Distribuição de renda do trabalho tem piora recorde no segundo trimestre

09/09/2020

O mercado de trabalho no Brasil, após a pandemia, foi fortemente impactado. Como se sabe, o volume de empregos se reduziu consideravelmente desde março de 2020, chegando 82 milhões no mês de junho de 2020, segundo a PNAD Contínua mensalizada.

Com tal redução do emprego, a Renda do Trabalho Efetiva Domiciliar per Capita – isto é, a soma de rendimentos dos membros do domicílio dividido pelo número de moradores do mesmo – também caiu consideravelmente. O Gráfico abaixo mostra, a cada trimestre, a média de tal indicador, que chegou ao seu menor nível da série histórica desde que o IBGE atualizou sua metodologia de captação[1].

Sabe-se que, de modo a mitigar tais impactos da pandemia sobre o mercado de trabalho, foi aprovado em março o Auxílio Emergencial, que em julho chegou a 66 milhões de beneficiários, que recebiam valores entre R$ 600 e R$ 1200 mensais. Tamanho foi o volume de transferências realizado por tal programa, que o nível de pobreza e desigualdade caíram significativamente – gerando um momento de elevado bem estar social material para a população mais pobre, apesar da pandemia. O Gráfico abaixo mostra o Índice de Gini, indicador mais utilizado de desigualdade, que varia de 0 (igualdade total) a 1 (desigualdade total), da Renda Efetiva Domiciliar per Capita no primeiro trimestre de 2019 e nos meses de maio, junho e julho de 2020[2].

Fonte: Compatibilização da PNAD Contínua com PNAD Covid-19; Elaboração Própria

No entanto, como tem se comportado o mercado de trabalho em termos distributivos? Para isso, serão analisados os microdados da PNAD Contínua até o segundo trimestre de 2020, recentemente divulgados. Alternativamente à totalidade da renda efetiva[3] domiciliar per capita, serão apenas considerados os rendimentos efetivos do trabalho no domicílio.

O Gráfico abaixo mostra, portanto, o índice de Gini da Renda Efetiva do Trabalho desde 2016. Como se vê, após continuamente aumentar até 2018, e se estabilizar em 2019, com tendência de queda, no segundo trimestre de 2020 tal indicador esteve em seu mais elevado nível da série histórica, tendo chegado a 0,68 neste trimestre. 

Fonte: PNAD Contínua

Tal valor é ainda mais impressionante considerando que, sazonalmente, após regulares altas dos primeiros três meses do ano, o período seguinte costuma registrar quedas da desigualdade do rendimento efetivo do trabalho, tendo, no entanto, apresentado significativa alta. O Gráfico abaixo mostra a diferença intertrimestral do Gini da Renda do Trabalho Efetiva Domiciliar per Capita, destacando separadamente os trimestres, colocando em evidência o comportamento distinto do segundo trimestre de 2020 em relação aos anos anteriores.

Fonte: PNAD Contínua

A desigualdade no mercado de trabalho tem sido impulsionada, principalmente, devido ao maior impacto da pandemia sobre o trabalho informal, que, concentrado nos setores de comércio e demais serviços, necessita de maiores aglomerações e, ao mesmo tempo, é ocupado por trabalhadores de menor qualificação e experiência. Além de a maior parte do volume de empregos ter sido na informalidade, como já mostrado em análise anterior, o rendimento do trabalho efetivo neste setor caiu significativamente em relação ao formal, como mostrado no Gráfico abaixo.

Fonte: PNAD Contínua

O mercado de trabalho, portanto, tem apresentado grande elevação de sua desigualdade. Apesar de o Auxílio Emergencial ter contraposto tal tendência, gerando uma queda do gini dos rendimentos totais, tal programa terá seu volume de gastos reduzido à metade no último trimestre do ano, se extinguindo em 2021. Com uma provável lenta recuperação do mercado de trabalho, e sem qualquer definição ainda do Governo sobre o desenho e orçamento do Renda Brasil, a desigualdade tende, portanto, a se elevar no futuro próximo.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 


[1] Tal alteração, que adicionou perguntas de apoio ao questionar a renda do trabalho efetiva, gerou uma significativa elevação de sua média no último e primeiro trimestres dos anos seguintes.

[2] A opção de tais meses foi feita de modo a compatibilizar as pesquisas da PNAD Contínua com a PNAD Covid. Para maiores detalhes, ver: https://blogdoibre.fgv.br/posts/uma-avaliacao-do-auxilio-emergencial-par...

[3] Foi considerado a renda do trabalho efetiva, alternativamente à habitual, pois esta última tem sido questionada em relação ao período anterior à pandemia.

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