Decomposição mostra que impacto da pandemia influenciou a renda média positivamente

25/09/2020

Em meio a crises econômicas, com altas da taxa de desemprego, aumento do número de trabalhadores procurando qualquer ocupação, com qualquer rendimento, a renda média tende a sofrer forte queda. Como se vê pelo gráfico abaixo, de fato o volume de ocupações no Brasil experimentou grande redução, e está atualmente em seu menor nível em toda série histórica da PNAD Contínua.

Gráfico 1: Volume de Ocupações no Brasil

Fonte: PNAD Contínua

No entanto, em relação à renda média, o comportamento apresentado pela PNAD Contínua tem se mostrado menos em linha com experiências anteriores. Adicionalmente, o IBGE orientou seus entrevistadores a realizar o questionamento do rendimento habitual em relação ao período anterior à pandemia. Assim, comportamentos observados da renda do trabalho habitual e efetiva seguiram tendências mostradas no gráfico abaixo.

Gráfico 2: Variação interanual real da renda média do trabalho habitual e efetiva

Fonte: PNAD Contínua Mensal[1]

Como se vê, houve, a partir de abril de 2020, grande divergência entre a renda habitual e efetiva, com rápida elevação da primeira e tendência de queda da última. O aumento do rendimento habitual é particularmente surpreendente, tendo em vista que, em nenhum momento da série histórica, tinham sido registrados aumentos superiores a 5%, e em junho já tinha se atingido 7% de alta.

Fenômeno semelhante pode também se observar na PNAD Covid-19. Sendo mais atualizada, já mostrando inclusive altas recentes da renda efetiva, a pesquisa mostra ainda níveis da renda do trabalho habitual significativamente superiores aos da efetiva até julho.

A PNAD Contínua não divulga as horas trabalhadas em seus dados mensais, de modo que o comportamento das variáveis de rendimento do trabalho pode estar sendo afetado pela redução da jornada de trabalho. O gráfico abaixo mostra, por trimestre, o rendimento por hora trabalhada, tanto habitual quanto efetivamente.

Gráfico 4: Renda do Trabalho por Hora Trabalhada

Fonte: Microdados da PNAD Contínua

Como se vê, quando se divide pelo número de horas trabalhadas, tanto a renda do trabalho habitual quanto a efetiva registram significativo aumento no período da pandemia – inclusive com comportamento mais acelerado no caso da segunda. No entanto, nota-se ainda uma segunda distorção devido à pandemia: enquanto no rendimento e horas de trabalho habituais não se registram valores zero, o mesmo não é verdade no caso da efetiva, que registrou uma grande elevação do número de trabalhadores com nenhuma renda do trabalho e, ainda mais, com nenhuma hora trabalhada.

Gráfico 5: Proporção de trabalhadores com efetivamente zero rendimento
e zero horas no segundo trimestre de 2019 e 2020

Fonte: Microdados da PNAD Contínua

Há várias possíveis razões pelas quais teria havido um significativo aumento do contingente de trabalhadores que não trabalhou, mas recebeu alguma renda do trabalho (5% no segundo trimestre de 2020, frente a 0,9% um ano antes). Uma das principais razões possíveis é o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm), que permitiu, além da redução da jornada de trabalho, a própria suspensão do contrato (ou seja, não realização de nenhum trabalho no período), com compensação do salário paga pelo governo federal (considerada renda do trabalho).

De fato, como mostra o gráfico abaixo, ao limitar o universo de trabalhadores para aqueles com carteira assinada no setor privado, o percentual dos que estavam sem trabalhar qualquer hora, mas recebendo rendimentos, passou de 2,43% no segundo trimestre de 2019 para 13,8% no ano seguinte. Além disso, verifica-se também que os servidores representaram grande parcela dentre aqueles que não trabalharam qualquer hora, mas receberam renda do trabalho (nesse caso, salários se manteriam mesmo sem realização da atividade, como no caso da maior parte dos professores da rede pública), pulando de 3,45% para 20,4% entre 2019 e 2020, no segundo trimestre. Já os trabalhadores informais nessa condição se limitaram a apenas 1,9% nesse período, frente 0,3% no ano anterior.  

