Espremendo a classe média no Brasil e nos EUA

08/01/2020

Economistas mais progressistas têm apontado a falha da política econômica em combater os efeitos da crise internacional de 2008 como uma das causas do aumento da polarização política e ascensão ou aumento da influência da extrema direita nas democracias ocidentais.

De fato, a busca prematura pela consolidação fiscal em vários países, a partir de 2010, prejudicou a recuperação econômica do mundo nos últimos 10 anos e explica, em parte, a insatisfação do eleitorado com políticos tradicionais em vários países ocidentais.

Outros fatores também contribuíram para a atual configuração política, como o aumento de importância das redes sociais e a disseminação de fake news, mas como economista, sempre acabo procurando razões materialistas para grandes oscilações de opinião pública.

Uma das possíveis causas econômicas do quadro político dos últimos anos é a insegurança da classe média no ocidente. Seja pela desaceleração do crescimento, maior automatização da produção, precarização do trabalho, aumento de imigração e elevação da desigualdade, o fato é que a classe média diminuiu em vários países ocidentais nos últimos anos.

O processo não foi exatamente o mesmo em todos os lugares e, para ilustrar diferenças importantes, neste texto compararei o Brasil com os EUA, no período de 2002 a 2014, com base nos dados da World Inequality Database (WID).

Nos dois países houve redução da renda apropriada pela classe média, definida como os 40% entre os 50% mais pobres e os 10% mais ricos, mas com duas importantes diferenças:

  1. No Brasil a participação dos 50% mais pobres na renda total subiu, enquanto nos EUA houve redução.
  2. No Brasil a participação da “alta classe média” – o grupo entre os 1% mais ricos e os 90% mais pobres – caiu, enquanto nos EUA houve aumento

Há doze anos (Barbosa-Filho 2008) apontei o arranjo não usual do Brasil durante os governos do PT, isto é, a reorganização da política econômica brasileira de um modo que beneficiou mais os mais pobres e preservou os mais ricos. Os resultados acima confirmam esta percepção, mas vamos aos números (o link para o Excel com todos os dados utilizados no texto está aqui)

A figura 1 apresenta a evolução da participação na renda dos 50% mais pobres – a “classe trabalhadora” ou “batalhadora” (Souza 2012) – no Brasil e nos EUA. Os dados do Brasil vão até 2015, os dos EUA até 2014. Os números mostram que, nos EUA, parcela da renda dos 50% mais pobres caiu de 15% para 12,5% do total entre 2001 e 2014. No caso do Brasil houve movimento inverso, isto é, a parcela dos mais pobres aumentou de 12,6% para 14,3% no mesmo período.

Figura 1

Passando aos 40% seguintes na distribuição de renda – a “classe média” – a participação da renda caiu de 42,3% para 40,4% nos EUA, e de 33,1% para 31,1% nos EUA, entre 2001 e 2014. Esta queda quase comum de quase dois pontos percentuais pode explicar parte da insatisfação da classe média com a política nos dois países.

Figura 2

No caso dos 10% mais ricos, nos dois países houve aumento da participação na renda entre 2011 e 2014. A figura 3 mostra a evolução: os mais ricos aumentaram sua parcela da renda de 42,8% para 47% nos EUA, um ganho de 4,2 pontos percentuais (pp), enquanto no Brasil a elevação foi de apenas 54,3% para 54,6%, um ganho de apenas 0,3 pp.

Figura 3

Diante dos dados apresentados acima, podemos concluir que, entre 2001 e 2014 houve redistribuição dos mais pobres e da classe média para os mais ricos nos EUA. Já no Brasil houve redistribuição da classe média para os mais pobres, uma vez que a parcela dos 10% mais ricos ficou praticamente inalterada no período. Esta particularidade brasileira pode explicar parte da “revolta da classe média” durante o final dos governos do PT, mas a situação fica ainda mais interessante quando quebramos os mais ricos em dois grupos.

