A complexa questão do deflator do PIB (parte 2)

04/12/2018

Este texto é a continuação do post sobre “A complexa questão do deflator do PIB (Parte 1)”, divulgada neste blog em 12/11 (em resposta a colocações do colega Bráulio Borges de que o PIB  brasileiro vem sendo subestimado nos últimos 20 anos, o que estaria ligado ao fato de que o deflator do PIB tem sido superior ao IPCA em média em 1,5%).

No primeiro post, foi abordada a comparação entre o deflator dos combustíveis (mais especificamente o caso do produto diesel/biodiesel) do Sistema de Contas Nacionais (SCN) e os índices de preços relacionados a este produto. Neste post é analisado o caso dos automóveis.

O CASO DOS AUTOMÓVEIS

1) Com respeito aos automóveis cabe alertar, inicialmente, que o IPCA registra principalmente as variações de preços dos automóveis de 1000 cc. (1.0). Examinando a PIA, verifica-se que esse tipo de automóvel (categoria 2910.2040) representou apenas 26%, em média (19 a 33% é o intervalo), do valor dos automóveis produzidos no período 2005-2016, na categoria classificada como “2910 Fabricação de automóveis, camionetas e utilitários”, como pode ser observado no Gráfico 1, abaixo:

Gráfico 1 - Participação do tipo de veículo no valor total da produção de automóveis, camionetas e utilitários - %

       Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE.

2) Com tal representação, o preço de veículos com até 1.000 cc. poderia até ser útil para representar os preços de automóveis numa cesta de consumo de zero a quarenta salários mínimos como é o caso do IPCA, mas não para representar os preços da produção e do consumo doméstico do país que são bem mais abrangentes.

3) Nas Tabelas e Gráficos abaixo verifica-se o seguinte:

3.1) Conforme o Gráfico 2, os preços de automóveis medidos pelo IPCA evoluem quase sempre abaixo dos demais preços de automóveis medidos através do deflator implícito do Sistema de Contas Nacionais, seja pelo Consumo das famílias, ou pelo valor da Produção e, ainda, pela PIA (variação do preço médio - valor da produção/quantidade);

Gráfico 2 - Variação anual do índice de preços dos automóveis - %

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE.

3.2) Embora haja discrepância na variação dos preços médios dos automóveis na PIA e na variação do seu valor equivalente no valor da produção do SCN, a variação acumulada de ambos é semelhante no período 2005-2016, conforme a Tabela 1 abaixo (cerca de 85%). Entretanto, essas variações já são muito superiores àquelas dos índices de preços de automóveis da FGV (IPA e IPC) e do IBGE (IPCA). Essa é uma observação que conduz a uma reflexão sobre o que esses preços representam, já que as diferenças entre os índices de preços são significativas e, entre estes e os deflatores e os preços médios da PIA, tais diferenças são impressionantes.

Tabela 1 - Variação acumulada do índice de preços dos automóveis – 2005 = 100

Variação do índice de preços dos automóveis - %

IPA - Automóveis para passageiros

IPCA - Automóvel novo

IPC - FGV - Automóvel novo

SCN - Consumo das famílias de automóvel

PIA - 2910.2040

SCN - Produção do produto automóvel, camionetas e utilitários

SCN - Produção da atividade de automóvel, camionetas e utilitários

2000

60,4

81,5

67,0

64,0

 

65,0

59,7

2001

61,7

83,7

70,0

71,0

 

73,0

68,1

2002

66,1

84,2

73,3

75,6

 

83,9

77,7

2003

79,6

86,5

78,1

87,1

 

99,9

94,0

2004

88,8

93,0

89,1

92,9

 

101,6

100,2

2005

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

2006

102,1

101,4

103,8

102,8

110,3

108,6

105,9

2007

102,3

101,7

105,4

109,2

120,8

119,2

113,1

2008

106,1

103,5

109,5

120,0

140,2

130,2

126,7

2009

97,5

96,2

102,9

119,7

154,9

130,8

129,7

2010

99,7

97,1

105,9

130,2

148,7

142,8

134,0

2011

100,0

94,8

106,1

141,3

155,1

156,6

139,1

2012

99,0

89,9

103,9

150,1

151,6

171,4

157,6

2013

99,9

90,3

104,2

157,3

158,7

177,9

163,2

2014

103,2

93,8

108,4

166,6

175,6

194,8

176,4

2015

107,4

100,0

115,5

183,0

162,5

225,8

204,5

2016

114,1

100,8

121,5

186,4

183,6

229,0

208,3

2017

118,8

100,1

127,7

 

183,6

 

 

Variação acum. 2000-2016

88,9

23,6

81,3

191,2

-

252,0

248,9

Variação acum. 2005-2016

14,1

0,8

21,5

86,4

83,6

129,0

108,3

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE e da FGV

3.3) No Gráfico 3, abaixo, destaca-se que as trajetórias dos índices de preços são semelhantes apesar de o resultado acumulado diferir significativamente.

Gráfico 3 - Variação anual de preços dos tipos de automóvel - %

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE e da FGV.

4) Com relação ao volume, na Tabela 2 constata-se que, ao longo de 11 anos (2005-2016), a variação de volume acumulada de automóveis, camionetas e utilitários foi similar entre o SCN, a PIM-PF e a PIA, sendo esta última a que apresentou a maior retração das três fontes de dados. As retrações foram: 18,4% se medida pela produção do SCN; 15,0% se medida pela PIM-PF; e, 23,3%, caso fosse medida pela variação de quantidade da PIA.

