Crise econômica na Argentina tirou 0,2 p.p. do PIB brasileiro em 2018 e pode tirar 0,5 p.p. neste ano

13/09/2019

Desde meados do ano passado, a economia argentina enfrenta graves dificuldades. A partir do segundo trimestre de 2018, o cenário internacional tornou-se mais desafiador: houve piora das condições financeiras globais, normalização da política monetária no mundo, piora das condições de liquidez internacional, fortalecimento do dólar e consequente perda de apetite pelo risco de emergentes. Esse cenário turbulento atingiu em cheio os países com maiores fragilidades estruturais, em especial a Argentina, que possuía déficits gêmeos (fiscal e externo) e forte endividamento em moeda estrangeira.  

Desde então, a economia argentina vem patinando. O país experimentou a recessão, explosão inflacionária, desvalorização da moeda, escalada do endividamento e grande aumento do desemprego. Para piorar a delicada situação do país, um novo choque se fez presente com a larga liderança da oposição nas pesquisas eleitorais presidenciais, o que levou a um total descontrole dos preços dos ativos e piora significativa do cenário macroeconômico prospectivo do país.   

De que maneira o caos econômico instalado na Argentina desde meados do ano passado tem afetado a economia brasileira? Quais as perspectivas para a indústria brasileira neste ano? Quanto o PIB do Brasil poderia ter crescido no ano passado e neste ano na ausência do choque argentino? Estas são algumas questões que investigaremos neste artigo.

Muito se discute sobre a importância da Argentina para a indústria automobilística brasileira, afinal o país é o nosso principal parceiro comercial nesse setor. Contudo, a relevância da Argentina na pauta de exportações brasileiras vai muito além da demanda por automóveis. A Tabela 1 mostra que parte relevante do que é exportado do Brasil para a Argentina é composto por insumos industriais, isto é, partes e peças para compor a cadeia produtiva da indústria argentina. Hoje, quase 60% das nossas exportações para a Argentina é composta por bens intermediários, como mostra a Tabela 2.

Vale ressaltar que a Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF), divulgada pelo IBGE, mostrou uma forte queda interanual da produção de bens intermediários em julho, o que pode ser uma evidência da contaminação da crise argentina nesse setor.

Segundo os dados do boletim ICOMEX, produzido pela FGV/IBRE, as exportações brasileiras para a Argentina começaram a cair no segundo trimestre do ano passado, contudo o impacto mais relevante foi sentido a partir do terceiro trimestre de 2018, atingindo o vale no primeiro trimestre deste ano, como mostra o Gráfico 1.

Com base na evolução do quantum exportado do Brasil para a Argentina e da taxa de câmbio real bilateral entre os dois países, estimamos um modelo para avaliar o quanto cada uma dessas variáveis ajuda a explicar a trajetória da indústria de transformação brasileira. Por conseguinte, os resíduos dessa regressão representam a parcela do crescimento da indústria de transformação que não é explicada pelo comércio internacional com o país, isto é, uma medida de quanto nossa indústria de transformação teria crescido na ausência da influência argentina.

Para calcular o impacto previsto no terceiro e quarto trimestres deste ano, projetamos o crescimento do quantum exportado para a Argentina com base no cenário elaborado pelo FMI para o crescimento da demanda interna do país[1]. Construímos também um cenário para a evolução do câmbio real bilateral Real/Peso argentino, exibido no Gráfico 2.

Segundo nossos cálculos, o valor adicionado da indústria de transformação teria crescido 2,2% em 2018 (ante resultado oficial de 1,3%) e 2,1% em 2019 (ante projeção do IBRE de 0,2%). Contudo, para compreendermos o que isso significa em termos de PIB, precisamos avaliar os efeitos secundários da indústria de transformação sobre os demais componentes do PIB pelo lado da oferta, como Comércio, Transportes e Impostos.

A indústria de transformação tem influência relevante na atividade do comércio e do transporte, a partir do cálculo da margem desses setores.  Por exemplo, se há uma produção de comércio nas empresas industriais, esta receita deve ser considerada no cálculo da margem de comércio. Se há uma produção de transporte por parte das empresas industriais, esta deve ser considerada na margem de transporte[2]. Além disso, cerca de 60% dos impostos arrecadados são provenientes da indústria de transformação, por isso quanto maior o crescimento desse setor, maior a arrecadação de tributos e, consequentemente, maior é o PIB.

A Tabela 3 compara o crescimento efetivo[3] de cada um dos setores supracitados com os resultados do exercício contrafactual, livre do efeito argentina. Por fim, agregamos os resultados para avaliar o impacto final sobre o PIB, mantendo constante o resultado observado ou estimado para os demais setores não avaliados no exercício. Concluímos, portanto, que a crise econômica argentina tirou 0,2 p.p. do crescimento do PIB brasileiro em 2018 e deve tirar 0,5 p.p. em 2019. Vale notar que o impacto neste ano pode ser ainda pior no cenário de agravamento da crise política no país, diante da proximidade das eleições presidenciais.

Concluímos, portanto, que as dificuldades enfrentadas pelo nosso principal parceiro comercial de bens manufaturados tiveram influência relevante sobre o crescimento brasileiro no ano passado e ainda deve se acentuar neste ano. Notamos também que a contaminação da crise Argentina na nossa indústria de transformação pode ir muito além da indústria automobilística, dada a relevância dos bens intermediários na pauta de exportações brasileiras para o país vizinho. Deste modo, novos picos de tensão associados ao cenário político na Argentina e possível piora das projeções macroeconômicas do país devem ser acompanhados de perto, diante da relevância sobre o crescimento econômico brasileiro.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 


 

[2] Ver nota metodológica nº 21 do IBGE (Sistema de Contas Nacionais – Brasil, referência 2000)

[3] Resultados projetados para o crescimento dos setores em 2019T3 e 2019T4.

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