Quando a inflação chega primeiro ao prato

Selic não faz chover, não recompõe safra e não encerra conflito geopolítico. Seu efeito ocorre por outros canais: crédito, consumo, investimento, câmbio e expectativas. Política monetária atua sobre propagação do choque, não sobre a sua origem.
O Brasil escolheu uma meta de inflação de 3% ao ano. É um número que procura organizar expectativas, orientar decisões e preservar o valor da moeda. Em torno dele existe uma faixa de tolerância, mas o centro da meta continua sendo a referência. Em tese, uma inflação de 3% seria compatível com alguma previsibilidade para famílias e empresas. O problema começa quando saímos da média e olhamos para o prato.
A alimentação não ocupa o mesmo espaço no orçamento de todos. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017-2018, as famílias com rendimento de até dois salários mínimos destinavam 22% de suas despesas à alimentação. No Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, a alimentação no domicílio responde hoje por cerca de 16% da cesta. São medidas diferentes. A primeira descreve o orçamento de um grupo de renda; a segunda é um peso médio utilizado no cálculo do índice. As duas, porém, apontam para a mesma questão: para quem tem renda baixa, uma alta da comida é sentida antes e com mais força.
A comparação internacional pede cautela. Não encontrei base para afirmar que o peso dos alimentos no Brasil seja muito maior do que o observado em todos os países com renda por habitante semelhante. Há diferenças de conceito, cobertura e atualização dos pesos. Em economias de renda alta, a parcela destinada à alimentação costuma ser menor. Entre países de renda média, pesos elevados também são comuns. O Brasil não é uma exceção isolada. O traço que importa para esta discussão está dentro do próprio país: a renda é desigual e a comida compromete uma parcela maior do orçamento justamente entre as famílias com menor capacidade de absorver choques.
Desde 2020, essa diferença deixou de ser apenas conceitual. Entre janeiro de 2020 e junho de 2026, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo acumulou cerca de 43,3%, enquanto a alimentação no domicílio avançou aproximadamente 67,5%. Com os resultados de julho — 0,07% para o índice geral e queda de 1,14% para a alimentação no domicílio — os acumulados passam, por aproximação, para 43,4% e 65,6%. A distância ainda supera 22 pontos percentuais. A queda de um mês ajuda, mas não devolve o poder de compra perdido ao longo de seis anos e meio.
Esse comportamento não decorre de uma única causa. O preço dos alimentos recebe influência do câmbio, das cotações internacionais, do custo dos insumos, dos combustíveis, da energia, da logística e das condições climáticas. Secas, excesso de chuva e temperaturas fora do padrão alteram produtividade, calendário de colheita e qualidade dos produtos. Guerras e restrições comerciais podem afetar fertilizantes, grãos, petróleo e fretes. Parte dessas pressões nasce longe do consumo doméstico e chega ao supermercado antes que a taxa de juros tenha tempo de produzir efeito.
Surge então uma pergunta legítima: é possível conduzir política monetária com um índice sujeito a choques dessa natureza? Sim, mas não pela tentativa de neutralizar cada movimento dos alimentos. A taxa Selic não faz chover, não recompõe uma safra e não encerra um conflito geopolítico. O seu efeito ocorre por outros canais: crédito, consumo, investimento, câmbio e expectativas. A política monetária atua sobre a propagação do choque, não sobre a sua origem.
Se uma quebra de safra eleva o preço de alguns produtos por poucos meses e a oferta se recompõe em seguida, reagir integralmente com juros pode impor um custo desnecessário à atividade e ao emprego. A situação muda quando a alta se prolonga, contamina as expectativas, entra nas negociações de salários e se espalha para serviços e outros preços. Nesse caso, o choque deixou de ser apenas setorial. A autoridade monetária precisa impedir que uma pressão temporária se transforme em inflação persistente.
É por isso que o Banco Central acompanha núcleos, difusão, serviços e expectativas, embora a meta seja definida para o índice cheio. Os núcleos ajudam a enxergar a tendência e a separar ruído de persistência. Não devem substituir o índice oficial. O consumidor não compra um núcleo de inflação. Ele paga comida, energia, transporte, aluguel e medicamentos. Retirar os itens voláteis da meta tornaria o indicador mais estável, mas também o afastaria da experiência concreta das famílias.
A nova sistemática brasileira, em vigor desde 2025, também oferece algum espaço para lidar com oscilações. A meta é contínua, de 3%, com intervalo de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. O descumprimento ocorre quando a inflação em 12 meses permanece fora dessa faixa por seis meses consecutivos. Isso não elimina os choques, mas evita transformar a variação de um único mês em julgamento definitivo sobre a política monetária.
Ainda assim, há um limite social que o debate costuma tratar pouco. Duas famílias podem viver sob o mesmo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo e enfrentar inflações muito diferentes. Aquela que gasta quase tudo com alimentação e moradia tem pouca margem para substituir produtos ou adiar despesas. A família de renda mais alta consegue distribuir o orçamento entre serviços, lazer, poupança e bens duráveis. A média é necessária para a política econômica, mas não descreve toda a experiência de perda de poder de compra.
A meta de inflação sobrevive a esse ambiente se for entendida pelo que ela pode entregar: uma âncora para a trajetória geral dos preços no médio prazo. Ela não é a promessa de que tomate, café, carne ou arroz terão comportamento estável em todos os meses. Também não pode carregar sozinha a responsabilidade pela segurança alimentar.
Para reduzir a exposição das famílias aos choques de alimentos, a política monetária precisa conviver com outras políticas. Seguro rural, informação de safras, armazenagem, irrigação, infraestrutura de transporte, regras comerciais previsíveis e medidas de proteção direcionadas às famílias vulneráveis atuam onde os juros não alcançam. A política fiscal também importa. Quando há dúvida sobre a trajetória das contas públicas, o câmbio e as expectativas podem ampliar o choque inicial.
Não vejo razão para abandonar a meta de 3% porque os alimentos são voláteis. Vejo razão para abandonar a ideia de que basta elevar os juros para resolver qualquer alta de preços. O desafio é reconhecer a origem do choque, avaliar sua duração e impedir efeitos de segunda ordem, sem ignorar que a inflação pesa de maneira desigual. A meta permanece necessária. Para continuar crível, precisa ser acompanhada de diagnóstico, comunicação e políticas capazes de olhar além da média.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.










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