Metodologia

O que esperar da revisão metodológica do PIB brasileiro?

10 set 2026

Com base em revisões de 2012-21, passagem de contas preliminares de 2022-24 para definitivas deverá elevar PIB nominal de 2024 em quase 4% (podendo superar 5%), antes de efeitos da mudança metodológica, que tende a ampliar ainda mais nível do PIB.

Na Carta do IBRE de julho de 2025, foi abordada a ampla agenda de revisão das estatísticas socioeconômicas brasileiras programada para 2024-2027 – novas projeções populacionais, PNAD Contínua reponderada pelos fatores de extrapolação oriundos do Censo de 2022, nova POF 2024-25, novo Censo Agropecuário e atualização da lista de produtos e estrutura de ponderação do IPCA/INPC –, com foco especial na transição do Sistema de Contas Nacionais Referência 2010 (introduzido em março de 2015) para o SCN Referência 2021.

Vale recuperar, de forma resumida, os principais pontos daquela Carta:

i) além da troca do ano-base, o novo SCN incorporará pesquisas estruturais bem mais recentes do que as que ainda sustentam as contas atuais: o Censo Agropecuário 2017 (no lugar do de 2006), a POF 2017-18 (no lugar da de 2008-09) e o Censo Demográfico 2022 (no lugar do de 2010), além de novas fontes administrativas, como a Nota Fiscal Eletrônica e as declarações do Simples Nacional;

ii) a nova série também incorporará, “na medida do possível”, as recomendações do manual SNA 2025, aprovado pela Comissão de Estatística da ONU em março de 2025, atualizando o SNA 2008. Diferentemente do manual anterior, o SNA 2025 traz um número limitado de mudanças conceituais com impacto nos grandes agregados – destacando-se a sugestão de cômputo da depleção de recursos naturais não renováveis no Produto Interno Líquido (PIL), o reconhecimento de “dados” como ativos, mudanças na mensuração da produção dos bancos centrais e um tratamento mais adequado da geração de energia renovável; e

iii) a maior novidade do SNA 2025 está nas chamadas contas complementares (as antigas contas-satélite), no contexto da agenda “Beyond GDP”: contas nacionais distributivas (abrindo o setor Famílias por faixa de renda), valoração do trabalho doméstico não remunerado e contas de sustentabilidade ambiental.

Ainda naquela Carta do IBRE, foram indicadas algumas sugestões: (a) evitar a divulgação das novas Contas Nacionais em pleno calendário eleitoral de 2026, já que as revisões de 2007 e 2015 elevaram o nível do PIB em, respectivamente, cerca de 11% e 5,5% (além das taxas de crescimento), algo que pode eventualmente ocorrer novamente e gerar ruído político caso fosse publicado antes das eleições; (b) o reconhecimento de que o ano de 2021, ainda muito afetado pela segunda onda da pandemia, não é o ano ideal para servir de base; (c) a recomendação, consensual, de que a nova série incorpore a POF 2024-25 (que deverá ser publicada pelo IBGE em novembro deste ano) e não a POF 2017-18, cujos padrões de consumo (pré-pandemia, pré-explosão do e-commerce, do streaming e das bets) já estão bastante defasados; e (d) nenhuma pressa em implementar a totalidade das recomendações do SNA 2025, cuja meta da ONU para adoção pelos países é 2029-30.

Passado pouco mais de um ano daquela Carta, o que mudou?

Em primeiro lugar, o cronograma. Àquela altura, a documentação do IBGE (Nota Técnica 01/2024) apontava a primeira publicação do SCN Referência 2021 para “o ano de 2026”. Em outubro de 2025, o instituto divulgou a Nota Metodológica nº 1 do projeto, na qual informa que o cronograma preliminar prevê a divulgação dos resultados “depois das eleições de 2026, em 2027” – atendendo, ao menos nesse ponto, a uma das sugestões da Carta.

Não há, contudo, uma data definida. O calendário de divulgações do IBGE para 2026 prevê, para novembro, a publicação do “Sistema de Contas Nacionais: Brasil 2024”, sem esclarecer se ainda no formato transitório da Referência 2010 ou já na nova série – e outras páginas do instituto, atualizadas em junho, seguem indicando 2027 para a nova série.[1] O mais provável, portanto, é que a divulgação ocorra entre o final deste ano e o começo de 2027.

Vale lembrar o contexto. Desde novembro de 2024, o IBGE suspendeu temporariamente a divulgação das Tabelas de Recursos e Usos (TRU) e das Contas Econômicas Integradas (CEI) completas, para concentrar a equipe de Contas Nacionais nos trabalhos da nova base. A última leitura “definitiva” do PIB sob a metodologia atual refere-se, portanto, a 2021 (publicada em novembro de 2023). Os anos de 2022 a 2025 estão cobertos apenas por estimativas preliminares (ainda que já tenham sofrido algumas revisões em relação às primeiras estimativas).

Pelo cronograma apresentado pelo IBGE aos institutos estaduais de estatística, a primeira divulgação da nova série deverá ter 2024 como ano mais recente[2] – ou seja, ela trará as contas definitivas de 2022, 2023 e 2024, anos para os quais as pesquisas estruturais (PIA, PAS, PAC e PAIC) já estão disponíveis –, além do recálculo e retropolação da série histórica.

