A inflação brasileira ficou mais complexa - Parte 2

Energia desempenha papel mais estrutural em contexto de demanda crescente por eletrificação. Data centers, veículos elétricos, expansão da infraestrutura digital e eletrificação industrial ampliam de forma persistente a demanda por eletricidade.
No primeiro artigo, mostramos como a inflação brasileira deixou de ter uma causa dominante e passou a combinar pressões simultâneas de petróleo, serviços, câmbio e mercado de trabalho. Nesta segunda parte, o foco volta para os fatores que tornam essa convergência ainda mais difícil: a energia elétrica, os choques estruturais, os cenários possíveis para 2026–2028 e o papel da credibilidade da política monetária.
A energia elétrica é um bom exemplo da nova complexidade inflacionária. A combinação de clima, nível dos reservatórios, acionamento de térmicas e crescimento da demanda pode transformar o setor em vetor adicional de pressão. Em maio de 2026, a bandeira tarifária era amarela, com custo adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh, depois de um período sem cobrança adicional. Ao mesmo tempo, o Monitor da Inflação FGV IBRE apontava risco de maior uso de geração térmica e elevação do custo marginal de operação, em um contexto de chuvas abaixo da média em algumas regiões e maior consumo de energia.
As pressões do setor, tipicamente conjunturais, se inserem agora em mudanças mais profundas. A energia deixou de ser apenas um choque pontual associado a risco hidrológico e passou a desempenhar papel mais estrutural em um contexto de demanda crescente por eletrificação. Data centers, veículos elétricos, expansão da infraestrutura digital e eletrificação industrial ampliam de forma persistente a demanda por eletricidade. No curto prazo, essa pressão estrutural tende a elevar os custos de geração e, consequentemente, os preços ao consumidor final, aumentando a sensibilidade tanto dos preços administrados quanto dos custos produtivos a adversidades como eventos climáticos extremos e restrições de oferta.
Há ainda fatores estruturais que tornam o ambiente inflacionário mais desafiador. A fragmentação geopolítica encarece cadeias globais, aumenta custos logísticos e amplia a incerteza sobre insumos estratégicos. A transição energética exige investimentos elevados em redes, baterias, minerais críticos e infraestrutura. Eventos climáticos mais frequentes afetam alimentos, energia e seguros. O envelhecimento populacional pode pressionar custos de serviços e saúde. A reindustrialização em algumas economias, com reshoring e friend-shoring, tende a reduzir eficiência produtiva em troca de maior segurança. Tudo isso contribui para um mundo com mais volatilidade de custos.
Os dados de maio ilustravam essa assimetria. O Monitor da Inflação FGV IBRE indicava que o IPCA geral desacelerou ao longo do mês, de 0,86% na primeira apuração para 0,68% na décima terceira — mas o alívio foi concentrado e transitório: veio principalmente de combustíveis e transporte por aplicativo, itens voláteis e sujeitos a reversão. A gasolina passou de alta de 3,39% para 0,39%, o etanol de 1,12% para queda de 1,49%, o diesel de 8,24% para 2,15% e o transporte por aplicativo aprofundou a queda de -1,11% para -2,87%. Enquanto isso, itens de maior peso estrutural no orçamento das famílias — energia elétrica residencial, gás de botijão, leite longa vida, carnes bovinas, cebola e cenoura — continuavam pressionados. O quadro sugere que a desinflação recente deve mais a fatores pontuais do que a uma mudança de tendência, e que as pressões mais persistentes têm raízes que vão além do ciclo de commodities.
Esse contexto não significa que a inflação esteja fora de controle. A convergência continua possível, mas o processo tende a ser mais lento e mais vulnerável a interrupções. Os cenários elaborados para 2026 a 2028 mostram essa assimetria. No cenário otimista — petróleo seria negociado abaixo dos atuais US$ 100/barril, e câmbio ficaria bem comportado próximo de R$ 4,50; os alimentos tenderiam a ajudar caso a previsão recente do Super El Niño não se concretize ou venha com menos potência, o que permitiria oferta de grãos e cereais desacelerarem alimentos in natura. Nesse cenário, sem a presença de choques exógenos, a política monetária teria maior capacidade de atuar sobre a demanda e os serviços começariam a perder força. Ainda assim, o IPCA provavelmente seria de 5% em 2026, podendo registrar 4,2% em 2027 e 4,1% em 2028.
No cenário base, as premissas são: petróleo oscilando em torno dos patamares atuais, câmbio próximo de R$ 5,00 sem grandes oscilações, El Niño com impacto moderado sobre alimentos, mercado de trabalho ainda aquecido mas sem nova rodada de aceleração salarial e política monetária contracionista produzindo efeitos graduais sobre a demanda. Nesse ambiente, os serviços perderiam força de forma lenta e os preços administrados seguiriam pressionados, mas sem choque adicional relevante. A trajetória projetada seria de 5,2% em 2026, 4,7% em 2027 e 4,1% em 2028.
Já no cenário pessimista, a combinação de petróleo mais caro, energia pressionada, clima desfavorável, serviços resistentes e expectativas desancoradas, o repasse cambial e a inércia inflacionária se retroalimentariam, dificultando a transmissão da política monetária e impedindo a convergência esperada dos serviços. Nesse ambiente, a inflação poderia permanecer mais elevada, em 5,45% em 2026, 5,1% em 2027 e 4,15% em 2028, refletindo maior persistência dos choques e convergência mais lenta, exigindo juros restritivos por mais tempo.
A credibilidade da política monetária é um dos fatores que distingue um cenário do outro. O Banco Central do Brasil tem operado em modo contracionista, e a persistência da taxa Selic em patamares restritivos reflete a avaliação de que a convergência à meta exige ancoragem firme das expectativas. Sem esse arcabouço de credibilidade, qualquer choque externo — de petróleo, câmbio ou clima — tende a se propagar com mais intensidade para as expectativas e, depois, para os preços.
O ponto principal é que a inflação brasileira mudou de natureza. Ela deixou de ser explicada apenas por choques externos temporários ou por grupos isolados. Hoje, o desafio está na interação entre choques de oferta, custos estruturais, serviços resilientes e expectativas. A essa equação se soma a dimensão fiscal. Essa combinação exige leitura mais cuidadosa dos dados e maior atenção à composição do índice.
Para os próximos meses, os principais sinais a monitorar serão a trajetória dos combustíveis, a transmissão do petróleo para a indústria e a construção, o comportamento da energia elétrica, a inflação de serviços, a dinâmica dos alimentos e a evolução das expectativas. A desinflação ainda é possível, mas dependerá menos de um alívio pontual e mais da capacidade de impedir que choques temporários se transformem em pressões permanentes.
Em síntese, o Brasil caminha para uma inflação menos explosiva do que a observada nos anos recentes, mas também menos dócil do que se imaginava. O risco não está apenas em uma nova rodada de alta forte dos preços, mas em uma inflação que desce devagar, resiste nos serviços e reage rapidamente a novos choques. É esse ambiente que torna a política econômica mais exigente: será preciso combinar prudência monetária, responsabilidade fiscal e leitura fina dos preços relativos para garantir que a convergência à meta não fique novamente adiada.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.










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