Crédito

Três meses do Desenrola 2.0: o que os números já mostram

31 jul 2026

Em três meses, o Desenrola 2.0 renegociou R$ 44,1 bilhões em dívidas de famílias e empresas, com desconto médio de 82% para famílias. O balanço mostra adesão recorde, mas ainda não permite avaliar se o padrão de reendividamento foi alterado.

Segundo informações divulgadas pelo governo e repercutidas pela imprensa, em julho de 2026, sobre o Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias, instituído pela Medida Provisória nº 1.355, de 4 de maio de 2026, o Desenrola Famílias renegociou R$ 20,9 bilhões em cerca de 3,5 milhões de operações, reduzindo o saldo devedor para R$ 3,7 bilhões.

O Desenrola Empresas respondeu por outros R$ 23,2 bilhões, sendo R$ 21,7 bilhões via Pronampe (crédito para micro e pequenas empresas) e R$ 1,5 bilhão via Procred (crédito para microempresas), ambos com garantia pública. O uso do FGTS como fonte de quitação de dívidas, novidade desta edição, somou R$ 55,5 milhões, apenas 0,68% do limite de R$ 8,2 bilhões anunciado pelo governo, mobilizando cerca de 97 mil trabalhadores.

O balanço ainda não inclui os resultados do Desenrola Adimplentes nem do Fies Empreendedor, lançados a partir de 29 de junho. Cada um desses números descreve um mecanismo técnico distinto, e vale examiná-los separadamente antes de tirar conclusões sobre o programa como um todo.

O ritmo de adesão e os limites da fricção reduzida

Um recorde de adesão não é, por si só, evidência de que o problema estrutural do endividamento foi resolvido. Ele é compatível com a hipótese de que o desenho do programa reduziu a fricção para agir. Duas mudanças específicas parecem explicar essa aceleração, enquanto uma terceira, o uso do FGTS, revela onde essa redução de fricção encontrou seus limites.

O desconto de até 90% reduz a distância entre "minha dívida é impagável, não vou nem tentar" e "isso talvez caiba no meu orçamento". Em termos ilustrativos, uma dívida de R$ 10 mil que antes costumava gerar uma proposta de pagamento entre R$ 7 mil e R$ 8 mil continua sendo percebida como impagável por quem evita até abrir o aplicativo do banco, um comportamento de esquiva amplamente documentado na literatura sobre superendividamento. Com um desconto de 90%, a mesma dívida passa a exigir um desembolso de apenas R$ 1 mil a R$ 2 mil, tornando a renegociação uma decisão psicologicamente menos custosa do que continuar adiando o problema.

O bloqueio do CPF em plataformas de apostas por 12 meses para quem adere ao programa atua sobre um problema diferente, o de evitar que a liquidez gerada pela renegociação seja direcionada para um ambiente que incentiva novas decisões de risco.

Em "Bets não vendem apostas, vendem decisões" (Blog do IBRE, 6 jul. 2026), argumentamos que essas plataformas são desenhadas para explorar vieses cognitivos previsíveis e induzir decisões impulsivas, mais do que para oferecer apostas em um sentido estritamente racional. O bloqueio fecha temporariamente esse canal, embora não elimine a possibilidade de que a renda liberada pela renegociação seja direcionada para apostas após o término da restrição.

O FGTS como fonte de quitação ataca uma fricção diferente das anteriores, a de liquidez, e não a de decisão. Ele oferece um canal de pagamento que não depende de caixa mensal disponível, o que deveria acelerar a adesão de quem tem saldo acumulado, mas sem sobra de renda corrente. No entanto, o uso ficou em apenas 0,68% do limite disponível, mobilizando cerca de 97 mil trabalhadores até agora, o dado que mais destoa do restante do balanço.

