Setor Externo

Compensações e perdas com os tarifaços de Trump

21 jul 2026

Sobretaxa de 25% atingiu 18% das exportações brasileiras. Setores como pesca, couro e máquinas foram mais afetados, enquanto itens isentos (aeronaves, café) ajudam a amortecer impacto. Brasil busca novos mercados e estuda a Lei de Reciprocidade.

A conclusão da Seção 301 pela imposição da sobretaxa de 25% incidente sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos não foi uma surpresa. Alegações de concorrência desleal pelo uso do PIX eram inegociáveis. Questões da legislação sobre plataformas digitais estão na seara do Congresso. Leis sobre Anti-Corrupção, Desmatamento e Propriedade Intelectual (Propriedade Industrial, no Brasil) já fazem parte do arcabouço regulatório do país e compromissos seriam na área de fiscalização, no que o país tem avançado, como no desmatamento. Acordos preferenciais fazem parte das regras do comércio internacional, mesmo que Trump não as sigam - o acordo com a Índia envolve cerca de 400 produtos e com o México também é restrito.

Ofertas de concessão de abertura de mercados que poderiam interessar empresas dos Estados Unidos parece que não avançaram. Em suma, agora o governo se volta para estimar os impactos do tarifaço, lembrando que cerca de 2000 itens foram isentos. As estimativas variam e os números anunciados pelo Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDIC) consideram que 18% das exportações brasileiras para os Estados Unidos serão atingidas. 

A tabela mostra a variação em valor das exportações totais do Brasil, as vendas para os Estados Unidos, para a China e o Resto Mundo, entre o 1º semestre de 2025 e o de 2026. Comparamos um período em que vigoravam tarifas de 10% desde abril e mais as sobretaxas de seção 232 sobre produtos siderúrgicos e de alumínio por razões de segurança nacional e que vigoram até hoje para exportadores desses produtos a nível mundial com o período em que o tarifaço de 40% foi suspenso, restando a tarifa de 15% associada à Seção 122, por motivos de balanço de pagamentos. O que queremos salientar é o efeito das incertezas da política de Trump, os tarifaços e a resposta em nível do setor CNAE. É um mapeamento geral, um trabalho que vai até o nível mais desagregado de produto, mas queremos chamar atenção de alguns pontos gerais.

A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu de 12,1% para 9,4% entre os dois primeiros semestres de 2025 e 2026. Tomando-se os grandes setores de atividade, agropecuária, pesca, extrativa e transformação, em todos os casos recuaram as exportações para os Estados Unidos. O setor mais prejudicado foi o de pesca, em que os Estados Unidos responderam por 72% de todas as exportações brasileiras no 1º semestre de 2026 e o aumento de vendas para o Resto do Mundo não compensou o recuo para os Estados Unidos e a China.

Na indústria de transformação a queda das exportações para os Estados Unidos, que não foi compensada por aumentos em outros mercados capazes de sustentar o crescimento global das exportações atingiu, entre outros setores: fumo; couro; madeira; borracha; minerais não metálicos, celulose e produtos de papel; e móveis. Observa-se que a participação do mercado dos Estados Unidos é acima de 10%, como em couro, madeira e móveis, por exemplo. E os produtos desses setores não estão na lista de isenções.

Outro grupo relevante são os setores de equipamentos de informática, máquinas e aparelhos elétricos, máquinas e equipamentos. com participações do mercado dos EUA acima de 20% e que registraram aumento das exportações globais e para os Estados Unidos. Estão isentos produtos associados à produção de aeronaves, mas outros não. São setores com ampla participação de multinacionais, inclusive de capital dos EUA, e que fazem parte das cadeias de produção setoriais. Os dados mostram que, em alguns casos, como o setor de máquinas e equipamentos elétricos, as vendas para a China aumentaram, o que pode estar associado ao aumento dos investimentos chineses desse setor no Brasil e/ou estratégias das multinacionais. Esses são setores de alto valor adicionado e desvios para outros mercados tendem a encontrar mais obstáculos e dependem das estratégias das empresas.

Os dados mostram que 15 setores da indústria de transformação experimentaram queda de vendas para os Estados Unidos, 11 para a China e cinco para o Resto do Mundo. Procura por novos mercados deve continuar na pauta da agenda brasileira.

Por último, mudanças no tarifaço irão depender relativamente mais das pressões dos setores empresariais dos Estados Unidos. Muitos se manifestaram nas audiências, mas parece que o “furor arrecadatório de receitas via importações” pauta a política comercial de Trump. Rechaçar o uso da Seção 301 como medida unilateral tem que ser feito, mas como utilizar a Lei de Reciprocidade do Brasil é um tema que merece ser analisado com muita cautela. Soberania é assegurada também com demonstração de capacidade negociadora.

Variação (%)  em valor das exportações: Jan-junho 2025/jan-junho 2026

Elaboração: FGV IBRE. Base ICOMEX

Fonte: Secretaria de Comércio Exterior/MDIC


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva da autora, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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