A deflação de agosto ajuda, mas ainda não encerra o trabalho

Índice recuou 0,40% em agosto, impulsionado pelo Bônus de Itaipu. A inflação está cedendo, mas ainda não está vencida. Serviços subjacentes aceleraram, e núcleos seguem acima da meta — sinal de que a desinflação ainda não está consolidada.
O IPCA-15 trouxe uma notícia favorável em agosto. O indicador recuou 0,40%, depois da alta de 0,06% registrada em julho. Foi a primeira deflação em um ano e a queda mais intensa desde agosto de 2022. Com esse resultado, o índice acumula alta de 3,09% em 2026 e de 4,24% em 12 meses, abaixo dos 4,52% observados até julho. A leitura também surpreendeu o mercado, que esperava uma queda próxima de 0,30%.
O número é expressivo, mas precisa ser interpretado com cuidado. Uma parcela relevante da deflação veio de um evento extraordinário: o Bônus de Itaipu, incorporado às contas de energia elétrica emitidas em agosto. A energia residencial caiu 6,25% e retirou 0,26 ponto percentual do IPCA-15. Sozinha, portanto, explicou mais da metade da variação negativa do índice.
Esse desconto produziu um alívio verdadeiro no orçamento das famílias, mas temporário. Não representa uma mudança permanente no custo de geração ou distribuição de energia. Como o bônus não se repete todos os meses, parte de seu efeito deverá desaparecer na leitura de setembro. É provável, portanto, que o IPCA volte ao terreno positivo, mesmo que as demais pressões continuem moderadas. Essa alta não significará necessariamente uma piora repentina da inflação. Será, em grande medida, a devolução estatística de um benefício concentrado em agosto.
O resultado, entretanto, não se resume à conta de luz. O grupo Transportes caiu 1,00% e retirou 0,20 ponto percentual do índice. As passagens aéreas recuaram 13,30%, após as altas observadas no período de férias, enquanto os combustíveis ficaram 1,43% mais baratos. A gasolina caiu 1,23% e o etanol, 3,63%. Esse comportamento reforça a percepção de menor pressão dos preços ligados ao petróleo e às commodities, embora este seja um terreno sujeito a mudanças rápidas no cenário internacional.
A alimentação também deu uma contribuição importante. O grupo Alimentação e bebidas caiu 0,57%, registrando a segunda deflação consecutiva. Dentro de casa, a redução chegou a 0,97%, com quedas fortes do tomate, de 27,38%; da batata-inglesa, de 25,14%; e da cenoura, de 17,05%. Até o café moído, que vinha acumulando aumentos importantes, recuou 2,31%. Em sentido contrário, o leite longa vida subiu 3,41% e as frutas avançaram 3,11%.
Para as famílias de menor renda, essa melhora é especialmente significativa. A queda dos alimentos in natura alcança produtos comprados com frequência e facilmente percebidos no supermercado. Não apaga os aumentos anteriores nem significa que toda a cesta de consumo tenha ficado barata, mas devolve alguma capacidade de compra depois de meses mais difíceis.
Também é preciso distinguir a alimentação consumida em casa daquela realizada fora do domicílio. Enquanto a primeira apresentou queda, os preços de bares e restaurantes subiram 0,42%. Foi uma desaceleração diante da alta de 0,55% de julho, mas ainda revela a persistência dos custos envolvidos na prestação de serviços, como salários, aluguel, energia e outros insumos.
É justamente na inflação de serviços que o resultado de agosto pede uma leitura mais cautelosa. O conjunto dos serviços variou apenas 0,07%, bastante abaixo dos 0,41% registrados em julho. Contudo, cálculos realizados por instituições do mercado mostram que os serviços subjacentes, que excluem componentes mais voláteis, aceleraram de aproximadamente 0,30% para 0,50%. Os serviços intensivos em mão de obra também avançaram, de 0,48% para 0,55%. Já a média dos núcleos ficou próxima de 0,23%, com uma média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada ao redor de 3,9%. A composição, portanto, foi mais resistente do que sugere a deflação do índice cheio. Esses indicadores foram destacados nas análises publicadas após a divulgação do resultado, como mostra a avaliação das medidas qualitativas do IPCA-15.
Essa diferença é importante. Energia, passagens aéreas, combustíveis e alimentos podem produzir movimentos intensos de um mês para outro. Os serviços subjacentes respondem mais lentamente à política monetária e às condições do mercado de trabalho. Quando permanecem pressionados, indicam que a convergência da inflação ainda não está concluída.
O IPCA-15 acumulado em 12 meses, de 4,24%, voltou a ficar abaixo do limite superior de 4,50% do intervalo de tolerância. Isso representa um avanço, mas não equivale ao cumprimento do centro da meta, fixado em 3%. O resultado deve ser visto como parte de uma trajetória de aproximação, e não como ponto de chegada.
As expectativas confirmam essa distância. O Boletim Focus divulgado antes do IPCA-15 mantinha a projeção para o IPCA de 2026 em 5,02%. Para 2027, a estimativa havia subido para 4,25%, enquanto a previsão para 2028 permanecia em 3,80%. A melhora da inflação corrente, portanto, ainda não foi acompanhada por uma reancoragem completa das expectativas.
O cenário para os próximos meses reúne forças distintas. A queda dos alimentos, dos combustíveis e de parte dos bens industriais forma uma corrente desinflacionária favorável. Os juros elevados, o crédito mais restrito e a perda gradual de ritmo da atividade também tendem a reduzir a capacidade de repasse de preços. Em contrapartida, os serviços continuam resistentes, o mercado de trabalho permanece aquecido e as expectativas ainda estão acima da meta. Clima, câmbio, petróleo e tensões geopolíticas completam um quadro que pode mudar com alguma rapidez.
No caso dos alimentos, a tendência recente é positiva, mas não deve ser projetada mecanicamente para o restante do ano. As fortes quedas de hortaliças refletem, em parte, condições sazonais de oferta. A eventual consolidação do El Niño pode alterar o regime de chuvas e afetar diferentes culturas, mas ainda não é possível transformar esse risco em uma estimativa precisa de inflação. O correto é acompanhar a intensidade do fenômeno, as regiões atingidas e o calendário de cada safra antes de atribuir impactos aos preços.
Para a política monetária, o IPCA-15 de agosto oferece algum conforto, mas não uma autorização para acelerar indiscriminadamente os cortes de juros. A taxa Selic está em 14% ao ano, após quatro reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual. O mercado espera 13,75% no encerramento de 2026. A continuidade desse movimento dependerá menos da deflação excepcional de agosto e mais de uma sequência persistente de resultados: serviços perdendo força, núcleos próximos da meta, expectativas recuando e menor pressão da demanda.
A mensagem deixada pelo IPCA-15 é positiva, embora incompleta. A inflação corrente está mais baixa e a melhora alcançou componentes importantes para o orçamento familiar. O resultado não veio apenas da energia elétrica, mas o Bônus de Itaipu tornou a fotografia de agosto mais favorável do que a tendência subjacente. Setembro deverá trazer um índice mais alto, sem que isso invalide o processo de desinflação.
A inflação está cedendo, mas ainda não está vencida. A etapa seguinte será mais lenta e exigente. O desafio já não é apenas produzir um mês de deflação, mas transformar o alívio atual em uma trajetória duradoura, capaz de aproximar os serviços, os núcleos e as expectativas da meta de inflação.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.










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