Atividade econômica desacelera, mas inflação não recua

24/11/2021

A expectativa é de baixo crescimento do Brasil no 3º trimestre, com comércio e indústria indo mal, mas desempenho melhor dos serviços. Tanto interna como externamente, dificuldades se acumulam em relação a 2022, mesmo com commodities em alta e elevada liquidez internacional.

Indicadores de atividade econômica recém divulgados confirmam nossa expectativa de baixo crescimento no terceiro trimestre, com resultados negativos para o comércio e a indústria de transformação, a exceção sendo o bom desempenho do setor de serviços.  Olhando à frente, vemos os cenários doméstico e externo ficando mais desafiadores em 2022, em que pese esperarmos que os preços de commodities sigam elevados e a liquidez internacional também permaneça acima da média histórica.

Com isso, revisamos para baixo nossas expectativas para a atividade econômica no quarto trimestre e para 2022. A alta do PIB prevista para 2021 foi reduzida para 4,8%, ante 4,9% antes. Para 2022, diminuímos de 1,5% para 0,7%. Como destacado do artigo “Contração do PIB cíclico em 2022,”[1] o cenário atual, de expressivo aumento da taxa de juros, indica para o ano que vem menores projeções do PIB cíclico, que considera apenas os setores mais diretamente relacionados ao ciclo econômico.

Em linha com essas projeções, os indicadores antecedentes de atividade já mostram um quadro mais negativo para a indústria e o comércio, com o cenário de recuperação que se desenhava até o terceiro trimestre de 2021 perdendo força. As prévias das sondagens do IBRE já sinalizavam uma tendência de desaceleração mais intensa da atividade no setor de bens. A exceção nesse quadro de queda na confiança setorial era o setor de serviços, cuja evolução favorável vinha sendo a boa notícia deste final de ano. Também esta, porém, começa agora a dar sinais de enfraquecimento.

A forte aceleração inflacionária e a piora das condições financeiras são fatores determinantes para esse quadro de deterioração do cenário econômico doméstico. O aumento da incerteza fiscal, com o avanço da PEC dos Precatórios no Congresso, torna o cenário prospectivo ainda mais nebuloso. Sem dúvida, o ano de 2022 tende a ser bastante desafiador para a economia brasileira.

O ambiente externo também contribui para a deterioração das projeções. Da mesma forma que aqui, globalmente se observa uma desaceleração da atividade, combinada com aumento das pressões inflacionárias e a perspectiva de alta nas taxas de juros. É o que mostram os Barômetros Econômicos Globais Coincidentes do FGV IBRE[2] , que recuaram novamente em novembro, seguindo a tendência de enfraquecimento iniciada no terceiro trimestre. Apesar de manter-se acima dos 100 pontos, o Barômetro Coincidente cedeu em todas as regiões.

Quatro dos cinco indicadores setoriais monitorados pela pesquisa se contraíram em novembro, com a queda mais acentuada na Indústria. A exceção foi o indicador de serviços, que variou positivamente, em 0,2 ponto no mês. Com esse resultado, este setor voltou a registrar o maior nível entre os indicadores setoriais, embora todos estejam oscilando numa faixa estreita, 103 e 109 pontos. Já o Barômetro Antecedente fica abaixo dos 100 pela segunda vez consecutiva, embora com queda menos intensa em novembro.

Uma questão crucial no debate atual é quando e com que intensidade se dará a normalização da política monetária em 2022. As preocupações com a inflação alimentam apostas crescentes no mercado. Nos EUA, o quadro é de maior persistência no ritmo de crescimento da economia e nas pressões inflacionárias. Consequentemente, o Fed poderá antecipar o início do aumento da taxa de juros, tornando o cenário ainda mais desafiador para os emergentes.

No front doméstico, a avaliação do mercado é de que a aprovação da PEC dos Precatórios na Câmara retirou parte das incertezas em relação às contas públicas, talvez pelo receio de um relaxamento fiscal maior, ainda que a aprovação do Senado não esteja garantida, o que poderia abrir a porta para outras iniciativas na mesma direção. Houve alguma melhora, ou pelo menos estabilização nos preços dos ativos, depois de uma deterioração muito grande na segunda metade de outubro.

No entanto, é inegável que as perspectivas fiscais pioraram. Além da PEC liberar em torno de R$ 100 bilhões para gastos adicionais no orçamento de 2022, o arcabouço fiscal foi abalado e a expectativa é de um aumento do déficit primário em 2022. Ou seja, com a atividade econômica em desaceleração, a taxa de juros em ascensão e o aumento de gastos, elevam-se as previsões de aumento da dívida bruta. Após a perspectivas de baixo crescimento da dívida este ano, a previsão é de aceleração para 86% do PIB em 2022 e novas altas nos anos seguintes, com o risco de a dívida retornar com alguma rapidez para o patamar de 90% do PIB.

Outra fonte de preocupação é a desancoragem das expectativas de inflação para os horizontes mais longos, como os anos de 2023 e 2024. Em parte porque o aumento das expectativas de alta do IPCA para 2022 não se explica apenas por fatores relacionados à oferta e à demanda, observando-se também um processo de desancoragem das expectativas. Ou seja, mais um sinal de forte deterioração dos fundamentos domésticos.

Com essas questões em mente, podemos assim resumir os destaques desta edição do Boletim Macro IBRE.

Leia aqui o artigo completo na versão digital do Boletim Macro.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 


[2] Os barômetros econômicos globais são um sistema de indicadores que permite uma análise tempestiva do desenvolvimento econômico global. Eles representam uma colaboração entre o Instituto Econômico Suíço KOF da ETH Zurique, na Suíça, e a Fundação Getulio Vargas (FGV). Ver https://portalibre.fgv.br/sites/default/files/2021-11/barometros-globais....

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