Cenários

O preço dos alimentos entre a boa safra e o risco climático

18 ago 2026

O recuo dos alimentos traz fôlego para a baixa renda, mas El Niño intenso acende o alerta para safras cruciais como milho, soja, arroz e feijão. O efeito nos preços não é certo e depende da incidência do fenômeno, mas risco tem de ser monitorado.

O IPCA de julho trouxe algum alívio para o orçamento das famílias. Alimentação e Bebidas recuou 0,67%, enquanto a alimentação no domicílio caiu pelo segundo mês consecutivo. Produtos in natura tiveram papel importante nesse movimento, mostrando como mudanças na oferta podem chegar rapidamente aos preços pagos pelo consumidor.

Esse alívio tem uma dimensão que vai além da inflação. A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE mostra que a alimentação representa 22% das despesas das famílias de menor renda. Entre as de maior renda, essa participação cai para 7,6%. Isso significa que uma mesma alta dos alimentos produz efeitos muito diferentes sobre o orçamento. Quanto menor a renda, menor também é o espaço para acomodar o aumento da comida sem sacrificar outras despesas.

O momento é favorável, mas o que importa agora é saber por quanto tempo esse alívio poderá continuar.

O El Niño voltou a fazer parte dessa discussão. O INMET informa que o fenômeno está presente e as projeções indicam sua manutenção e intensificação ao longo do segundo semestre, com elevada probabilidade de atingir intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão. No Brasil, seus efeitos costumam ser distintos regionalmente: maior risco de excesso de chuva no Sul e de chuvas abaixo da média em áreas do centro-norte do país.

Isso não significa que os alimentos necessariamente ficarão mais caros. A história recente ajuda a entender essa diferença.

Em 2016, após um período marcado por forte El Niño e por problemas na produção agrícola, a alimentação no domicílio subiu 9,36%, segundo o IBGE. A produção agrícola naquele ano ficou 12% abaixo da registrada em 2015. Alguns alimentos importantes no prato das famílias apresentaram aumentos expressivos: feijões subiram 56,56%, arroz 16,16%, leite longa vida 12,19%, café moído 20,34% e farinha de mandioca 46,58%.

O episódio mais recente mostra, porém, que a relação não é automática. O El Niño voltou a atuar em 2023 e a alimentação no domicílio terminou aquele ano com queda de 0,52%. Em 2024, entretanto, avançou 8,23%, bem acima do IPCA de 4,83%. Carnes subiram 20,84%, café moído 39,60%, leite longa vida 18,83% e frutas 12,12%.

Os dois episódios deixam uma lição importante. O El Niño não determina quanto os alimentos vão subir. Ele aumenta a exposição da agricultura a extremos de chuva, seca e temperatura. O efeito sobre os preços dependerá de onde esses eventos ocorrerão, quais culturas serão atingidas, em que estágio da safra e qual será a dimensão da perda de oferta.

É justamente por isso que algumas culturas precisam entrar no radar.

No Sul, o excesso de chuva pode provocar encharcamento do solo, aumentar a incidência de doenças e dificultar plantio e colheita. O próprio INMET chama atenção para os cereais de inverno, o que torna o trigo uma cultura especialmente importante para acompanhamento. No centro-norte do país, estiagem e temperaturas elevadas podem prejudicar a implantação e o desenvolvimento de culturas de sequeiro, entre elas soja e milho.

Milho e soja merecem atenção adicional porque seus efeitos não terminam na lavoura. São insumos importantes na alimentação animal. Problemas nessas safras podem alcançar posteriormente os custos de aves, suínos, ovos e leite. Arroz e feijão também merecem acompanhamento pela importância que possuem na alimentação das famílias, assim como frutas e hortaliças, mais sensíveis a alterações das condições climáticas.

Há, portanto, dois caminhos possíveis. Com safras preservadas e sem choques relevantes de clima, câmbio ou custos agrícolas, a oferta pode continuar ajudando a conter a alimentação no domicílio. Num cenário adverso, um El Niño intenso pode interromper parte desse alívio, primeiro no campo e, algum tempo depois, no supermercado.

Para as famílias de menor renda, essa diferença é enorme. Segurança alimentar não significa apenas disponibilidade de comida. Significa também ter renda suficiente para comprá-la.

Por isso, olhar apenas para o IPCA é olhar para o final do processo. O preço que aparece hoje na gôndola começou a ser formado meses antes, no clima, no plantio, na produtividade e na colheita. Acompanhar esses sinais permite identificar riscos antes que eles se transformem em aumento de preços e perda de poder de compra. Em política de segurança alimentar, esse tempo pode fazer muita diferença.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV

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