Cenários

Hiato da indústria e de serviços

24 fev 2026

De 1998-2015, quantidade de trabalho efetivo cresceu 59% e a de capital 56%. Nos dez anos posteriores, o trabalho utilizado cresceu 1,4% e o capital 2,8%, e as produtividades ficaram estagnadas, com a PTF dando indicações de continuar em queda.

INTRODUÇÃO

Em 11/12/2025 publicamos neste blog os resultados do hiato do PIB do terceiro trimestre de 2025, que estimamos estar positivo há 11 trimestres, apresentando no terceiro trimestre um valor de 3,6%. Neste post estamos publicando nossas estimativas do hiato do produto para as atividades da indústria e de serviços.

Os dados desse artigo podem ser acessados aqui.

O HIATO DA INDUSTRIA[1]    

O hiato da indústria no terceiro trimestre de 2025 foi estimado em 0,7% e representa a quinta leitura positiva entre os últimos seis trimestres. O Gráfico 1 ilustra essa reversão na trajetória do hiato, evidenciando a presença de capacidade ociosa na economia nos últimos 41 trimestres (mais de dez anos). Vale a pena ressaltar que o hiato tem sido negativo desde 2014, a despeito dos períodos de crescimento industrial antes de 2014. Do início da série em 1998 até 2014, a indústria cresceu 41% e, a partir de 2014, ficou virtualmente estagnada.

 

Fonte: informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI) -  elaboração própria.

O Gráfico 2 mostra que a produtividade do capital, do trabalho e a própria PTF[2] se reduziu fortemente até o final de 2015, se recupera e fica virtualmente estagnada até o final de 2025. Aqui parece surgir uma contradição já que há forte crescimento da indústria desde 1998 até o início da recessão de 2014, com a produtividade em queda durante o período. Isso ocorreu devido ao forte aporte de trabalho, provavelmente, menos qualificado, e de capital com pouco avanço tecnológico em relação ao existente. Desde o início da série em 1998 até 2015 (18 anos), a quantidade de trabalho efetivo cresceu 59% e  de capital 56%. Nos dez anos posteriores, até 2025, o trabalho utilizado cresceu 1,4% e o capital 2,8%. Durante o período posterior – de 2016 em diante – as produtividades ficaram estagnadas, com a PTF dando indicações de continuar em queda.

Fonte: informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI) - elaboração própria.

O HIATO DE SERVIÇOS[3]

O hiato de Serviços do terceiro trimestre de 2025 foi estimado em -1,1%, sendo o terceiro resultado negativo desde 2023Q1, quando o hiato havia se tornado positivo (Gráfico 3). Antes disso, desde 2014 havia sido negativo devido à estagnação, por oito anos, do produto potencial, que voltaria a crescer junto com o produto efetivo, a partir do final da pandemia em 2021.

 

Fonte: informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI) - elaboração própria.

O Gráfico 4 ilustra a evolução das produtividades do capital, do trabalho e da Produtividade Total dos Fatores – PTF.  As produtividades do capital e do trabalho ficam virtualmente estagnadas de 1998 a 2005; a partir daí, a produtividade do trabalho permanece estagnada, mas a do capital se reduz fortemente, estabilizando-se posteriormente ao final de 2016. Por sua vez, a PTF declina desde o início da série em 1998 e se estabiliza no fim da recessão em 2016Q4.

Fonte: informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI) -  elaboração própria.

Paralelamente, se observa no Gráfico 3 que os serviços cresceram celeremente (75%) até 2014, enquanto o uso de capital cresceu fortemente (210%) no mesmo período, o que se coaduna com forte aumento da quantidade de capital, provavelmente, sem avanço tecnológico. Ao mesmo tempo o trabalho cresceu menos (75%), sem capacidade de transformar em produtividade o aporte de capital.

No período recente, o produto de serviços cresceu cerca de 7%, com menor crescimento do uso de capital e de trabalho, que cresceram apenas cerca de 1,2%.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.   

 

[1] A atividade INDUSTRIA compreende a indústria extrativa mineral, transformação e construção; exclui, portanto, a eletricidade.

[2] A partir de 2023, fizemos um aprimoramento em nosso método de cálculo do produto potencial, que envolve o tratamento da variável Produtividade Total dos Fatores (PTF). Essa variável não é mais considerada um resíduo da função de produção, após a estimativa do capital e do trabalho utilizados. Doravante, a reconhecemos como a tendência daquela série obtida pelo resíduo, após aplicação de método de filtragem (HP). Isso resulta em uma série com menos ruído e volatilidade.

[3] A atividade de serviços neste texto compreende as atividades de transportes, comércio, outros serviços; exclui, portanto, serviços financeiros, serviços imobiliários,  administração pública e  serviços de informação

Comentários

André Carmona
Caros, por gentileza: é factível a abertura da 'indústria' por subgrupo (extrativista, transformação e construção)?

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