Tabela 2 - Variação acumulada do índice de volume dos automóveis, camionetas e utilitários - 2005 = 100

Variação de volume do produto automóveis, camionetas e utilitários - %

SCN Produção

PIM-PF 29.1

PIA¹

2005

100,0

100,0

100,0

2006

105,7

105,1

97,4

2007

118,9

119,7

104,9

2008

126,6

128,2

114,8

2009

126,8

129,2

117,0

2010

140,1

144,6

122,6

2011

131,3

137,9

116,9

2012

130,8

135,3

121,8

2013

135,9

140,6

129,5

2014

113,2

121,2

114,1

2015

89,9

95,8

90,1

2016

81,6

85,0

76,7

Variação acumulada 2005-2016

-18,4

-15,0

-23,3

          Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE.
          Nota: ¹2910 Fabricação de automóveis, camionetas e utilitários. Foi considerada a quantidade total produzida, calculada através dos índices de quantidade dos subitens deste item (2910.2010; 2910.2020; 2910.2040 e 2910.2070), agregados segundo a ponderação dos seus VPs.
 
A Tabela 3 abaixo, apresenta a variação acumulada dos indicadores do consumo das famílias de automóveis, camionetas e utilitários, no período de 2005 a 2016, segundo o SCN: o volume cresceu 34,6%; os preços cresceram 191,2%; com isso, o valor total cresceu em termos nominais 291,9%.

 

5) Pelo que foi dito, caso a variação de preços entre 2005-2016 fosse aquela dos índices de preços (IPCA, IPA e IPC), a variação do valor seria bem inferior `qa que se observa. Particularmente, se o IPA representasse esse preço, o valor teria crescido 154,2% e não 291,9%. Vale dizer, a participação dos automóveis, camionetas e utilitários no consumo das famílias (e, portanto, o próprio consumo das famílias no PIB) seria menor. Com isso, a produção em volume de automóveis, camionetas e utilitários seria subestimada quando comparada às informações da PIA e PIM-PF, já apresentadas na Tabela 2 acima;

Tabela 3 - Variação acumulada dos indicadores do consumo das famílias de automóveis, camionetas e utilitários - 2000 = 100

Variação acumulada dos indicadores do consumo das famílias de automóveis, camionetas e utilitários - 2000 = 100

Volume

Preço

Valor

2000

100,0

100,0

100,0

2001

108,3

110,9

120,0

2002

98,1

118,1

115,8

2003

89,2

136,0

121,4

2004

106,2

145,2

154,3

2005

116,1

156,2

181,4

2006

128,7

160,7

206,9

2007

152,8

170,6

260,7

2008

169,6

187,5

317,9

2009

182,3

187,0

341,0

2010

206,4

203,5

419,9

2011

213,3

220,8

470,9

2012

220,4

234,5

516,8

2013

221,5

245,7

544,3

2014

211,6

260,3

550,6

2015

175,6

285,9

502,0

2016

134,6

291,2

391,9

Variação acumulada 2005-2016

34,6

191,2

291,9

                                     Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE.

6) O que pode-se concluir das informações acima descritas é que:

  1. Não haveria razão para se considerar os preços de automóveis do IPCA para representar os preços dos automóveis do consumo das famílias, tendo em vista que eles medem um conjunto de automóveis muito diferente. Os preços de automóveis, camionetas e utilitários, quando medidos pelo deflator do SCN são bastante superiores ao IPCA.
  2. Os preços de automóveis do IPCA representam principalmente os preços de automóveis 1.0 e ainda assim de alguma categoria especial, já que estes, quando comparados com os preços médios da PIA da categoria de automóveis até 1.0, no período 2005-2016, cresceram de forma bem diferente: o IPCA acumulou crescimento de 0,8% no período, contra um crescimento de 83,6% do segundo (preço médio da categoria de veículos 1.0).
  3. Adicionalmente, o volume da Produção medido pelo SCN, embora não seja idêntico à quantidade da PIA, é compatível com ele. Ou seja, a evolução da quantidade ponderada de automóveis da PIA não é uma boa medida para o Valor Adicionado - VA (lembrem-se: o IBGE não evolui o VA pelo VP); da mesma maneira, a produção física da PIM-PF, que serve como indicador preliminar nas Contas Nacionais Trimestrais, também não serve para representar plenamente essa produção nas contas nacionais definitivas.
  4. Finalmente, tendo em vista a metodologia de equilíbrio, o IBGE pode mensurar de forma bem fidedigna o VA da atividade, assim como o consumo das famílias dos produtos associados a esta atividade, bem como os respectivos deflatores. É errado pensar que o IBGE vá extrapolar o valor adicionado por qualquer medida de valor da produção ou de quantidade produzida. Ou seja, reafirma-se aqui que os deflatores dessas duas atividades exprimem as variações de seus preços.
  5. Radicalizando: o deflator do PIB é a verdadeira taxa de inflação da economia, da mesma forma que o deflator do consumo é a verdadeira inflação do consumidor.

Conclusão:

Não há qualquer razão para se dizer que o IBGE escolhe preços em detrimento de volume. Para os que entendem de Contas Nacionais, o deflator não é um índice de preços, nem tampouco uma jabuticaba.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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