Duas hipóteses, não mutuamente exclusivas, ajudam a explicar essa baixa adesão. A primeira é de fricção informacional e operacional, já que usar o FGTS exige que o trabalhador procure a informação, entenda que a opção existe e calcule se ela compensa, diferente da renegociação de dívida, que costuma ocorrer de forma quase passiva quando o banco oferece a proposta.

A segunda hipótese decorre do mental accounting (ou contabilidade mental), o hábito de tratar diferentes reservas de dinheiro como categorias mentais separadas e não intercambiáveis, mesmo quando misturá-las seria financeiramente racional. Nesse caso, o trabalhador trata o FGTS como uma reserva psicologicamente intocável, embora utilizar parte desse saldo para quitar uma dívida cara seja financeiramente mais vantajoso.

Já argumentamos, em "O celular e o superendividamento das famílias brasileiras" (Blog do IBRE, 25 mai. 2026), que o celular se tornou simultaneamente banco, crediário e cassino, acelerando o processo de endividamento porque contratar crédito passou a exigir muito menos esforço. O FGTS no Desenrola representa a lógica oposta, um instrumento de alta fricção para uma decisão financeiramente vantajosa, e sua baixa adesão sugere que a mesma lógica de fricção comportamental que acelera decisões ruins também desacelera decisões boas.

Tomados em conjunto, os três mecanismos atuam sobre dimensões distintas da decisão do devedor, o custo de agir, o destino da renda liberada e a origem dos recursos utilizados para quitar a dívida. É essa combinação, mais do que qualquer alteração relevante nas taxas de juros de mercado, que explica por que R$ 44,1 bilhões foram renegociados em um terço do tempo da edição anterior. A ressalva necessária é que a velocidade de adesão mede a eficiência do desenho do programa, mas não permite concluir se o padrão de reendividamento foi quebrado.

Em "Desenrola de novo?" (Blog do IBRE, 5 mai. 2026), mostramos que a primeira edição também teve adesão relevante, com R$ 53 bilhões renegociados entre julho de 2023 e maio de 2024. Usando aqui o indicador de endividamento das famílias do Banco Central, mais preciso que o percentual de famílias endividadas da CNC citado naquele artigo, o quadro permanece o mesmo, ou seja, o endividamento em relação à renda acumulada em 12 meses voltou a atingir 49,8% em maio de 2026, ante 47,8% em julho de 2023, quando o programa original foi lançado.

O desconto de 82% no Desenrola Famílias

Os R$ 20,9 bilhões renegociados no Desenrola Famílias resultaram em um saldo devedor de R$ 3,7 bilhões, um desconto da ordem de 82%. É o dado do balanço mais sujeito a interpretações equivocadas, seja pela leitura de que o governo está sendo generoso demais com os devedores, seja pela de que as famílias estão simplesmente sendo salvas. Ambas deixam de lado o que esse desconto revela sobre a composição econômica do estoque de dívida renegociado.

Em "Quem paga o custo do crédito no Brasil?" (Blog do IBRE, 17 mar. 2026), mostramos que o mercado de crédito brasileiro atravessa um processo de segmentação estrutural. O setor público amplia sua captação via emissão de títulos, grandes empresas se financiam cada vez mais via mercado de capitais, e as famílias permanecem presas à intermediação bancária tradicional, em modalidades de recursos livres com juros mais altos e inadimplência maior do que a observada para pessoas jurídicas.

Uma dívida mantida em modalidades como o rotativo do cartão de crédito, que opera a cerca de 435,9% ao ano, cresce sob juros compostos em um ritmo que rapidamente se descola do valor originalmente tomado. Depois de alguns meses nesse regime, boa parte do saldo nominal deixa de refletir o principal e passa a representar predominantemente juros acumulados sobre juros. Um desconto de 80% ou mais reflete, portanto, a avaliação de que grande parte desse saldo dificilmente seria recuperada de outra forma, considerando que a alternativa ao desconto tende a ser a inadimplência prolongada, e não o pagamento integral da dívida.

