Como interpretar a recuperação recente da economia brasileira?

14/06/2021

A melhoria dos indicadores fiscais e de atividade representa uma janela de oportunidade para aprofundarmos reformas fiscais e do ambiente de negócios. Caso essa oportunidade não seja aproveitada, voltaremos ao padrão de crescimento medíocre do período pré-pandemia. 

A divulgação semana passada de um crescimento de 1,2% do PIB no primeiro trimestre em relação ao trimestre anterior veio bem acima do que se esperava alguns meses atrás, quando boa parte das previsões era de queda na margem. Em função disso, houve uma revisão generalizada para cima das previsões de crescimento do PIB em 2021. O FGV IBRE aumentou sua projeção para 4,6%, mas algumas instituições chegam a estimar crescimento acima de 5,5% este ano.

Os dados fiscais também têm surpreendido favoravelmente, com aumento expressivo da arrecadação e redução da relação dívida/PIB, com projeções de um grau de endividamento ao final de 2021 bem menor do que se esperava no início deste ano.

Embora os números positivos da atividade econômica e da situação fiscal sejam naturalmente uma boa notícia, eles refletem fatores em grande medida temporários e com implicações que não são necessariamente favoráveis.

Em primeiro lugar, embora a valorização dos termos de troca tenha contribuído para impulsionar segmentos da indústria e do agronegócio, ela também teve um impacto expressivo nos preços de vários insumos e bens de consumo, que já se refletiram em uma aceleração da inflação.

Este aumento da inflação, por sua vez, foi responsável por boa parte da melhora dos números fiscais, tanto em termos de aumento das receitas tributárias como de redução da relação dívida/PIB.

No entanto, embora represente um alívio no curto prazo, estamos longe de resolver nosso problema fiscal de longo prazo. Segundo matéria publicada ontem no Valor Econômico, com base no Relatório Contábil do Tesouro Nacional, o passivo a descoberto da União aumentou em cerca de R$ 4,45 trilhões em 2020, o que representou um crescimento de 49,1% em relação a 2019. Essa variação se deveu principalmente ao aumento de passivos associados aos gastos de enfrentamento da pandemia e à forte elevação das provisões para pagamento de aposentadorias e pensões de militares no longo prazo.

Outro ponto que deve ser ressaltado é que a recuperação da economia brasileira continua sendo muito desigual, com desempenho bem melhor da indústria e do agronegócio em comparação com vários segmentos do setor de serviços, especialmente serviços prestados às famílias.

Essa heterogeneidade ajuda a entender a resiliência de certa forma surpreendente da economia em meio à segunda onda da pandemia, na medida em que houve um deslocamento para bens de consumo de uma parcela da demanda por serviços. Na medida em que a carga tributária desses produtos é mais alta que a de serviços, isso explica em parte a forte melhora da arrecadação, especialmente levando-se em conta que parte desses serviços era fornecida no mercado informal.

Esse aumento da formalização também parece consistente com a discrepância entre os dados mais favoráveis do mercado de trabalho segundo o CAGED, que capta informações do setor formal, e o quadro bem mais negativo revelado pela PNAD Contínua, que incorpora os trabalhadores informais, em grande parte do setor de serviços.

Uma possibilidade de caráter mais permanente que tem sido aventada para explicar em parte a recuperação mais forte da economia teria sido um aumento da produtividade decorrente da incorporação de novas tecnologias, como o trabalho remoto.

De fato, como já discuti neste espaço, a produtividade do trabalho cresceu de forma significativa no Brasil em 2020. No entanto, minha interpretação é de que esse aumento foi em grande medida temporário, tendo decorrido principalmente do fato de que os setores, empresas e trabalhadores menos produtivos foram mais afetados pela pandemia, gerando uma mudança de composição que elevou a produtividade média.

Embora também possa ter havido uma melhoria da eficiência com a adoção do trabalho remoto, me parece pouco provável que tenha sido expressiva a ponto de explicar a magnitude do impacto agregado. Mesmo no auge da pandemia em 2020, os dados da PNAD Covid revelam que pouco mais de 10% dos trabalhadores brasileiros fizeram home office, muito abaixo do percentual verificado em países desenvolvidos, como Estados Unidos e Reino Unido, onde superou 40%.

Na medida em que a vacinação avance e o setor de serviços presenciais passe a crescer de forma mais rápida, provavelmente teremos uma reversão de vários desses fatores temporários. Além disso, o aumento da inflação medida pelo IPCA, que atingiu 8% nos últimos 12 meses em maio, provavelmente levará o Banco Central a acelerar o processo de elevação da Selic este ano.

Em resumo, a melhoria dos indicadores fiscais e de atividade representa uma janela de oportunidade para aprofundarmos reformas fiscais e do ambiente de negócios, cuja duração será limitada. Caso essa oportunidade não seja aproveitada, voltaremos ao padrão de crescimento medíocre do período pré-pandemia.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

Este artigo foi originalmente publicado pelo Broadcast da Agência Estado em 11/06/2021.

Comentários

Fabio Cardoso
Parabéns. Excelente artigo! O pano de fundo está claro. E acredito que a discussão sobre a necessidade de reformas apenas serve a interesses políticos, para dar um pouco de falsas esperanças ao povo (se parar de pedalar a bicicletinha cai). Em algum momento precisaremos encarar a realidade de que nosso estado está severamente doente, e não vai ser uma reforma tributária que vai solucionar os nossos problemas (como não foi a previdenciária ou trabalhista).

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