Desaceleração já chegou

2026 está marcado pelo esgotamento do padrão de crescimento: uso intensivo de mão-de-obra, baixíssima produtividade e anabolizado por gastos públicos. Quando há elevada fragilidade fiscal, efeito líquido do impulso fiscal na economia é negativo.
Após a divulgação do PIB do segundo trimestre, reduzimos ligeiramente a projeção de crescimento para este ano de 1,8% para 1,7%. O PIB ex-agro referente ao segundo trimestre foi pior que o esperado.
De fato, nossa projeção para o crescimento do ano nunca foi superior de 1,8%-1,9%. Um dos principais motivos é que, a despeito de um maior impulso fiscal este ano, a expectativa já era de que o efeito esperado na atividade seria menor que o observado nos anos anteriores. E por quê?
A literatura de multiplicador fiscal nos ajuda a entender esse fenômeno. Os estudos mostram que o multiplicador fiscal é totalmente dependente do estado da economia – se há ou não ociosidade de fatores de produção – e depende de como esse gasto é financiado. No caso brasileiro, em que a taxa real de juros já é estruturalmente mais elevada, o hiato do produto está positivo, não há mais ociosidade no mercado de trabalho e o gasto público está sendo financiado com mais dívida – que já se encontra em um patamar muito elevado, ou seja, pressionando ainda mais a taxa de juros da economia por todos os canais possíveis –, o multiplicador fiscal, ao final das contas, será negativo.
Com relação ao no que vem, há ainda muitas incertezas sobre o desempenho da atividade. Mas, de qualquer forma, ela será ruim e a dúvida é se haverá recessão ou não. Os nossos números mostram que já estamos muito próximos de uma recessão técnica. A previsão atual da equipe do Boletim Macro IBRE é de 0,9%.
De fato, entre os principais motivos podemos destacar a desaceleração do consumo das famílias e do governo, conjuntamente com uma menor contribuição de atividades exógenas ao ciclo econômico para o crescimento (agropecuária, extrativa, serviços públicos e atividades imobiliárias).
Com relação ao primeiro ponto, o consumo das famílias, que já está em processo de desaceleração, deve crescer ainda menos em 2027. As famílias, principalmente as de níveis de renda mais baixa, vão precisar honrar suas dívidas e não haverá mais espaço fiscal para novas rodadas de medidas de estímulo ao consumo. De fato, o emprego, que estava em alta, o elevado impulso fiscal e os programas como o Desenrola mitigaram as pressões financeiras nas famílias. Essas medidas não resolvem o problema, mas apenas postergam a desalavancagem, tornando o processo mais custoso para as famílias. Caso a economia entre em recessão, o cenário será ainda mais adverso para as famílias de mais baixa renda, em linha com o editorial do Boletim Macro IBRE de abril de 2026.[1] Estudo do Banco Central de 2020 (Government Banks, Household Debt, and Economic Downturns: the case of Brazil: Garber Mian Ponticelli Sufi Working Paper 538 (2020)) mostra que os indivíduos que se endividaram mais intensamente entre 2011 e 2014 foram os que apresentaram maiores cortes de consumo nos anos de recessão que se seguiram. Ademais, esse efeito mostrou-se mais forte quando o endividamento original se concentrava em modalidades de crédito que tipicamente têm juros maiores e prazos mais curtos. Comprovou-se, então, o impacto na redução relativa do consumo, especialmente entre os tomadores do quintil de renda mais baixo.
Em linha com a literatura, o estudo mostra que são exatamente movimentos individuais desse tipo que aprofundam/intensificam a fase descendente do ciclo econômico. E são os grupos cujo endividamento é mais concentrado em modalidades de custo mais elevado e prazos mais curtos, e do quintil de renda mais baixo, que mais apresentam a redução mais acentuada no consumo. São os grupos que enfrentam maior dificuldade para desalavancar sua condição financeira, o que penaliza seu consumo, retardando o processo de recuperação da economia.
E como esperamos um ajuste fiscal, o consumo do governo também deve crescer menos, em linha ao que ocorreu nos anos entre 2015 e 2019. Consequentemente, uma menor demanda doméstica em 2027 reduz o crescimento das atividades cíclicas e esperamos uma menor contribuição para o crescimento, de 0,6 p.p., ante 0.9 p.p. em 2026.
O Gráfico 1 mostra a contribuição para o crescimento do Valor Adicionado (VA) das atividades cíclicas e exógenas desde 2021, com a previsão para 2026 e 2027. Para mais detalhes sobre a metodologia ver Matos (2026) (Decomposição do crescimento do Valor Adicionado e da Produtividade do Trabalho: VA Cíclico e “Setores Exógenos”):[2]
Gráfico 1: Decomposição do crescimento do Valor Adicionado (2021-2027)

Fonte: IBGE e Equipe do Boletim Macro IBRE. Elaboração do autor.
Já com relação às atividades exógenas ao ciclo econômico, a expectativa é de menor crescimento em 2027 também. Após contribuir com 1,6 p.p. para o crescimento do Valor Adicionado (VA) em 2025 de 2,4% - ou seja, com 68% - a expectativa é que a contribuição recue para 50% em 2026 (0,8 p.p. de 1,7%). Para o ano que vem, a contribuição deve recuar para 35% (0,3 p.p. de 0,9%). E por quê?
Em primeiro lugar, mesmo com as incertezas a respeito dos impactos do El Niño sobre a agropecuária brasileira, sem dúvida ele será negativo. Além dos efeitos diretos sobre a atividade primária, o efeito negativo se espalha por toda a cadeia do agronegócio, como na agroindústria e nos agrosserviços (armazenamento, transporte, etc..), além do efeito negativo na renda das regiões produtoras.
Com relação à indústria extrativa, o Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 da EPE projeta que a produção de petróleo e gás natural crescerá em torno de 3% ao ano nos próximos cinco anos, após crescer 12% em 2026.
Com relação aos serviços públicos (APU), a expectativa é que essa atividade cresça muito pouco nos próximos anos também, como ocorreu em outros períodos de ajuste fiscal. É importante mencionar que, no Brasil, o peso da APU no total de serviços é de quase 25%! Entretanto, há uma grande heterogeneidade regional: no Sudeste o peso é de 17% e no Nordeste é 35%, o dobro! Ou seja, no Nordeste mais de 1/3 do PIB de serviços está relacionado aos serviços públicos: educação, saúde e assistência social. Isso se reflete também no mercado de trabalho: 12% do total de pessoas empregadas no Sudeste está nos serviços públicos e, no Nordeste, 20%.
De qualquer forma, um ajuste fiscal crível deverá alterar toda a estrutura de juros no Brasil, reduzindo a taxa real neutra de juros, o que viabilizaria um ciclo de expansão do investimento e, consequentemente, um ciclo de crescimento econômico mais sustentável. Se esse ajuste for acompanhado de uma agenda de reformas para ganhos de produtividade, será possível crescer a taxa mais elevadas de forma sustentável. É urgente alterar o padrão de crescimento da economia brasileira.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva da autora, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
[1] (https://portalibre.fgv.br/publicacoes/economia-aplicada/boletim-macro/ed...).
[2] A diferença entre valor adicionado e PIB é que no PIB temos os impostos. Esperada a mesma taxa de crescimento para o valor adicionado e o PIB em 2026 e 2027. Ver: https://ibre.fgv.br/observatorio-produtividade/artigos/decomposicao-do-c....










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