Cenários

A desinflação avançou, mas a última milha continua nos serviços

10 ago 2026
André Braz

Desinflação ganhou qualidade e amplitude em julho, com alívio expressivo em alimentos e combustíveis, mas convergência à meta ainda depende da resistência dos serviços, dos preços administrados e da reancoragem das expectativas de inflação.

A inflação brasileira entrou em agosto com uma fotografia melhor do que a observada poucos meses atrás. O alívio deixou de ser apenas uma promessa vinda dos preços ao produtor e começou a aparecer com mais nitidez no varejo. Mas é importante não confundir melhora com vitória. Os dados mostram que a desinflação ganhou qualidade e amplitude, ao mesmo tempo em que os componentes mais persistentes ainda mantêm a convergência para a meta como um processo lento e sensível a novos choques.

O ponto de partida dessa mudança está na origem da cadeia. Em julho, o IGP-M caiu 1,16%, com recuo de 1,74% do IPA, enquanto o IPC ficou praticamente estável, em -0,01%, e o INCC avançou 0,62%. A queda no produtor foi fortemente influenciada pelas matérias-primas minerais e pelo petróleo. A própria decomposição do IPA mostra que não houve uma queda homogênea de toda a indústria: bens intermediários e alguns segmentos industriais ainda apresentaram contribuições positivas. Ou seja, o choque perdeu força na origem, mas o repasse ao consumidor é, por natureza, defasado e incompleto.

Essa leitura ajuda a entender o IPCA-15 de julho. A taxa de 0,06% no mês levou a inflação acumulada em 12 meses a 4,52%. O número cheio foi resultado de forças quase simétricas: alimentação e bebidas contribuíram com cerca de -0,15 ponto percentual, enquanto habitação acrescentou aproximadamente 0,15 ponto. A alimentação no domicílio caiu 1,14%, os combustíveis recuaram 0,90% e, entre os itens de maior alívio, apareceram tomate, com -19,95%, batata-inglesa, com -10,03%, e café moído, com -3,13%. Na direção oposta, a energia elétrica residencial subiu 3,03% e as passagens aéreas avançaram 11,70%.

Há um sinal adicional de melhora que merece atenção: a difusão caiu de 60% em junho para cerca de 48% em julho. Menos da metade da cesta registrou aumento de preços. Isso sugere que a leitura benigna não ficou restrita a alimentos e combustíveis. Os núcleos também caminharam em direção mais favorável, embora ainda indiquem persistência. Na apresentação, as medidas de núcleo em 12 meses aparecem entre 4,01% e 4,60%, e os serviços subjacentes recuam de 5,25% para 5,08%. É uma mudança qualitativa importante: a desinflação começa a ir além do índice cheio, mas ainda não percorreu toda a distância até a meta.

É justamente nos serviços que está a chamada última milha. A inflação de serviços desacelerou de 6,25% para 5,95% em 12 meses no IPCA-15 de julho. O movimento foi relevante, com quedas expressivas em alguns segmentos, mas o nível segue elevado. O mercado de trabalho ajuda a explicar essa resistência: a taxa de desocupação estava em 5,4% no trimestre encerrado em junho, com rendimento real 2,8% maior em 12 meses e massa de rendimento real 3,6% superior. O dado não mostra uma nova aceleração na margem — renda e massa ficaram estáveis —, mas o nível de emprego e renda ainda sustenta a demanda por serviços, sobretudo os intensivos em mão de obra.

Outra fonte de atenção são os preços administrados. Em julho, a energia elétrica residencial acumulava alta de 8,90% em 12 meses. Ao mesmo tempo, os combustíveis deram alívio no mês. Essa combinação mostra por que os administrados podem contar histórias opostas em horizontes curtos: energia responde a tarifas, bandeiras e condições de geração; combustíveis permanecem sensíveis ao petróleo, ao câmbio, aos tributos e à política de preços. O choque do petróleo já perdeu grande parte da força na origem, mas seus efeitos residuais ainda podem percorrer fretes, petroquímicos e outros elos antes de desaparecer por completo.

As primeiras leituras de agosto reforçam a possibilidade de um índice cheio mais baixo. Foi feito um exercício para estimar a extensão dessa queda caso o bônus de Itaipu se apresente dessa forma. Para São Paulo, considerando um consumo de 209 kWh por mês, uma conta de R$ 224,64 e um bônus estimado em R$ 18,74, a redução da fatura seria de 8,34%. Se esse desconto médio fosse refletido integralmente no subitem energia elétrica, o impacto mecânico seria de aproximadamente -0,33 ponto percentual no IPCA, levando o exercício para perto de -0,47% em agosto. É importante ressaltar que se trata de um cenário, e não de uma previsão oficial. O efeito efetivo dependerá da incidência do bônus entre os consumidores elegíveis e dos demais componentes tarifários.

A diferença entre o curto e o médio prazo também aparece nas expectativas. No Focus de 31 de julho, a mediana para o IPCA de 2026 estava em 5,03%, abaixo dos 5,30% de quatro semanas antes. Para 2027, porém, passou de 4,18% para 4,22%; para 2028, de 3,70% para 3,80%. A melhora do dado corrente, portanto, foi mais rápida que a reancoragem das expectativas. Nos cenários apresentados, o caso-base trabalha com IPCA de 5,00% em 2026, 4,10% em 2027 e 3,60% em 2028. A distância entre os cenários cresce justamente onde hoje está a maior incerteza: serviços, administrados e expectativas.

Isso também ajuda a calibrar a discussão sobre juros. A Selic recuou para 14,00% ao ano, após corte de 0,25 ponto percentual na reunião de agosto. O IPCA-15 de julho melhora o ponto de partida, mas um único dado não define o ciclo. O que importa agora é a sequência: serviços cedendo de forma consistente, expectativas se aproximando da meta, menor pressão do mercado de trabalho e um balanço de riscos menos assimétrico. A inflação está caindo, mas ainda não está vencida.

O quadro, portanto, é mais favorável, porém mais exigente. Alimentos e bens entregam parte importante da desinflação; o choque do petróleo perdeu força na origem; a difusão diminuiu e os núcleos melhoraram. Ao mesmo tempo, serviços, energia e expectativas lembram que a convergência não ocorre por inércia. A questão central para os próximos meses não é apenas quanto o índice cheio pode cair, mas quão persistente será essa melhora. A última milha da desinflação não está nos bens. Está na capacidade de reduzir a inflação de serviços e reancorar as expectativas sem que novos choques de clima, petróleo, câmbio ou tarifas interrompam o processo.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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