Debates

A fábrica de comentaristas

11 jun 2026

Ao colocar rigor como fim, e não meio, e priorizar agendas externas, e não vivência local, Economia acadêmica – com destaque para pós-graduação – extirpa leitura criadora. Resultado são políticas públicas com apuro técnico, mas nenhuma imaginação.

Roberto Machado foi à França fazer um pós-doutorado com Deleuze. Chegou lá e descobriu que o curso seria sobre Foucault. Problema: Machado havia sido assistente de pesquisa de Foucault e conhecia o pensamento dele de dentro. Inscrever-se num curso sobre um autor que você ajudou a construir parecia desperdício. Mas era Deleuze. Não havia alternativa razoável.

Nas primeiras aulas, Machado ficou desconcertado. O Foucault que Deleuze apresentava não correspondia ao Foucault que ele conhecia. Os conceitos estavam lá, os textos eram os mesmos, embora algo estivesse sistematicamente deslocado. Machado ficou sem saber o que fazer. Interromper a aula? Explicar ao grande mestre que aquilo não era bem assim?

Foi então que a ficha caiu. O que ele estava assistindo não era uma descrição de Foucault. Era o que Foucault representava para Deleuze. Uma leitura criadora. Deleuze não estava explicando Foucault. Estava pensando com Foucault, usando-o como superfície de reflexão para desenvolver o seu próprio pensamento.

A anedota ilumina algo que a universidade sistematicamente ignora: toda leitura séria é um ato de criação. O leitor não é receptáculo. É coautor.

Peguemos um exemplo. Michael Oakeshott, filósofo político britânico, escreveu Sobre a História e Outros Ensaios num contexto em que o grande adversário intelectual era o planejamento central soviético. A maioria dos leitores extrai do texto exatamente isso: uma crítica ao comunismo, ao Estado que acredita poder reorganizar a vida coletiva a partir de princípios racionais abstratos, ignorando o que a história sedimentou. É a leitura correta, pois corresponde ao contexto e à intenção mais imediata do autor.

É possível, porém, sair do mesmo texto com outra coisa inteiramente. Oakeshott descreve um tipo humano que ele chama de racionalista: alguém que chega a qualquer situação armado com princípios universais, desconfiante de tudo que não consegue justificar pela razão e indiferente ao conhecimento prático acumulado pela experiência. Para o racionalista, cada problema é novo, cada solução deve ser deduzida dos princípios, e a história é obstáculo ou irrelevância. Em suma, o mundo começou com ele. A maioria associou esse retrato ao comissário soviético. Uma leitura criadora reconhece ali também o economista formado no paradigma dominante, que chega ao Brasil armado com modelos universais e aplica receitas como se a história, as instituições e o conflito distributivo local fossem ruídos a serem eliminados. A maioria leu o contexto. A leitura criadora leu a estrutura.

Ou peguemos Michael Sandel e A Tirania do Mérito. Um leitor que chega ao livro com as antenas certas pode reconstruir o argumento central antes de Sandel enunciá-lo: se o mérito for elevado a valor supremo, os bem-sucedidos se tornarão arrogantes sem freio, pois afinal merecem tudo que têm, e os malsucedidos se converterão em ressentidos incuráveis, já que fracassaram por mérito próprio. A meritocracia não apenas distribui mal. Ela envenena a subjetividade de todos. O leitor criador chega lá por conta própria. Não recebe a tese: a reconstrói.

Esses dois exemplos mostram a leitura criadora funcionando. O exemplo a seguir mostra o que acontece quando ela foi suprimida.

Certa vez, conversando com um professor brasileiro de economia especializado em meio-ambiente, perguntei-lhe por que havia escolhido dedicar seu capital humano integralmente a um tema que, à época, não estava na agenda de prioridades do país. Queria entender as razões de um economista bem formado, interessado em contribuir com a academia brasileira, para uma escolha que parecia contracorrente. A resposta me deixou estarrecido: como havia se formado no exterior, gostaria de continuar pesquisando com seu renomado orientador.

