Construção

Não é só que “o filho do pedreiro não quer ser pedreiro”. É que o pedreiro tem cada vez menos filhos

29 abr 2026

A escassez na construção civil não é só preferência: resulta do envelhecimento e maior escolaridade, que reduzem oferta de jovens menos qualificados. O problema é estrutural e exige ganhos de produtividade, tecnologia e reorganização do setor.

A queixa do setor de construção civil, de que não há mão de obra suficiente para a expansão das atividades, aparece recorrentemente em ciclos de aquecimento imobiliário. Na entrevista, o CEO da Benx descreve um gargalo que estaria atrasando lançamentos e prazos de obras e atribui a escassez, em parte, a uma mudança de preferências: “o filho do pedreiro não quer mais ser pedreiro”, porque o trabalho é pesado e porque surgiram alternativas como cursos técnicos e a economia de aplicativos.

Esse diagnóstico é socialmente insensível, mas nem por isso deve descartado a princípio. Afinal, preferências importam, e o leque de ocupações realmente ficou mais amplo. Especialmente para construção civil, em que há certa intercessão do perfil de mão de obra com aqueles que trabalham em aplicativos. No entanto, o empresário deixa de ver o principal componente estrutural do problema e, por isso, tende a subestimar o quanto a escassez é persistente e o quanto ela exige resposta de produtividade.

O ponto central é simples: não é apenas que o filho do pedreiro não quer ser pedreiro, mas que o pedreiro tem cada vez menos filhos. Essa queda do número de jovens atinge em cheio setores cuja força de trabalho sempre foi mais jovem e mais masculina, como construção, indústria e comércio. A oferta de mão de obra nesses setores não está mudando apenas por questões de preferências, mas por aritmética demográfica. Quando a população envelhece e as coortes jovens encolhem, algumas atividades passam a competir por um contingente menor de trabalhadores potencialmente disponíveis, mesmo que a taxa de ocupação não mude.

É por isso mostrar isso projetando qual seria o nível de emprego setorial se apenas a composição demográfica tivesse variado entre 2012 e 2025, mantendo constantes as probabilidades de cada grupo trabalhar em cada atividade. Esse exercício pode ser estendido ao adicionar a outra grande transformação do período: a elevação acelerada da escolaridade. Afinal, o Brasil não apenas envelheceu, mas escolarizou rapidamente sua população, com expansão do ensino médio completo e do ensino superior. E isso importa porque, mesmo dentro da mesma faixa etária, jovens com acesso ao ensino superior tendem a ser menos propensos a trabalhar em ocupações intensivas em esforço físico e com menor prêmio de carreira, como a construção civil (especialmente nos segmentos mais informais), e mais propensos a migrar para setores que demandam qualificação formal e oferecem trajetórias ocupacionais diferentes.

Para visualizar a lógica do exercício, o Gráfico 1 mostra exatamente o “tijolo” básico da metodologia: a fração de pessoas que trabalha na construção civil em 2012, separada por faixa etária e escolaridade. Ele deixa claro que a construção não é “neutra” do ponto de vista demográfico — ela é muito mais intensiva em alguns perfis do que em outros. Entre trabalhadores com médio incompleto, a participação na construção sobe rapidamente ao longo do início da vida adulta e chega a pouco acima de 10% no auge (25–39), caindo depois com a idade. Já entre trabalhadores com médio completo, essa participação é bem menor (em torno de 4% a 5% no pico), e entre os que têm ensino superior (completo ou incompleto) ela fica tipicamente perto de 2% a 3% ao longo da maior parte do ciclo de vida, aproximando-se de níveis baixos nas idades mais extremas.

 

É justamente esse padrão que permite construir o contrafactual puxado apenas por demografia e escolaridade. Se estima, no ano-base (como no gráfico), as probabilidades de ocupação em cada atividade por faixa etária e escolaridade. Depois, em cada ano, são recalculados apenas os pesos dos grupos na população e se somam essas massas ponderadas pelas probabilidades fixas do ano-base. Assim, se a participação dos grupos com maior propensão a estar na construção (como, por exemplo, 25–39 com médio incompleto) cai ao longo do tempo, a projeção para o emprego do setor também cai, mesmo que ninguém mude de preferência. O efeito aparece “sozinho” porque o país trocou, ao longo do tempo, a composição de brasileiros que existia em 2012 pela composição dos que estavam ativos em 2025: relativamente menos jovens, relativamente mais adultos mais velhos, e relativamente mais pessoas com ensino médio completo e superior.

A tabela abaixo mostra esse resultado: ela mostra um contrafactual em que somente demografia e perfil de escolaridade variam de 2012 a 2025, mantendo fixas as probabilidades de trabalho por atividade dentro de cada grupo demográfico/educacional. O recado é direto: enquanto a população em idade ativa cresce 13,4% no período (153,6 para 174,1), o emprego na construção civil cairia 10,6% (7,51 para 6,71) “apenas” por conta da mudança de composição. A mesma lógica produz quedas relevantes também em agropecuária (-15,5%) e serviços domésticos (-12,7%), atividades historicamente associadas a perfis demográficos e educacionais específicos que estão encolhendo como proporção do total.