Em segundo lugar, muito pouco se avançou em termos de divulgação do andamento do trabalho e da troca de informações com os usuários. A Nota Metodológica nº 1 tem apenas seis páginas, limita-se a apresentar o projeto (repetindo, no essencial, o conteúdo das notas técnicas de 2023 e 2024) e a listar, sem qualquer detalhamento ou quantificação, os temas que sofrerão alterações: tratamento das holdings; novas estimativas de contrabando e de jogos de azar; nova estimativa da produção das famílias; maior abertura dos setores institucionais; nova estimativa e distribuição dos serviços financeiros indiretamente medidos (SIFIM); nova definição das instituições sem fins de lucro a serviço das famílias; recálculo do destino da produção do Banco Central; estimativa da comercialização de drogas; e cálculo da autoprodução de software e bases de dados.

A nota promete que “notas metodológicas posteriores tratarão desses e outros temas relevantes”. Onze meses depois, nenhuma outra nota foi publicada. Tampouco houve qualquer seminário aberto aos usuários – à exceção de encontros técnicos internos com os órgãos estaduais de estatística que participam da elaboração das Contas Regionais.

Seria muito positivo que o processo de transição repetisse a experiência da passagem para a Referência 2010, divulgada em março de 2015. Naquele momento, o IBGE promoveu seminários com usuários e especialistas desde 2013 e publicou, ao longo de 2014 e no início de 2015, cerca de duas dezenas de notas metodológicas detalhadas[3], cobrindo desde a estrutura do sistema e os modos de produção até a retropolação das TRUs. Isso permitiu que mercado, academia, Banco Central, Tesouro e demais usuários compreendessem as mudanças antes que elas ocorressem, reduzindo o risco de interpretações equivocadas quando os novos números vieram a público.

Cabe notar que a publicação de notas metodológicas não gera nenhum tipo de ruído eleitoral. E boa parte das alterações listadas acima tem implicações quantitativas nada desprezíveis: basta pensar nas bets, que, segundo estimativas do Banco Central, já movimentam cerca de R$ 30 bilhões por mês, ou nas atividades ilegais, que passarão a ser estimadas de forma explícita. Os usuários deveriam ter condições de antecipar essas mudanças ao menos em ordem de grandeza.

O que esperar dos números: a revisão “mecânica”

Feito esse registro, vamos ao ponto central: o que esperar, em termos quantitativos, da nova série? Há dois efeitos distintos, que convém separar.

O primeiro é o que se pode chamar de revisão “mecânica” – aquela que ocorreria mesmo sem qualquer mudança metodológica, decorrente simplesmente da passagem das leituras preliminares (baseadas nos indicadores conjunturais mensais, como PIM, PMC e PMS, e em deflatores aproximados) para as leituras definitivas, baseadas nas pesquisas estruturais anuais, nas declarações fiscais e nas demais fontes administrativas.

A figura abaixo ajuda a dimensionar esse efeito. Ela mostra, para cada ano de 2012 a 2021 – todos já sob o marco metodológico da Referência 2010, o que evita contaminar a análise com os efeitos da mudança de base anterior –, as diferenças, em pontos percentuais, entre a primeira leitura do PIB (a “1ª vintage”, divulgada em março do ano seguinte) e a leitura definitiva, tanto para o crescimento em volume como para a variação do deflator implícito.

Alguns padrões saltam aos olhos. Em volume, a revisão foi positiva em todos os dez anos, com média de 0,35 p.p. (variando de 0,1 p.p., em 2019 e 2021, a 0,8 p.p., em 2020). No deflator, a revisão média foi ainda maior, de cerca de 0,9 p.p., com apenas três anos de revisões levemente negativas em um período de recessão profunda e lenta recuperação (2015 a 2017).

Somando os dois componentes, o crescimento do PIB nominal foi revisado para cima em nove dos dez anos, em cerca de 1,2 p.p. ao ano, na média (com uma mediana de 1,35 p.p.). Com efeito, sob a metodologia atual, o PIB definitivo tem sido sistematicamente maior do que a primeira leitura, sobretudo em termos nominais. Isso reflete, entre outras coisas, o fato de que as pesquisas estruturais captam melhor o universo de empresas (inclusive as entrantes) e o valor da produção do que os indicadores conjunturais mensais.

Caso essa tendência se mantenha, a passagem das leituras preliminares de 2022, 2023 e 2024 para as definitivas deverá elevar o nível do PIB nominal de 2024 em quase 4%. Caso prevaleça o padrão dos anos mais recentes (2018-2021, com revisão nominal média de cerca de 1,75 p.p. ao ano), essa revisão poderia superar os 5%.

É verdade que uma parte dessa revisão, sobretudo no volume, já ocorreu no âmbito das contas trimestrais (o crescimento de 2023, por exemplo, já foi revisado de 2,9% para 3,2%), mas a experiência sugere que o grosso da revisão dos deflatores só aparece com as contas anuais definitivas. E note-se que tudo isso ocorre antes de qualquer efeito da atualização metodológica propriamente dita, associada ao SCN Referência 2021.