Em "Novas evidências sobre o peso do crédito nas famílias brasileiras" (Blog do IBRE, 7 abr. 2026), aprofundamos esse diagnóstico mostrando que essa concentração de crédito caro amplia desigualdades e concentra seus efeitos contracionistas nos agentes mais vulneráveis da economia. Por esse ângulo, o desconto agressivo do Desenrola Famílias pode ser lido como uma correção parcial de uma distorção distributiva preexistente, e não como uma benesse pontual. Esse argumento explica a magnitude do desconto, mas não o transforma em solução estrutural, já que atua sobre o estoque de dívida já formado sem alterar a segmentação do mercado de crédito que lhe deu origem.

Desenrola Empresas, um problema de acesso, não de comportamento

O Desenrola Empresas respondeu por R$ 23,2 bilhões do total, sendo R$ 21,7 bilhões por meio do Pronampe, destinado principalmente a micro e pequenas empresas, e R$ 1,5 bilhão por meio do Procred, voltado às microempresas. Vale separar esse número do restante do balanço, pois a natureza do problema é distinta. Pronampe e Procred são linhas de crédito para capital de giro com garantia pública, oferecidas em condições mais favoráveis que as normalmente disponíveis no mercado, e não programas de renegociação comportamental de dívidas vencidas.

O mecanismo predominante aqui é a substituição de dívida cara por crédito com garantia pública. Empresas que antes recorriam ao cheque especial ou ao cartão de crédito empresarial, com taxas facilmente superiores a 5% ao mês, passaram a poder substituir essa dívida por linhas indexadas à Selic acrescida de até 6% ao ano, o que corresponde, no patamar de juros de 2026, a aproximadamente 1% a 1,5% ao mês.

A ampliação da tolerância de atraso, de 14 para 90 dias, e a duplicação do teto de crédito para empresas de faturamento até R$ 4,8 milhões, de R$ 250 mil para R$ 500 mil, ajudam a explicar o montante alcançado pelo programa. Esse é, com sinal trocado, o mesmo tema de concentração de crédito caro documentado para as famílias. Pequenos negócios sem acesso a linhas com garantia pública ficavam presos a crédito caro principalmente por estarem fora do teto de elegibilidade anterior, e não necessariamente por falta de disciplina financeira.

O Desenrola Empresas ataca uma fricção de acesso e elegibilidade, diferente da fricção de decisão que caracteriza o Desenrola Famílias. Vale registrar que cerca de metade do volume total do balanço, R$ 23,2 bilhões de R$ 44,1 bilhões, não diz respeito ao superendividamento de consumo, e que o dado que efetivamente testa a tese comportamental do programa é o do Desenrola Famílias, e não o total agregado.

Uma integração anunciada recentemente ilustra o mesmo mecanismo de acesso em outra escala. Motoristas de aplicativo, taxistas, entregadores e caminhoneiros que quitam pendências bancárias pelo Desenrola passam a poder acessar em seguida o crédito veicular do programa Move Brasil, voltado à renovação de frota. É a mesma lógica de substituição de dívida cara por crédito com garantia pública vista no Pronampe e no Procred, mas aplicada a um ativo produtivo individual, o veículo de trabalho, em vez de capital de giro empresarial.

O que os dados ainda não captam

O balanço de R$ 44,1 bilhões ainda não captura todo o alcance potencial do programa, já que o Desenrola Adimplentes e o Fies Empreendedor foram lançados apenas em 29 de junho de 2026 e ainda não entraram na consolidação divulgada pela Fazenda. Sob a ótica da economia comportamental, o Desenrola Adimplentes é a frente conceitualmente mais interessante do pacote.

O Desenrola Adimplentes é destinado a trabalhadores informais que estão em dia ou com atraso de até 90 dias em operações de crédito pessoal não consignado de até R$ 15 mil por instituição, público que ficava fora do escopo das edições anteriores, voltadas exclusivamente aos inadimplentes.