Fonte: Elaboração própria com dados da PNADC (IBGE); variação relativa ao nível de 2018

Tais resultados mostram que a falta de mão de obra na construção vai além de um problema conjuntural gerado por um boom imobiliário e mudança de preferências. É, de fato, o encontro de um choque de demanda (mais obras) com uma tendência estrutural de oferta (menos jovens e mais escolaridade). Se, para simplificar, a construção civil sempre dependeu mais de trabalhadores jovens e menos escolarizados, então envelhecimento, junto a uma maior escolarização, reduz o contingente relativo de trabalhadores com maior propensão a ocupar essas vagas. E isso vale não apenas para pedreiros, mas para várias ocupações operacionais do canteiro, muitas delas sem substitutos diretos no curto prazo.

O mais importante: no futuro, essa tendência não melhora. A segunda tabela projeta as tendências de 2025 a 2040, usando estimativas populacionais do IBGE e mantendo fixas as taxas de ocupação setorial de 2025 por grupo etário. Mesmo nesse cenário “conservador”, em que não se supõe nenhuma mudança adicional de preferências, tecnologia ou educação, o contraste já aparece: enquanto a população em idade ativa cresce 9,1%, o emprego na construção cresce apenas 3,7%. Indústria (1,2%) e comércio (0,7%) crescem ainda menos. Ou seja, a pressão sobre salários relativos aumentará ainda mais,e elevando a probabilidade de gargalos justamente quando há expansão da demanda.

Fonte: Elaboração própria com dados da PNADC (IBGE); número índice relativo ao nível de 2025

O cenário fica mais duro quando, além da demografia, se permite uma continuidade (mesmo que lenta) da transição educacional — isto é, um aumento gradual da escolaridade média e da presença de ensino superior nas coortes. A terceira tabela faz exatamente isso e aponta que os setores mais afetados voltam a ser agropecuária, construção civil e serviços domésticos, que passam a cair em nível relativo (e, em alguns casos, absoluto), enquanto setores mais intensivos em qualificação formal crescem com força, como educação e saúde, administração pública e informação e comunicação. Nesse cenário, a construção cairia 12,3% entre 2025 e 2040, mesmo com a população em idade ativa crescendo.

Fonte: Elaboração própria com dados da PNADC (IBGE); número índice relativo ao nível de 2025

A decomposição sugere é que o problema é mais profundo do que muitos pensam: o contingente de jovens que historicamente abastecia essas ocupações está diminuindo, e a parcela que permanece jovem está, em média, mais escolarizada e com maior mobilidade ocupacional. Assim, a construção enfrenta um choque persistente, e é preciso redesenhar a forma de produzir, porque a restrição de mão de obra tende a ser permanente.

O problema é que essa transição, no Brasil, é mais difícil do que em muitos países ricos por três razões combinadas. Primeiro, porque envelhecemos antes de enriquecer: enfrentamos a escassez relativa de trabalhadores jovens sem ter acumulado o nível de capital por trabalhador e a produtividade que tornariam a substituição de trabalho por máquinas mais simples e barata. O Gráfico 2 ajuda a entender por que esse choque de oferta de trabalho é particularmente duro no Brasil. Ele mostra a taxa de dependência idosa (65+) com uma medida de capital por hora trabalhada. Em economias avançadas, a trajetória típica é envelhecer com forte aprofundamento de capital, o que significa que a máquina, o equipamento e a tecnologia crescem junto com a idade média do trabalhador. O Brasil, por outro lado, envelhece, mas permanece com baixo capital por hora.

Por exemplo, estamos nos aproximando de uma dependência idosa semelhante à que o Japão tinha nos anos 1970, mas, já naquele período, as empresas nipônicas operavam com uma intensidade de capital muito superior à brasileira atual, substituindo trabalho manual por mecanização e ganhos de produtividade. Com isso, a substituição de trabalho por capital acaba sendo mais lenta e mais cara do que deveria ser no Brasil.

Quando se compara a construção em países ricos com a construção brasileira, essa diferença costuma aparecer de forma visual: lá, menos trabalhadores por canteiro e mais máquinas, enquanto aqui, há mais trabalhadores e menos tecnologia. Algo parecido ocorre em serviços domésticos: países ricos usam muito menos trabalho doméstico pago porque eletrodomésticos, automação e bens duráveis são mais acessíveis e difundidos. Em um país em transição demográfica e educacional, essa substituição seria o ajuste esperado, mas ela é travada por baixo capital e tecnologia cara. O resultado tende a ser o mesmo que o setor está relatando: escassez persistente, pressão sobre custos, e necessidade de uma resposta de produtividade.

Adicionalmente, não temos políticas migratórias robustas capazes de amortecer a queda da força de trabalho em segmentos específicos, ao contrário de várias economias desenvolvidas que, mesmo envelhecendo, recorreram a fluxos migratórios para preencher lacunas no curto prazo. Finalmente, a tecnologia é encarecida no Brasil por tributação, barreiras comerciais, custo de financiamento e os custos regulatórios e logísticos.

O debate público costuma tratar a falta de mão de obra como um problema moral  ou apenas como um problema “de oferta de cursos”. Mas os gráficos mostram que o problema é estrutural, que vai mais afetar mais alguns setores por um período longo. Para a construção, isso significa que o ajuste virá, queira o setor ou não, por uma combinação de salários relativos mais altos, mudança de organização produtiva e aumento de produtividade. Deve-se encontrar a forma de produzir moradia e infraestrutura com uma força de trabalho relativamente menor e mais escolarizada. Quanto mais cedo a estratégia for assumida, menor o custo do ajuste, e menor a chance de que gargalos recorrentes virem um freio persistente para investimento e crescimento nas cidades brasileiras.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Deixar Comentário

To prevent automated spam submissions leave this field empty.
Ensino