Crédito

Desenrola de novo?

5 mai 2026

O novo Desenrola dá até 90% de desconto e barra apostas online, focando no fator comportamental. É um avanço, mas o alívio é temporário: sem atacar juros altos e causas estruturais, o ciclo do endividamento e seus danos sociais persistirão.

1. Introdução

O Brasil chegou ao dia 4 de maio de 2026, data do lançamento oficial do Novo Desenrola Brasil, em condições de endividamento familiar significativamente piores do que quando o primeiro programa foi anunciado, em julho de 2023. O endividamento total das famílias atingiu 80,2% da renda acumulada em doze meses, segundo a Confederação Nacional do Comércio. A inadimplência no crédito livre chegou a 6,9%, com o cartão de crédito rotativo operando a cerca de 435,9% ao ano. O Banco Central classificou esse movimento como um problema crescente no país. Não se trata de uma deterioração passageira, mas sim o resultado de um ciclo estrutural que o primeiro Desenrola aliviou, mas não interrompeu.

Nos últimos meses, análises publicadas no Blog do IBRE vêm documentando de forma sistemática esse processo. Em "Quem paga o custo do crédito no Brasil?" (Barreto et al., 2026), mostra-se que o principal problema do crédito brasileiro não está na escassez de recursos, mas na forma como o sistema os distribui. Enquanto o setor público amplia sua absorção de liquidez via emissão de títulos e grandes empresas acessam o mercado de capitais, as famílias permanecem fortemente dependentes do crédito bancário tradicional, mais caro, mais sensível ao ciclo monetário e cada vez mais concentrado em modalidades de maior risco.

Em "Novas evidências sobre o peso do crédito nas famílias brasileiras" (Barreto et al., 2026), avança-se nesse diagnóstico ao mostrar que os dados recentes do Banco Central reforçam o caráter estrutural desse arranjo, que amplia desigualdades, distorce a alocação de recursos e concentra seus efeitos contracionistas justamente sobre os agentes mais vulneráveis da economia.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

Comentários

Elaine
Tema de alta relevância.
Sidney Parizotto
Um excelente e fundamental texto para entender o novo programa e por que as famílias brasileiras estão tão endividadas, com efeitos já na economia real. A combinação de juros altos, muito altos, com estoque de dívida já elevado, informalidade no mercado de trabalho, a isso acrescento o enorme contingente de pessoas em programas sociais, inflação dos alimentos elevada – e com expectativa de alta em razão da pressão no preço dos fertilizantes – tudo isso turbinado pela baixa capacidade de entendimento e gestão das finanças pessoais, pela rasa ou completamente inexistente educação financeira, é uma receita explosiva e que em minha opinião esse novo programa não resolve. É alívio para os afogados, coincidentemente feito faltando apenas cinco meses para a eleição. A longo prazo, pode até piorar a situação porque, ao aliviar no presente, os valores mensais pagos pelo alongamento da dívida e pelo aumento do número de parcelas futuras, essa sobra de recursos certamente será direcionada ao consumo, ao imprescindível consumo de alimentos afetado pela inflação ou até para as Bets, poderá gerar um sentimento de alívio financeiro que pode levar à tomada de novas dívidas, e sempre haverá quem forneça essa nova dívida. E assim, o problema não se resolve. Até pode se agravar. O texto destaca muito bem os aspectos psicológicos e sociais do alto endividamento, do grande mal que isso causa às famílias. A importância do combate à inflação então ganha relevância, há hoje uma grande parcela da população que não viveu o período de hiperinflação, ou era muito jovem à época, ou simplesmente esqueceu o quanto a inflação é um mal econômico muito grave. Não entendem mais o valor de uma moeda estável. No governo e para certos Economistas ligados ao governo, os 3% de meta já são considerados exagerados. Tem quem defenda que poderia ser mais, por má-fé intelectual, esquecimento ou mesmo ignorância, descartam a possibilidade da inflação sair do controle, de se realimentar, do conceito de inércia inflacionária. E aí é má-fé mesmo, esquecem que são os mais pobres e desemparados os que mais sofrem com uma inflação elevada. O texto também enfatiza as questões da falta de educação financeira, os efeitos nefastos de dar acesso a crédito para pessoas que não sabem administrar seus recursos, que não sabem o percentual da renda mensal que pode ser comprometido com dívidas. Exemplo comum são as dívidas ao financiar carros, muitos adquirem carros antes da casa própria, ou modelos muito além de sua capacidade financeira, comprometendo 20% ou mais de sua renda com o pagamento. Mas como esperar educação financeira quando a educação geral é tão falha e num país onde bancos fazem marketing oferecendo contas digitais para “crianças”. O texto apenas esqueceu de mencionar, ou não quis abordar, o fato de os bancos terem comemorado este novo programa. Dívidas que em muitos casos já eram consideradas perdidas poderão talvez ser pagas. Não que não devam ser pagas, bem ao contrário, mas com os atuais níveis de juros praticados – os citados até 435% - há uma grande transferência de renda ao setor financeiro. E por fim, o risco moral, o fato de os inadimplentes e devedores contumazes se acostumarem com esses “jeitinhos” que dia sim e outro também aparecem para dar uma facilitada em seus problemas financeiros, não contribuindo para que aprendam a ter um comportamento mais responsável e sustentável, que aprendam a poupar antes de se endividar além de suas capacidades. De fato um belo, excelente, e fundamental texto que deve ser lido e compartilhado. Espero que Estudantes de Economia o leiam com afinco.

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