Falta de matéria-prima desafia a inflação

15/12/2020

A pandemia de covid-19 vem afetando bastante a economia. O surgimento de uma segunda onda contribui para um prolongamento das dificuldades em setores estratégicos da economia brasileira, responsáveis pelo crescimento do PIB. Alguns segmentos, principalmente os mais afetados pela redução da demanda na fase mais aguda da pandemia, buscam reduzir sua exposição ao risco, cortando custos fixos e adiando novos investimentos. A maioria das empresas segue produzindo com elevada capacidade ociosa, o que também afeta negativamente o mercado de trabalho.

O aumento dos preços de certas matérias-primas em dólar vem estimulando o aumento das exportações brasileiras. A desvalorização do real aumenta a competitividade do país, elevando o volume de exportações – o que, se, por um lado, melhora os números da Balança Comercial, por outro, pressiona a inflação devido à redução da oferta no mercado brasileiro.

As Sondagens Empresariais – através de quesitos inéditos incluídos na pesquisa de novembro – corroboram essas informações. O levantamento mostra que aproximadamente 39% das empresas vêm encontrando dificuldade de comprar matéria-prima. Entre os setores mais afetados está a indústria, que vem apresentando recuperação mais rápida no período da pandemia do que os demais. Entre as categorias de uso com maior dificuldade, estão as de consumo de duráveis e não duráveis, como os segmentos de têxteis, vestuário, produtos de plástico, petróleo e biocombustíveis, produtos de metal e veículos automotores.

Fonte: Elaboração própria com base em dados das Sondagens FGV IBRE

Além da indústria, comércio e construção também foram comprometidos pela falta de matéria-prima. No comércio, os segmentos de material de construção e veículos são os que mais sofrem, incluindo motos e peças. Isso mostra que o problema da falta de insumos afeta toda a cadeia produtiva, chegando a influenciar produtos que chegam ao consumidor final.

Mas, afinal, qual o principal fator responsável pela dificuldade das empresas em comprar matérias-primas? O resultado da pesquisa mostra que cerca de 72,6% das empresas apontam a escassez do insumo no mercado interno como principal problema. Levantamos aqui algumas hipóteses para a escassez de matérias-primas:

  • Aumento dos preços internacionais de matérias-primas (ex: vestuário e petróleo/biocombustíveis),
  • Desvalorização cambial de aproximadamente 30% acumulada nos últimos 12 meses,
  • Aumento do volume de exportações,
  • Desmobilização de cadeias produtivas afetadas de maneira mais aguda pela pandemia,
  • Aquecimento mais recente da demanda industrial em certos segmentos.

Segundo a Sondagem Empresarial, os insumos que mais estão desafiando a cadeia produtiva são as embalagens. Cerca de 30,3% da indústria brasileira aponta dificuldade em obtê-las. Esse percentual chega a 62,5% no segmento farmacêutico e 51,9% no de alimentos. Este último, essencial para os consumidores, foi o que menos sofreu com os efeitos da pandemia: a demanda por alimentos cresceu muito, especialmente na fase mais aguda do isolamento social, via aumento do consumo doméstico sustentado por medidas de distribuição de renda e proteção social estabelecidas durante a pandemia.

Ainda no segmento de embalagens e, segundo a Sondagem Empresarial, 11,4% da indústria reclama da dificuldade de obter plástico, 38% do segmento de produtos de plástico sofre com a carência de matéria-prima.  Ademais, apesar de não tão expressivo no resultado agregado da indústria total, papel e papelão (4,5%) são insumos citados por mais de 58% das empresas de celulose e papel.

Tanto o plástico quanto o papelão são matérias-primas para embalagens muito utilizadas no mercado. Esse produto foi o que apresentou o maior índice de reclamações da indústria. Vale ressaltar que o aumento da demanda por embalagens (49% em 2020) é reflexo direto da pandemia de Covid-19 e ilustra a ampla expansão do e-commerce, crescimento sustentado pela necessidade de se manter as regras de distanciamento imprescindíveis para conter o avanço da pandemia.

Fonte: Elaboração própria com base em dados das Sondagens FGV IBRE

Segundo o índice de Preços ao Produtor da FGV (IPA), os preços das embalagens avançaram muito nos últimos 12 meses findos em novembro. Latas de alumínio (23,4%), sacos plásticos para embalagem (27,3%) e embalagens de plástico para alimentos (33,3%) são alguns exemplos.

As bobinas e chapas de aço, com alta de 48,9% em seus preços nos últimos 12 meses, também figuram entre os insumos mais citados pela indústria. A escassez desse insumo vem afetando mais de 50% das empresas de produtos de metal e veículos. Impacto que não se limita à indústria. O comércio de veículos, motos e peças – setor no qual 28% das empresas vêm reclamando da falta de insumos – também foi sensivelmente afetado.

A escassez de matérias-primas afeta de forma destacada a construção civil, segmento em que 53,5% das empresas citam dificuldades para obter materiais básicos como aço e cimento.

A carência de tais materiais sustenta preços em elevação. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC FGV) está registrando forte aumento nos preços de tubos de PVC (41,3%), tubos de ferro (35,9%), vergalhões de aço (26,3%) e cimento (25,9%), o que atinge mais de 60% das empresas de obras e instalações.

Principais insumos ou matérias-primas que apresentam dificuldade para aquisição
(por setor, em %)

Fonte: Elaboração própria com base em dados das Sondagens FGV IBRE

A continuidade desse cenário desafiador e pouco amistoso – especialmente para segmentos que respondem por parte importante do PIB nacional – dependerá do encaminhamento de questões importantes em 2021. Sem que haja uma boa estratégia para melhora das constas públicas, a recuperação da atividade econômica será desafiadora e propícia para um cenário de estagflação, algo que, a esta altura, já esperávamos ter superado.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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