Incerteza subiu no mundo todo, mas a que enfrentamos no Brasil é a maior

20/05/2020

O aumento da incerteza no Brasil após a chegada da pandemia de Covid-19 foi um fenômeno percebido por todos e captado estatisticamente pelo Indicador de Incerteza (IIE-Br) do FGV IBRE, que chegou a níveis estratosféricos já em março, como comentado neste artigo, tendo subido ainda mais em abril.

A hipótese levantada por Campelo e Gouveia no artigo foi de que a incerteza já vinha elevada no Brasil desde 2015 e foi empurrada para níveis atípicos com a chegada da pandemia, refletindo principalmente questões de saúde, mas também a instabilidade do ambiente político e questões econômicas como a incerteza fiscal face à completa reformulação da agenda política no ano. Isso torna ainda mais difícil de se prever um retorno a níveis considerados normais, que não observamos desde 2014!

Como sabemos que a incerteza é um fator que tende a aprofundar crises econômicas ao provocar uma postura de “se esperar para ver”, tanto entre empresários na hora de investir quanto de consumidores na hora de realizar gastos discricionários, é importante analisar como evoluiu a incerteza no país quando comparada ao que vem ocorrendo em outros países.

A melhor base para comparações internacionais de indicadores de incerteza é a do Economic Policy Uncertainty Project dos professores Bloom, Baker e Davis[1], que vêm produzindo ou compilando, para diversos países, indicadores semelhantes ao componente do IIE-Br relacionado à “incerteza na mídia”.  Ressalvo que existem diferentes metodologias para a construção dos indicadores de incerteza entre os países e diferenças também em termos de qualidade do dado. Apesar disso, no agregado é possível ter uma ideia razoável da evolução da incerteza no mundo[2].

Uma análise desta base de dados mostra que em todos os países houve uma alta expressiva da incerteza nos últimos meses. Em março, houve forte incremento, com uma variação superior a 15 pontos em 16 dos 21 países pesquisados. Posteriormente, em abril, a incerteza desacelerou em muitos países, mas se manteve historicamente elevada na maioria deles. Em abril, a incerteza brasileira foi a maior se comparada aos outros 20 países. Mesmo considerando que o ciclo do vírus no Brasil está atrasado em relação aos países asiáticos e europeus, a incerteza de abril também superou a de todos os outros países também em março. Como, na maioria deles, a pandemia tem influenciado este movimento, é natural que em alguns deles, os que já estavam passando a uma fase de relaxamento de medidas de isolamento social em abril, tenha ocorrido até uma ligeira redução ou acomodação da incerteza na ponta.

*Fonte: Economic Uncertainty Project e FGV (Brasil)  Elaboração: Autora

A China, primeiro país a apresentar casos de Covid-19, já vinha de um ambiente com incerteza elevada desde o ano passado, em função principalmente da guerra comercial com os EUA. O Economic Policy Uncertainty Index (EPUI) para aquele país atingiu o nível máximo em dezembro de 2019 e chegou a recuar um pouco nos meses seguintes, ainda que a pandemia fosse um evidente motivo de preocupação.

Em outros países também os níveis de incerteza atingidos este ano não são os maiores da história recente. Em 2019, por exemplo, Reino Unido viveu um grau de incerteza ainda maior, durante o período mais tenso do Brexit. O Chile experimentou níveis de incerteza próximas aos níveis atuais em novembro e dezembro de 2019, por conta das manifestações que pediam melhorias sócio estruturais.

Considerando a evolução da incerteza nos últimos 12 meses o Brasil novamente aparece no topo da lista em abril, com uma variação de 72% em relação ao mesmo mês do ano anterior, seguido dos Estados Unidos com 64%. Comparação análoga feita em março colocaria o Brasil em segundo lugar, abaixo somente da Rússia.

*Fonte: Economic Uncertainty Project e FGV (Brasil)  Elaboração: Autora

A pandemia provocou um choque profundo na incerteza dos países no primeiro momento. A enxurrada de notícias sobre incerteza refletiu o grau de ineditismo do choque, que atingiu diversos setores, alguns deles bastante resilientes mesmo em recessões brandas, como o de Serviços.  Num segundo momento, apesar de a incerteza econômica-política permanecer alta, é natural que ocorra uma atenuação de notícias ou mesmo uma transferência do teor de notícias de perguntas que reflitam incerteza como “o que acontecerá ao país na maior crise sanitária dos últimos 100 anos? ”, para a certeza parcial de perguntas como “é certo que teremos grandes impactos na economia e sociedade”.

Mas de quanto será esse impacto? Quando recuperaremos? Quais as mudanças temporárias que se tornarão permanentes no mundo? Essas e outras são as perguntas que influenciam nos níveis de incerteza, dado que estamos vivendo todos os diversos tipos dela.

Os Indicadores de Incerteza no mundo reagem à medida que o alastramento da pandemia ocorre e à medida que ações são tomadas para tentar conter os diversos impactos na saúde e na economia. Apesar de cada país ter sua história, a Incerteza operando em níveis elevados no mundo é um fato. Para o futuro, tudo dependerá de como o mundo chegará do outro lado.

Prévia de Maio

A prévia do Indicador de Incerteza da Economia – Brasil (IIE-Br) da FGV de maio sugeriu uma acomodação da incerteza em patamares extremamente elevados. O componente de incerteza por incidência de termos na Mídia, que havia alcançado o recorde histórico no mês anterior, recuou, ao passar de 195,3 para 179,4 pontos, mas ainda está oito desvios padrão acima da média, um número atípico ou outlier sob qualquer critério de avaliação. Na prática, se os números dos outros países pesquisados ficarem estáveis, a incerteza brasileira continuará sendo a mais alta do mundo neste mês.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV

 

[1] De Northwestern University, Stanford University e University of Chicago, respectivamente.

[2] Para tornar possível a comparação, todos os EPUI foram padronizados para refletirem média 100 e desvio padrão 10 entre janeiro de 2006 e dezembro de 2015, assim como ocorre no cálculo do IIE-Br.

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