Gráfico 6: Percentual de trabalhadores com zero hora efetivamente trabalhada
e rendimentos efetivos do trabalho não nulos

Fonte: Microdados da PNAD Contínua

Hipóteses do aumento do rendimento médio

Como exposto acima, durante a pandemia, apesar da crise no mercado de trabalho, houve tendência de elevado aumento da renda média do trabalho, tanto habitual quanto efetiva (esta última em relação às horas trabalhadas). Ainda que tal comportamento seja contraintuitivo, há diversas hipóteses que podem explicá-lo. Por exemplo, sabe-se que uma das particularidades dessa crise econômica é seu maior impacto sobre o setor informal. Tendo em vista que, em tal segmento, os rendimentos do trabalho são inferiores aos do setor formal, a maior redução desses na população ocupada poderia levar a uma elevação da média. Esse fenômeno costuma ser chamado de “efeito composição”.

A recente “formalização” (tendo em vista que há mais perdas de postos de trabalho informais do que formais) devido à pandemia, por outro lado, pode não ser o único efeito que explica o aumento da renda média, tal como discutido em Duque (2020a). Há, desse modo, ainda duas alternativas plausíveis a serem objetos para investigação: (i) o efeito composição dentro dos setores e; (ii) um possível viés de captação devido à mudança da forma como era feita a entrevista, de forma presencial para telefone.

A hipótese (i) é uma extensão da primeira: ela pressupõe que há um “efeito composição” também dentro dos tipos de ocupações, nos quais os trabalhadores de menor rendimento estão sendo expulsos do mercado de trabalho, elevando assim a média da renda. Já a hipótese (ii) é mais problemática: ela pressupõe que, tendo o IBGE alterado sua forma de realizar entrevista, de presencial para por telefone, acabaria incorrendo em um viés de captação, devido a pessoas respondendo que possuem rendimentos mais altos do que os que declarariam em uma entrevista pessoal (também pode haver um problema de amostragem, com o IBGE não conseguindo chegar a domicílios mais pobres por telefone).

Para avaliar qual das duas hipóteses poderia explicar o aumento do rendimento habitual do trabalho, Duque (2020a) estressou a hipótese do efeito composição, em uma simulação, usando os microdados do primeiro trimestre, na qual todos os trabalhadores de menor rendimento seriam expulsos do mercado de trabalho na magnitude da queda da população ocupada (PO). As simulações indicaram que um efeito composição de maior potência geraria uma renda média acima do nível observado, mesmo computando um cenário de efeito nível negativo de até 3%. Esse resultado indica, portanto, que um forte efeito composição pode de fato ter papel predominante no aumento da renda habitual.

Oaxaca-Blinder

A decomposição de Oaxaca-Blinder (1973) é comumente utilizada com objetivo de estudar os fatores responsáveis pelas diferenças de “outcomes” entre grupos. Em geral, se usa essa técnica para decompor a desigualdade (do logaritmo) dos salários com base em modelos de regressão linear, de forma a gerar um contrafactual, dividindo o diferencial dos salários entre dois grupos. Ao primeiro, é atribuída a parcela da diferença de salários explicada por diferentes características produtivas, como a educação ou os anos de experiência, enquanto, ao segundo, se atribui a parcela de tal desigualdade que não pode ser explicada por tais diferenças nos determinantes salariais.

O modelo estimado será posteriormente utilizado para distinguir entre a importância de alterações nos determinantes e um componente não explicado, derivado de como o mercado valoriza diferentemente tais determinantes – normalmente atribuído à discriminação. Neste caso, porém, essa decomposição será utilizada a fim de determinar quanto a diferença entre os salários dos trabalhados entre 2019, ano antecedente ao da pandemia, e 2020 (ambos no segundo trimestre) é determinada pelas características desses trabalhadores, e quanto de tal diferença se dá por um fator não explicado, que pode ser atribuído ao viés de captação.

O resultado da decomposição de Oaxaca-Blinder depende, em grande parte, da especificação do modelo atribuído aos salários. Usando a PNAD Contínua, serão incluídas as seguintes variáveis para explicar a renda:

Em que Homemi é uma variável dummy para se o trabalhador i é homem, Brancoi é uma dummy para se este é branco, Urbanoi é uma dummy para se este vive em uma zona urbana, Capitali é uma dummy para se sua cidade é uma capital, RMi é uma dummy para se é uma Região Metropolitana (excluindo a capital). Já Educ(k,i) são dummies de níveis k de educação (Fundamental I, II, Ensino Médio e Ensino Superior), Idade(j,i) são faixas j de idade (25-39, 40-59, 60+), Exp(t,i) são faixas de tempo t na mesma ocupação (2 meses a um ano, um a dois anos, mais de dois anos), Ativ(f,i) são dummies de atividade econômica, Tipo(u,i) são dummies de tipo de ocupação, UF(r,i) são dummies do Estado no qual mora o trabalhador e Horasi são as horas trabalhadas. Os coeficientes β revelam as associações de tais características à renda.