A figura 4 apresenta a evolução da parcela da renda dos superricos – os 1% do topo da distribuição de renda – no Brasil e nos EUA. Nos dois países houve aumento de participação entre 2001 e 2014, isto é: de 17,3% para 20,2%, nos EUA, e de 26,2% para 27,5%. Seja com expansão ou recessão, os mais ricos sempre têm mais meios para proteger sua renda do que os mais pobres.

Figura 4

E o que aconteceu com a “alta classe média”, isto é, com o grupo entre os 1% mais ricos e os 90% mais pobres? A figura 5 apresenta os dados e revela outra particularidade brasileira: entre 2001 e 2014 a alta classe média perdeu participação na renda brasileira, enquanto o oposto ocorreu nos EUA. Em números, nos EUA a participação deste grupo subiu de 25,5% para 26,8% do total, enquanto no Brasil houve queda de 28,1% para 27,1%.

Figura 5

Para resumir os dados das figuras 1 a 5, a tabela 1 abaixo apresenta um resumo da redistribuição da renda pessoal no Brasil e nos EUA.

Tabela 1: Redistribuição de renda no Brasil e nos EUA

 

EUA

Brasil

2001

2014

Variação

2001

2014

Variação

50% mais pobres

15.0%

12.5%

-2.4%

12.6%

14.3%

1.7%

40% seguintes

42.3%

40.4%

-1.8%

33.1%

31.1%

-2.0%

9% seguintes

25.7%

26.8%

1.1%

28.1%

27.1%

-1.0%

1% mais ricos

17.3%

20.2%

2.9%

26.2%

27.5%

1.3%

Fonte: WID, elaboração do autor.

Nosso próximo passo é verificar o que os números acima significam em termos de renda absoluta por habitante. Por exemplo; pode haver concentração de renda com todos melhorando de vida, e redistribuição de renda com todos piorando de vida. Qual foram os casos no Brasil e nos EUA?

Como guia para o crescimento da renda total da sociedade, considere o crescimento do PIB per capita nos dois países entre 2001 e 2014. O índice correto deveria ser a renda nacional disponível, que leva em conta a renda líquida enviada ao exterior, mas para simplificar a conta utilizarei a renda per capita como aproximação.

Segundo os dados do FMI, no período em questão o PIB per capita cresceu 14,2% nos EUA e 35,7% no Brasil. Com base neste crescimento, e nos dados da tabela 1, a tabela 2 apresenta o crescimento médio da renda de cada grupo da distribuição de renda.[1]

Tabela 2: evolução da renda real por grupo de distribuição de
 renda nos EUA e no Brasil, entre 2001 e 2014

 

EUA

BRA

50% mais pobres

-4.2%

53.5%

40% seguintes

9.3%

27.6%

9% seguintes

19.3%

30.9%

1% mais ricos

33.5%

42.5%

Fonte: WID, FMI e cálculo do autor.

Em palavras, nos EUA houve queda da renda real dos 50% mais pobres entre 2001 e 2014. Os demais grupos tiveram aumento real, sendo o crescimento maior para os mais ricos. Em contraste, no Brasil todos os grupos tiveram aumento de renda real entre 2001 e 2014, mas o maior crescimento ocorreu para os 50% mais pobres, seguidos dos 1% mais ricos.

A renda da classe média subiu no Brasil, mas não tão rápido quanto para os mais pobres e os mais ricos entre 2001 e 2014. Este arranjo “não usual” pode ajudar a entender a evolução de nosso cenário político, pois como sabemos, as expectativas dos agentes são fortemente relativas em considerações de bem-estar (a “hipótese do gramado do vizinho”).

Por fim, no caso do Brasil, os dados da WID já estão disponíveis para 2015 e indicam concentração de renda à la EUA: queda da participação da renda dos 50% mais pobres e dos 40% seguintes, com aumento da participação da renda da alta classe média e dos 1% mais ricos. À medida em que novas observações se tornarem disponíveis, poderemos saber se tal variação reflete uma nova tendência ou foi efeito da recessão de 2015.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

 

[1] A lógica é simples, se a renda nos EUA aumentou 14,2% e os 50% viram sua participação na renda cair de 15% para 12,5%, sua renda variou 1-(1,14)x( 0,125/0,15) =-0,047 e assim em diante.

Deixar Comentário

Veja também