prisão logo após a condenação em segunda instância. Sem entrar nos detalhes jurídicos do veredito do STF, este foi, em boa medida, resultado da desmoralização da Lava-Jato pelos vazamentos publicados pelo portal The Intercept desde junho deste ano, vazamentos que mostraram inequívoca coordenação entre o então juiz Sérgio Moro e procuradores do Ministério Público.

A soltura de Lula é prenhe de consequências. Tudo dependerá de como agirá. Logrará fazer o PT ressurgir nas grandes cidades do Centro-Oeste, Sudeste e Sul em 2020? Conseguirá levar seu partido novamente ao segundo turno em 2022?

O jornalista Elio Gaspari, em recente artigo publicado n’O Globo, resume, de forma precisa, a essência das táticas de Lula ao longo de toda sua carreira política: “Olhando-se para os 40 anos de sua atividade política, pode-se apenas especular que repita o jogo de espelhos em que usa um discurso radical e moralista para assustar os adversários, transformando-se em seguida num tolerante moderado capaz de pacificar suas próprias fileiras, apagando incêndios que ajudou a soprar. Esse foi o dirigente sindical de grandes greves perdidas do ABC e esse foi o ‘sapo barbudo’ do temido PT do final do século passado. Esse foi também o candidato a presidente que em 2002 assustou o andar de cima e adoçou-o com a ‘Carta aos Brasileiros’ de Antonio Palocci. Ele viria a se transformar num petista milionário, quindim dos amedrontados. Mesmo na carceragem de Curitiba, esse foi o cacique que bancou a permanência de Gleisi Hoffmann na presidência do partido, contendo articulações mais moderadas. A moderação, quando tiver que vir, se vier, virá dele”[1].

Cabe aos analistas refletir a respeito de se as tradicionais táticas de Lula – cuja síntese é apagar “incêndios que ajudou a soprar” – têm condições de êxito na atual quadra política nacional. A resposta aqui defendida é a de que têm baixa probabilidade de sucesso, como se explica a seguir.

Em primeiro lugar, é fundamental registrar que as táticas lulistas deram certo num contexto de enfraquecimento estrutural da direita. Quando Lula emerge como líder sindical no ABC, o regime militar já estava batendo em retirada. Com a volta dos civis e da democracia a partir de 1985, a direita continuou a ocupar importantes posições de poder no Executivo Federal, no Congresso Nacional, no Judiciário, nos governos e legislaturas estaduais e municipais e no seio da Forças Armadas. Mas esse poder foi caindo ao longo do tempo, sobretudo a partir da chegada do PT à Presidência da República em 2003. Na verdade, entre 1985 e o início da década de 2010, o Brasil teve uma “direita envergonhada”, que recusava dizer seu nome às claras. Foi nesse ambiente que as táticas de Lula vicejaram.

A partir do catastrófico segundo mandato de Dilma Rousseff, a direita começou a ascender, a ponto de um candidato de extrema direita, autoritário e reacionário, Jair Bolsonaro, vencer o pleito presidencial de 2018. Por conta do caótico governo liderado pelo ex-capitão do Exército, pode ser que a direita não repita esse feito em 2022, mas jamais voltará a ser a direita envergonhada que, dócil e oportunisticamente, aceitou os acenos de conciliação de Lula até 2014.

Ou seja, se Lula tentar soprar um novo incêndio para, depois, oferecer-se como líder dos bombeiros que tentarão apagá-lo, é muito provável que o fogo se espalhe e faça a vida política nacional arder em chamas nunca dantes vistas desde 1985.

Portanto, se Lula e o PT quiserem ter não apenas sucesso eleitoral, mas também contribuir para a manutenção do regime democrático e o renascimento da política, é imperativo que compreendam a nova quadra histórica em que vive o país e mudem suas táticas. Isso significa necessariamente fazer uma autocrítica e entabular – publicamente – conversas e acordos com o centro político, sobretudo com o PSDB, o MDB, e o DEM de Rodrigo Maia. Hoje, um tal conselho pode soar como insulto a Lula e à ala radical do PT comandada por Gleisi Hoffmann. Assim, somente quando os custos das velhas táticas se tornarem muito claros, as mentes começarão a se concentrar.


Este artigo faz parte do Boletim Macro IBRE de outubro de 2019. Leia aqui a versão integral do BMI Outubro/19

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

[1] Elio Gaspari, “O fator ‘Lula Livre’”, O Globo, 16/10/2019, disponível em https://oglobo.globo.com/brasil/elio-gaspari/o-fator-lula-livre-24020320.

Comentários

Pedro Henrique
"inequívoca coordenação entre o então juiz Sérgio Moro e procuradores do Ministério Público." Interessante é notar que praticamente todos, diria que 9 de 10 com base nas minhas leituras, os pedidos feitos pelo promotores foram posteriormente negados pelo ex-juiz. Portanto, o que pergunto: coordenação exige coordenação, ou existe coordenação descoordenada?
Fernando.
Ciência de adjetivação. Vá catar coquinho !

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