A economia e as eleições

Eleição deste ano projeta dois caminhos: direita foca em contenção fiscal e abertura comercial. Já continuidade de Lula traz desafio de compatibilizar orçamento engessado com as regras de gasto, o que pode pressionar o câmbio e a inflação.
A eleição presidencial que está-se aproximando suscita a dúvida: o que acontecerá em cada caso? Com base nesta resposta, e com base nas pesquisas eleitorais, pode-se então fazer um cenário probabilístico que permite projetar o que se espera para o ano que vem, e por decorrência para o restante deste ano.
Comecemos pela parte mais fácil. Flávio Bolsonaro está-se consolidando como o nome que representará a direita nesta eleição. Isto tem inúmeras consequências. Vejamos algumas destas a seguir. Primeiro, do ponto de vista fiscal antevê-se que haverá uma forte contenção de gastos que colocará a trajetória da relação dívida/pib (aqui pensando na dívida bruta do governo geral - DGBB) em descendente, retirando-nos da perigosa proximidade com a zona de dominância fiscal. Como já vimos em outros artigos que escrevi no Broadcast, esta estimativa hoje está entre 85 e 90% do PIB. Incluo aqui uma necessária revisão das medidas tributárias impostas pelo governo Lula, em especial o irresponsável e custosíssimo aumento do IOF. Segundo, do ponto de vista monetário, espero que a lição da dificuldade de perseguirmos uma meta para a inflação de 3% ao ano no nosso país, país este que volta e meia flerta com estímulos fiscais, é uma inconsequência. Assim, uma vez que o comportamento da DGBB esteja solidamente indicando uma diminuição (e isto passa por uma taxa de juros nas NTN-B’s longas próximas ou abaixo de 5% ao ano), seria hora de passarmos a adotar uma meta mais realista de 4%, ou ainda 4,5% ao ano. Terceiro, do ponto de vista comercial parece-me que teremos uma abertura, finalmente, inclusive com uma imediata reversão do aumento de imposto de importação para bens de capítal e sua eliminação por completo num horizonte de poucos anos. Quarto, tudo indica que teremos uma visão mais equilibrada que a de Jair Bolsonaro no que tange à agenda ambiental. Desta maneira, abandonaremos de vez a noção de que o progresso na Amazônia passa pelo desmatamento para dar lugar a pastagens para pecuária extensiva altamente ineficiente, ou para a expansão do cultivo da soja. O mundo demanda os serviços de captura de carbono atmosférico da Amazônia. E temos que nos aproveitar deste fato para rentabilizar a preservação e a restauração da floresta. Quinto, a reforma administrativa voltará a ter foco. Sexto, há um sem número de medidas microeconômicas completamente erradas que precisam ser urgentemente revogadas: Nova Indústria Brasil, incentivos à indústria naval, linhas de crédito para caminhões (incrível esta péssima ideia que levou à greve dos caminhoneiros ter sido reavivada), modificações que tiraram poder da TLP no BNDES, entre outras muitas. Sétimo, por fim, imagino que este governo entenderá a urgência de reforçar o Bacen e o COAF, aprovando a lei de resolução bancária e a PEC da autonomia administrativa.
E agora vem a parte mais difícil. O que esperar de um governo Lula no seu quarto mandato? Se pensarmos no “mais do mesmo”, veremos que tal política é matematicamente inviável. Diversas estimativas da IFI e de várias outras fontes, inclusive do ministério do planejamento, mostram que há uma incompatibilidade entre a regra de reajuste do salário mínimo acima da inflação e o nosso orçamento completamente engessado, o que faria com que houvesse a paralisação do governo. Basta ver que tal fato já está em andamento: universidades federais à mingua de recursos para sua manutenção e o aumento da fila do INSS mostram as consequências de gastos necessários represados. Assim, o cenário “mais do mesmo” resulta em “crise no primeiro ano de governo”, isto é, disparada do dólar e inflação já no ano que vem. O segundo cenário com Lula eleito seria a tentativa de restringir um pouco os gastos e aumentar ainda mais impostos. Neste caso, veríamos que o Congresso, muito provavelmente ainda mais oposicionista que o atual, teria dificuldade de aprovar aumentos de impostos. Portanto, teríamos soluções insuficientes para os problemas. A crise ficaria cada vez mais clara, com a elevação da DBGG/PIB em níveis que provavelmente levariam à dominância fiscal. Sem reação severa do governo, a crise surgiria num prazo um pouco maior que se fosse a primeira alternativa (que foi chamado de “mais do mesmo”). Terceiro, por fim, há uma versão extremada, na qual o lema “gasto é vida” é levado ao pé-da-letra, e governo exarcebaria as medidas extravagantes que tem tomado do ponto de vista de despesas. Neste caso, pode ser que bastasse o anúncio da política para levar à crise de imediato.
Em suma, as pesquisas de opinião poderão, à proporção que se aproxima a eleição presidencial, ser determinantes da trajetória do câmbio e da inflação, pelo mero efeito das expectativas. E isto independe do fluxo externo, já que a presença estrangeira na dívida pública nacional é pequena em relação aos locais. Uma forma disto mudar seria uma alteração grande no discurso do presidente Lula sobre o rumo que tomaria se fosse reeleito.
Este artigo foi publicado originalmente pelo Broadcast da Agência Estado, em 10/03/2026, terça-feira.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.










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