Considerando que a renda está em logaritmo, a diferença R entre os dois grupos representará a variação percentual dos rendimentos do trabalho no período. Usando a metodologia de Oaxaca-Blinder, esta é decomposta em dois componentes:

R = Q + U

Em que o primeiro componente,

é a parte do diferencial de resultado que é explicada por diferenças nas características associadas à renda (o “efeito de quantidade”), enquanto o segundo componente,

é a parte não explicada.

Resultados

Os resultados serão apresentados para ‘renda do trabalho habitual’, ‘renda do trabalho efetivo’[2] e ‘renda do trabalho habitual por hora trabalhada’[3]. A tabela abaixo apresenta o resultado das regressões com toda amostra, incluindo os dois anos.

Tabela 1: Resultado das Regressões Lineares para Preditores do logaritmo da Renda[4]

Variável

Habitual

Efetiva

Habitual por hora

Homem

0.249***

0.297***

0.202***

Branco

0.105***

0.082***

0.103***

Formal

0.331***

0.652***

0.231***

Urbano

0.127***

0.188***

0.113***

Capital

0.181***

0.148***

0.171***

RM

0.06***

0.077***

0.053***

Educação

Fundamental I

0.195***

0.21***

0.176***

Fundamental II

0.3***

0.32***

0.284***

Ensino Médio

0.404***

0.405***

0.384***

Ensino Superior

0.821***

0.808***

0.798***

Idade

25-39

0.217***

0.214***

0.188***

40-59

0.353***

0.315***

0.326***

60+

0.361***

0.162***

0.389***

Experiência

2 meses-1 ano

0.162***

2.392***

0.123***

1 a 2 anos

0.199***

2.458***

0.149***

2 anos+

0.336***

2.583***

0.275***

Atividade

Indústria

-0.027***

0.013***

0.005***

Construção

0.081***

0.116***

0.083***

Comércio

-0.051***

-0.032***

-0.038***

Transporte

0.07***

0.048***

0.084***

Aloj. e Aliment.

-0.081***

-0.168***

-0.067***

Inform. e Comum.

-0.008***

0

0.03***

Adm. Pública

0.185***

0.356***

0.248***

Educação e Saúde

-0.038***

0.147***

0.016***

Outros serviços

-0.031***

-0.164***

0.034***

Serviços Dom.

0.031***

0.099***

0.102***

Mal definidas

-0.093***

-0.033***

-0.032***

Tipo

Diretores e gerentes

0.775***

1.098***

0.781***

Ciências e Intelectuais

0.666***

0.995***

0.71***

Técnicos de Nível Médio

0.391***

0.696***

0.414***

Apoio Administrativo

0.151***

0.593***

0.17***

Trab. de Serviços

0.155***

0.496***

0.168***

Operários Qualificados

0.161***

0.487***

0.183***

Operadores de Maquinário

0.188***

0.577***

0.183***

Ocupações Elementares

0.036***

0.437***

0.068***

Profissionais de segurança

0.629***

0.882***

0.629***

Mal definidas

0.38***

0.687***

0.38***

Horas trabalhadas

0.602***

0.423***

 

Fonte: Elaboração Própria a partir da PNAD Contínua

Já a Tabela 2 mostra os resultados da decomposição de Oaxaca-Blinder. Ao expor a parcela da diferença explicada pelas variáveis preditivas da renda, separa-se o componente explicado pelas horas trabalhadas do componente explicado pelas demais variáveis.

Tabela 2: Decomposição Oaxaca-Blinder do logaritmo da Renda

 

Habitual

Efetiva

Habitual por hora trabalhada

Renda Média em 2019

7.28

7.11

3.67

Renda Média em 2020

7.37

6.86

3.74

Diferença

0.087***

-0.257***

0.072***

Explicado

0.081***

-0.13***

0.066***

Explicado por horas trab.