O efeito metodológico e o SNA 2025

O segundo efeito é o da mudança metodológica em si: troca do ano-base, novas classificações, novas fontes, novas pesquisas estruturais e a incorporação de algumas das recomendações do SNA 2025.

Nas duas transições metodológicas anteriores, esse efeito foi expressivo: o nível do PIB nominal foi revisado para cima em cerca de 11% em 2007 (Referência 2000) e 5,5% em 2015 (Referência 2010). Não é possível afirmar a priori que isso se repetirá – justamente porque o IBGE não divulgou as notas metodológicas que permitiriam antecipar a ordem de grandeza das mudanças –, mas vários itens apontam na direção de um PIB maior:

  • a Micro e Mini Geração Distribuída (MMGD): as contas preliminares que apresentei na Carta de julho de 2025 indicam que a incorporação e valoração da autogeração residencial de eletricidade pode adicionar algo como R$ 20 bilhões ao PIB nominal – pouco menos de 0,2% do PIB –, com algum impacto também sobre a taxa de crescimento, dado o ritmo muito acelerado de expansão dessa modalidade nos últimos anos;
  • a produção por conta própria de software, bases de dados e, agora, dos próprios dados, reconhecidos como ativos pelo SNA 2025, ampliando a formação bruta de capital fixo em produtos de propriedade intelectual;
  • as novas estimativas de jogos de azar (incluindo as bets, que praticamente não existiam na POF 2017-18) e de atividades ilegais (contrabando e, ao que tudo indica, comercialização de drogas);
  • a nova estimativa da produção das famílias e o uso mais intensivo de registros administrativos fiscais, que tendem a captar melhor a produção informal e a das pequenas empresas.

Há também itens de sinal incerto – como o recálculo da produção do Banco Central e a nova distribuição dos SIFIM entre consumo intermediário e demanda final –, mas eles tendem a ser de menor magnitude e a envolver mais realocação do que mudança de nível.

Somando tudo

Combinando os dois efeitos, é bastante plausível que o nível do PIB nominal da nova série seja ao menos 4% a 5% maior do que o estimado atualmente. As taxas de crescimento também deverão ser revisadas para cima, com implicações para o debate sobre a produtividade, o custo unitário do trabalho e o PIB potencial.

Convém lembrar que uma revisão dessa natureza não muda a realidade: dívidas, receitas tributárias, despesas públicas e emprego continuam sendo o que são. O que muda é a régua. Ainda assim, os efeitos sobre os indicadores usualmente acompanhados são relevantes. Para uma Dívida Bruta do Governo Geral na casa de 83% do PIB (projeção de consenso mais recente para essa razão em dez/26), cada 1% de revisão para cima do PIB nominal reduz a razão dívida/PIB em cerca de 0,83 p.p[4].; o mesmo vale, em proporção, para a carga tributária, o gasto primário e as demais razões em relação ao PIB, além do PIB per capita em dólares e das comparações internacionais de produtividade.

Precisamente por isso, obter mais informações é tão importante. Quanto mais cedo o IBGE publicar as notas metodológicas prometidas e organizar seminários com os usuários, melhores serão as condições para que a sociedade compreenda o “novo PIB” quando ele finalmente chegar, no final deste ano ou no começo de 2027, e menor o espaço para que a revisão seja interpretada como algo diferente do que ela efetivamente é: um bem-vindo aperfeiçoamento estatístico.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

 

[1] Ver o calendário de estudos e pesquisas estruturais do IBGE para 2026, atualizado em 28 de agosto de 2026, que lista o “Sistema de Contas Nacionais: Brasil 2024” com divulgação prevista para novembro, e a página do PIB dos Municípios, cuja nota técnica de junho de 2026 informa que a nova série do SCN (ano-base 2021) está “prevista para 2027”.

[2] Ver “IBGE reúne e capacita institutos estatísticos regionais para iniciar trabalho de mudança do ano base do Sistema de Contas Regionais”, Agência IBGE Notícias, 16 de maio de 2024, sobre o 1º Encontro Nacional do Sistema de Contas Regionais sobre a Nova Base 2021, realizado no Rio de Janeiro entre 6 e 10 de maio de 2024. Na ocasião, a Coordenação de Contas Nacionais do IBGE informou que a primeira divulgação da nova série – então prevista para 2026 – teria 2024 como ano de referência.

[3] As 21 notas metodológicas da série Referência 2010 estão disponíveis na página do Sistema de Contas Nacionais do portal do IBGE (seção “Informações técnicas”) – a mesma página que, para a Referência 2021, lista até o momento apenas a Nota Metodológica nº 1.

[4] A extrapolação do padrão de revisões entre a estimativa preliminar e a definitiva para o período 2022-2026 sugere que a variação da DBGG/PIB entre dez/22 e dez/26, hoje projetada em cerca de +11 pontos percentuais (de 72% para 83%), passaria para aproximadamente +7 p.p. (alteração que ignora eventuais mudanças associadas à transição do SCN Ref. 2010 para o SCN Ref. 2021).

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