A proposta permite substituir a dívida atual por uma nova, com juro-teto de 1,99% ao mês, ante taxas que hoje giram entre 6% e 12% ao mês para esse público, com potencial para alcançar até 500 mil trabalhadores. Pela primeira vez, o programa deixa de mirar exclusivamente quem já caiu na inadimplência e passa a mirar quem ainda está pagando em dia, mas sob uma trajetória de juros que aumenta significativamente o risco de inadimplência no médio prazo.

Um detalhe reforça o argumento desenvolvido em "A Copa das bets" e em "Bets não vendem apostas, vendem decisões". Uma das condições de adesão ao Desenrola Adimplentes é o bloqueio do CPF em plataformas de apostas por seis meses, criado para evitar que a renda liberada pela redução do custo da dívida seja direcionada para apostas online. Mantém-se a lógica adotada no Desenrola Famílias, mas com bloqueio de seis meses, em vez de doze, estendida agora a um público que nunca havia sido alcançado por essa restrição.

Alívio no estoque de dívida, sem resposta sobre o fluxo

Vale lembrar o pano de fundo em que o programa opera. Maio, mês de lançamento do Desenrola 2.0, foi também o mês em que a inadimplência bancária bateu recorde, com a taxa de atrasos acima de 90 dias subindo para 4,7%, considerando pessoas físicas e jurídicas. Em junho, o indicador repetiu o mesmo patamar, confirmando o maior nível da série histórica revisada do Banco Central, iniciada em 2011, com 5,6% entre famílias (também recorde) e 3,2% entre empresas (pior desde novembro de 2017). No mesmo período, o Serasa registrou 83,7 milhões de CPFs negativados até junho, o maior número da série histórica. Os números do balanço permitem uma leitura em duas partes, e ambas precisam ser consideradas em conjunto.

O desenho comportamental do Novo Desenrola Brasil melhorou de forma mensurável, com um desconto elevado combinado a restrições a canais ligados a apostas, um novo canal de liquidez via FGTS e, com o Desenrola Adimplentes, um primeiro movimento de prevenção em vez de apenas correção. Isso explica por que o programa renegociou mais dívida em menos tempo do que sua primeira edição.

Ao mesmo tempo, a evidência apresentada em nossos artigos anteriores mostra que esse tipo de alívio, isoladamente, não interrompeu o ciclo estrutural do endividamento das famílias brasileiras. A primeira edição também renegociou um volume relevante de dívida, e ainda assim o endividamento das famílias em relação à renda permaneceu em patamar mais elevado em maio de 2026 do que em julho de 2023, quando o programa começou. O Desenrola atua sobre o estoque de dívida já acumulada, enquanto os fatores que continuam alimentando esse estoque, como os juros estruturalmente elevados do crédito rotativo, do cheque especial e do crédito pessoal não consignado, permanecem em vigor.

O programa está mais eficiente em tratar o sintoma. A questão em aberto é se ele afeta a causa. Essa resposta não está nos números de adesão divulgados até aqui e só deve aparecer nos indicadores de inadimplência dos próximos 12 a 18 meses, quando será possível observar se as famílias que renegociaram voltarão a se endividar no mesmo ritmo de antes.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

Comentários

Sidney Parizotto
O questionamento final é fundamental. Esse novo programa contribui para uma maior conscientização que resulte em menor endividamento futuro das famílias? Ou alivia o setor financeiro, para que este possa voltar a emprestar a quem não conseguia pagar o que devia. Afinal, algum juro sempre entra no caixa dos bancos. Uma ótima contribuição dos autores seria nos ajudar a entender o que leva ao endividamento. Apenas os altos juros não me parecem ser a única causa. Nível de renda, má educação em matemática e finanças pessoais, o aspecto comportamental, o desejo incontrolado de consumir bens e serviços além da capacidade financeira e as bets devem entrar na equação social que causa essa doença chamada alto endividamento. Sim os autores estão certos, em 12 ou 18 meses já teremos uma boa ideia se algo estrutural mudou,

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