Junho benigno, quarto trimestre incerto: o que esperar do El Niño e o IPCA

Impacto do El Niño se concentra no quarto trimestre de 2026 — precisamente a janela em que nossas estimativas para o IPCA cheio têm o suporte estatístico mais forte — com uma cauda mais defasada, via cereais, grãos e o ciclo pecuário, ao longo de 2027.
O IPCA de junho trouxe alívio. O índice cheio subiu apenas 0,16%, ante 0,58% em maio, e a alimentação no domicílio recuou 0,39%, com quedas disseminadas entre os itens in natura: frutas (−1,58%), hortaliças e verduras (−0,39%), carnes (−0,64%) e aves e ovos (−0,71%). É um resultado inequivocamente benigno, e seria tentador lê-lo como sinal de que o risco climático foi superestimado.
Seria um erro. E a razão é simples: o choque ainda não ocorreu.
A atualização mais recente da NOAA, divulgada em 9 de julho, indica 81% de probabilidade de que o El Niño atinja a categoria "muito forte" — aquecimento igual ou superior a 2°C acima da média histórica no Pacífico equatorial — justamente no trimestre outubro-novembro-dezembro de 2026. A probabilidade havia sido estimada em 63% um mês antes. A agência avalia ainda que o episódio pode figurar entre os mais intensos desde o início das medições sistemáticas, em 1950, e atribui 97% de chance de que o fenômeno persista até o outono de 2027 no hemisfério sul.
O risco: por que o quarto trimestre importa
O risco não é apenas "chover mais" ou "chover menos". O El Niño costuma desorganizar o regime de chuvas: tende a elevar a probabilidade de precipitação acima da média no Sul e reduzir chuvas no Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste, ao mesmo tempo em que aumenta a chance de temperaturas acima da média, com risco adicional de ondas de calor e incêndios florestais. Com o pico do fenômeno projetado para o trimestre outubro-dezembro, o encontro entre o choque climático e o calendário agrícola brasileiro se dá no pior momento possível: plantio do verão, safra de hortaliças e formação da safra de grãos.
Para a inflação, o canal mais direto é a alimentação no domicílio. Produtos de ciclo curto — hortaliças, verduras, legumes, tubérculos e frutas — costumam reagir mais rapidamente a excesso de chuva, seca ou calor extremo. Tomate, batata, cebola, cenoura, folhosas e algumas frutas podem mostrar alta volatilidade já nos meses seguintes ao choque. O segundo canal vem dos grãos e proteínas: feijão, arroz, milho, leite, ovos e carnes podem ser afetados com defasagem, dependendo do impacto sobre safra, pastagens, ração, logística e armazenamento.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.










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