Não foi um caso isolado. Ao longo de anos de conversas com jovens pesquisadores em economia, em corredores de universidades, em bancas, em encontros informais, ouvi variações dessa mesma resposta com frequência perturbadora. A agenda de pesquisa vinha de fora. O orientador definia. O departamento líder sinalizava. Raramente a pergunta vinha de uma leitura própria do país, de uma inquietação extraída da experiência concreta.

A pesquisa ambiental é, pelo contrário, cada vez mais urgente. O que a resposta revelou foi outra coisa: a agenda não era dele. Não havia uma leitura própria do Brasil, uma aposta intelectual construída com o que viveu e observou e conectou. Havia uma lealdade ao orientador disfarçada de escolha acadêmica. A pergunta mais básica que um intelectual pode fazer, por que estou pesquisando isso, simplesmente não havia sido feita.

A leitura criadora começa exatamente aí, não no texto, mas na pergunta anterior ao texto. Por que este tema e não outro? Por que agora? O que, na minha experiência acumulada, me faz enxergar aqui algo que vale a pena investigar? Quem não consegue responder a essas perguntas com razões próprias não está lendo. Está sendo lido.

O que a formação universitária em economia faz com essa capacidade? Na melhor das hipóteses, ignora. Na pior, extirpa.

O currículo de pós-graduação em economia, moldado desde os anos 1970 pelo padrão dos departamentos norte-americanos de elite, foi construído em torno de uma ideia precisa de competência: dominar as ferramentas, conhecer a literatura e identificar a contribuição marginal de um novo paper em relação ao que já existe. É um treinamento para a leitura correta. Ler diferente não é virtude, pois é sinal de que o aluno ainda não entendeu. A originalidade, quando aparece, deve caber dentro do paradigma. Caso contrário, é ruído.

O resultado é algo mais sutil e mais grave do que a mediocridade. São economistas tecnicamente impecáveis que, diante de um problema genuinamente novo, procuram o modelo existente mais próximo em vez de construir um ângulo de visão inédito. Que sabem situar qualquer ideia na literatura embora tenham dificuldade em ter uma. Que confundem erudição com pensamento. Que, quando perguntados por que pesquisam o que pesquisam, respondem com o nome do orientador.

Há uma ironia que merece ser dita sem rodeios: a economia é a disciplina das ciências sociais que mais se orgulha de seu rigor. E é exatamente esse orgulho que a torna, em tantos casos, intelectualmente estéril. O rigor virou um filtro que elimina não apenas o erro. Elimina a originalidade.

Deleuze conhecia Foucault profundamente, e Machado sabia disso. A leitura criadora vai além das amarras porque primeiro as dominou. O problema está em ter feito do rigor o destino, quando ele deveria ser o ponto de partida. A formação falha porque não ensina como habitar produtivamente a tensão entre disciplina técnica e liberdade intelectual.

A pergunta que a formação em economia raramente faz é simples: e você, o que pensa? Não o que a literatura diz. Não o que o orientador espera. O que você, com tudo que leu e viveu e conectou, tem a dizer sobre isso? Pesquisar não é acumular referências ou encontrar uma contribuição marginal. É assumir a responsabilidade por uma pergunta.

Num mundo que guerras, crises fiscais e rearranjos geopolíticos tornam irreconhecível, a teoria econômica está sendo cobrada a responder perguntas para as quais não tem resposta pronta. Nessa hora, o que distingue o economista que ilumina do que apenas comenta é exatamente o que a formação atual sistematicamente subdesenvolve. A conta não é apenas acadêmica. Ela chega, muitas vezes, em forma de proposições de políticas públicas construídas com todo o rigor técnico e nenhuma imaginação.

No fim, porém, toda vida intelectual se reduz a uma pergunta que nenhum orientador, departamento ou literatura pode responder por nós:

E você, o que pensa?


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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