0.009***

-0.249***

 

Explicado pelas demais

0.072***

0.119***

 

Não Explicado

0.006*

-0.127***

0.006

Fonte: Elaboração Própria a partir da PNAD Contínua

Como se vê, no caso da renda habitual, dos 8,7% de diferença entre as médias de 2020 e 2019, uma parcela de 8,1% (ou 93%) é atribuída à diferença da composição de características dos trabalhadores, enquanto o componente não explicado corresponde a uma diferença de apenas 0,6%, estatisticamente significante apenas a 10%. Já para renda habitual por hora trabalhada, cuja diferença entre os dois trimestres é de 7,2%, os diferentes atributos dos trabalhadores respondem por uma diferença de 6,6% (92,2%), enquanto o que não é explicado por tais diferenças gera uma variação de apenas 0,6%, mas não estatisticamente significante.

No caso da renda efetiva, com uma diferença do logaritmo da renda de 25,7%, o componente explicado e o não explicado respondem, cada um, por metade dessa subtração. No entanto, do primeiro grupo, a diferença das horas trabalhadas (que caiu fortemente) responde por uma queda 25%, quase a totalidade da variação negativa total, enquanto as diferenças do restante dos atributos dos trabalhadores fariam com que o rendimento crescesse quase 12%.

A decomposição de Oaxaca-Blinder, dessa forma, mostra que, efetivamente, em média os trabalhadores que perderam suas ocupações na pandemia tinham características menos produtivas do que aqueles que as mantiveram. Assim, o grupo ocupado no segundo trimestre deste ano tinha uma composição que levou a uma renda média maior do que aquela registrada no ano anterior.

Essa é uma das razões, portanto, pelas quais se registrou uma grande elevação da desigualdade da renda efetiva do trabalho domiciliar per capita, tal como documentado por Duque (2020b). O Índice de Gini, que mede a desigualdade de tal variável, cresceu no período de 0,64 em 2019 para 0,68 em 2020 (ambos no segundo trimestre), o maior aumento já registrado na série histórica.

Gráfico 7: Índice de Gini da Renda do Trabalho Efetivo Domiciliar per Capita

Fonte: Elaboração a partir dos dados da PNAD Contínua

Esta seção, em resumo, reporta os efeitos heterogêneos da pandemia sobre o mercado de trabalho. Seus impactos foram de tal modo mais intensos sobre trabalhadores de menor produtividade que a média da renda teve tendência de elevação. A decomposição Oaxaca-Blinder mostrou que a renda habitual, cujo período de referência está fixado anteriormente à pandemia, de fato elevou-se na média devido quase exclusivamente às características dos trabalhadores que se mantiveram ocupados. Já a renda efetiva, que caiu, teria se mantido igual caso as horas trabalhadas não tivessem caído, e ainda teria crescido 12% caso apenas a composição produtiva dos ocupados tivesse mudado, como ocorreu.


Referências Bibliográficas

Duque, Daniel. “O que está acontecendo com a renda média na pandemia?”. Blog do Ibre, jul/2020. Disponível em https://blogdoibre.fgv.br/posts/o-que-esta-acontecendo-com-renda-media-na-pandemia

Duque, Daniel. “Distribuição de renda do trabalho tem piora recorde no segundo trimestre”. Blog do Ibre, set/2020. Disponível em https://blogdoibre.fgv.br/posts/distribuicao-de-renda-do-trabalho-tem-piora-recorde-no-segundo-trimestre

Este artigo faz parte do Boletim Macro IBRE de setembro de 2020. Leia aqui a versão integral do BMI Setembro/2020

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

[1] A alta da renda do trabalho efetiva entre o último trimestre de 2015 e o primeiro de 2016 se deve a uma mudança da metodologia de captação do IBGE (que passou a incorporar perguntas de apoio), que fez com que os entrevistados incluíssem pela primeira vez em suas respostas outros rendimentos efetivos do trabalho.

[2] Nesse caso, para rendimentos e horas trabalhadas nulas, será adicionado artificialmente um real.

[3] Os resultados para renda do trabalho efetivo por hora trabalhada não serão apresentados devido à distorção causada pela grande alta do número de trabalhadores com zero hora trabalhada, mas recebendo renda do trabalho.

[4] Omitidas as variáveis de Estado.

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