Cenários

Geração de vagas surpreende em março, mas trimestre reforça arrefecimento

19 mai 2026

Em março deste ano, o saldo formal de 228.028 postos surpreendeu as projeções devido ao efeito de calendário, mas o trimestre acumulou queda de 9,1% ante 2025. Indústria (-26,2%), Agropecuária (-72,0%) e Comércio (-149,2%) sofreram fortes recuos.

Nesta edição, analisa-se o desempenho do mercado de trabalho formal em março de 2026 com base nos dados do Novo CAGED. O mês registrou a criação líquida de 228.208 postos de trabalho, resultado de 2.526.660 admissões e 2.298.452 desligamentos. Esse desempenho superou expressivamente as expectativas do mercado, cuja mediana projetava 155 mil vagas, rompendo inclusive o teto das estimativas (220 mil). O saldo é 185,3% superior ao registrado em março de 2025 (79.994 vagas). Contudo, cabe ressaltar que esse salto decorre, em grande medida, de um efeito de calendário: enquanto em 2025 o feriado ocorreu em março, em 2026 ele foi celebrado em fevereiro. A fragilidade subjacente do mercado de trabalho fica evidente ao compararmos o resultado atual com março de 2024 (245.599 vagas), mês que compartilhou a mesma sazonalidade de dias úteis e, ainda assim, apresentou uma geração de vagas 7,1% superior à atual.

No acumulado do primeiro trimestre de 2026, o saldo totalizou 613.373 postos formais, provenientes de 7.183.013 admissões e 6.569.640 desligamentos. O resultado representa um recuo de 9,1% em relação ao acumulado de janeiro e março de 2025 (675.119 vagas) e uma retração de 15,6% frente ao mesmo período de 2024 (726.578 vagas).

Sob a perspectiva setorial, conforme detalhado na Tabela 1, o saldo isolado de março de 2026 apresentou resultados positivos na maioria dos grandes grupamentos, com o setor de Serviços liderando a geração de empregos (152.391 vagas), seguido por Construção (38.316) e Indústria (28.336). O Comércio também registrou saldo positivo (27.267), revertendo o déficit observado no mesmo mês do ano anterior. A única exceção foi a Agropecuária, que aprofundou seu saldo negativo para -18.096 vagas.

No acumulado do ano, cenário que permite analisar a tendência real isolando as distorções atípicas de calendário, a trajetória de desaceleração do emprego formal torna-se evidente. O setor de Serviços e a Construção Civil atuaram como importantes pontos de resistência, sendo os únicos a registrar crescimento na geração de vagas frente ao mesmo período de 2025 (altas de 2,6% e 18,8%, respectivamente). Em contrapartida, a Indústria encolheu 26,2% e a Agropecuária sofreu uma retração expressiva de 72,0%, registrando o seu pior saldo para um primeiro trimestre desde 2021. O Comércio, por sua vez, aprofundou seu déficit, passando de -7.835 postos nos três primeiros meses de 2025 para -19.525 em 2026, o que representa uma piora de 149,2%.

Para compreender de forma mais granular as fontes dessa desaceleração trimestral, a Tabela 2 apresenta as dez seções de atividade econômica com as maiores reduções percentuais no saldo de empregos. O Comércio e Reparação de Veículos Automotores lidera o ranking de piora relativa, com um recuo de 149,2% e o aprofundamento de seu déficit no período. Outro destaque negativo ocorreu nas Atividades Financeiras, de Seguros e Serviços Relacionados, cujo ritmo de contratações foi quase anulado ao registrar uma queda de 96,6%, passando de 4.535 vagas em 2025 para apenas 155 em 2026. A seção de Agricultura, Pecuária, Produção Florestal, Pesca e Aquicultura também apresentou uma contração de 72,0%, o que reflete uma redução de quase 38 mil postos gerados na comparação interanual.

Destaca-se também o impacto substancial nas Indústrias de Transformação. Embora essa seção ainda seja responsável por um volume absoluto expressivo de vagas, ficando atrás apenas da Construção (120.547 postos), o seu saldo encolheu 27,5%, caindo de 146.492 para 106.279 contratações líquidas. Esse recuo resultou em uma perda de participação no saldo total da economia, que passou de 21,7% para 17,3%. Além disso, atividades mais dependentes do orçamento das famílias e do setor público, como Administração Pública (-23,7%), Artes, Cultura, Esporte e Recreação (-22,0%) e Educação (-17,1%), também apresentaram desaceleração. Esses dados evidenciam que, mesmo com a resiliência do agregado de Serviços e da Construção, a retração na geração de empregos formais tem atingido de forma disseminada segmentos relevantes da economia.

Em paralelo à dinâmica setorial, cabe analisar o desempenho do trabalho intermitente no mercado brasileiro. Introduzida pela Reforma Trabalhista de 2017, essa modalidade oferece uma alternativa flexível para atender a demandas sazonais e acomodar novas formas de ocupação. Nesse modelo, a prestação de serviços ocorre sob convocação, garantindo remuneração e direitos trabalhistas proporcionais ao período efetivamente trabalhado. Em um contexto de maior fragmentação das jornadas, esse formato tem conferido segurança jurídica para a necessidade de vínculos formais mais adaptáveis.

O Gráfico 2 ilustra a evolução desse tipo de contratação no Brasil, apresentando o saldo acumulado no primeiro trimestre entre janeiro de 2022 e março de 2026: a linha azul representa o saldo absoluto, enquanto as barras indicam sua participação percentual no total de empregos formais. O primeiro trimestre de 2026 registrou a criação de 21.760 vagas, um crescimento de 5,5% em relação ao mesmo período de 2025 e o maior saldo absoluto da série histórica para o trimestre. A participação dessa modalidade no saldo total de contratações alcançou 3,5%, o que representa o patamar mais elevado desde 2020. Observa-se, portanto, uma trajetória de crescimento consistente na relevância da modalidade após o recuo verificado em 2023.

Outro termômetro importante da percepção dos trabalhadores são as demissões a pedido. Em geral, esse indicador é interpretado como uma proxy do grau de aquecimento do mercado de trabalho, pois tende a refletir uma maior confiança na possibilidade de transição para ocupações mais atrativas. O Gráfico 3 apresenta a evolução mensal dessas saídas voluntárias entre janeiro de 2021 e março de 2026, bem como a sua participação no total de desligamentos.

Após dois meses de recuo nessas métricas, um movimento que se mostrava consistente com a desaceleração da economia, março de 2026 registrou um novo recorde histórico para a modalidade. Foram contabilizados 865.947 desligamentos a pedido, o que representa um aumento de 8,3% em relação ao mesmo mês de 2025 (799.432 postos). Na mesma base de comparação, a participação dessas demissões no total de desligamentos subiu de 36,6% para 37,7%. Contudo, ao observar o acumulado do primeiro trimestre, o volume de 2.472.965 saídas voluntárias representa um crescimento de apenas 1,4% frente ao mesmo período do ano anterior. Esse avanço marginal indica que a alta de março apenas contrabalançou o recuo dos meses anteriores, sugerindo uma estabilização da mobilidade voluntária em vez de um novo ciclo de alta.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva das autoras, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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