Luz no fim do túnel?

22/05/2020

Aos poucos vão se somando os sinais de que a pandemia do coronavírus está sendo controlada em nível global. Não se questiona que são altos os totais de casos confirmados -- quase 5 milhões de pessoas – e de mortes -- caminhando para  350 mil. Porém, tanto um quanto outro têm crescido abaixo de 2% ao dia na última semana, sendo que estas taxas seguem caindo. Em países e localidades mais avançadas nesse processo, as medidas de confinamento têm sido parcialmente relaxadas e as pessoas têm voltado a se deslocar, sem que até aqui se tenha notícias de um recrudescimento mais significativo da pandemia. Uma evolução que tem alimentado um certo retorno do apetite por risco e sinalizado que, em alguns casos, como a Alemanha, a queda do PIB no segundo trimestre, ainda que grande, poderá ser menos dantesca do que alguns chegaram a prever.

Paralelamente, nas últimas semanas o foco da pandemia continuou se deslocando dos países desenvolvidos para os emergentes, com destaque para Brasil, Rússia e Índia, onde o número de casos segue aumentando mais rápido do que o registrado para o resto do mundo. Sem dúvida, a qualidade heterogênea dos dados dificulta a comparação entre países. Essa dificuldade resulta, entre outros fatores, de diferentes níveis de testagem: em geral, os países em desenvolvimento tendem a testar relativamente pouco, o que pode indicar uma dinâmica mais favorável do que a real sobre o total de casos e mesmo de mortes per capita. Não obstante, é possível que apenas os EUA, que seguem bem à frente dos demais países em número de casos e mortes, venham a superar esses três países nessas tristes métricas em um horizonte de dois ou três meses.

Na Europa e nos EUA, o efeito da pandemia sobre a economia tem sido intenso, com forte retração no primeiro semestre deste ano, concentrada principalmente nos em marco e abril, período de severo isolamento social. Como o distanciamento social limita a mobilidade, restringe a capacidade das pessoas conseguirem trabalhar e consumir. Isso faz com que a maior parte da contração do PIB seja concentrada no gasto das famílias, que é algo sem precedentes quando comparamos com outras crises mundiais.

No entanto, a  Europa e alguns estados americanos já iniciaram um processo de reabertura gradual da economia, que deve se estender ao longo dos próximos meses. Com isso, é esperada recuperação da atividade  econômica no segundo semestre. Essa deve ser mais forte de início, pela simples reabertura de muitos negócios, e mais gradual em seguida, conforme empresas, trabalhadores, consumidores e governos tentam adaptar a atividade econômica às necessidades impostas pela proteção à saúde.

Em particular, é isso que sugere a experiência mais avançada da China, onde se observa que a retomada da economia tem se dado de forma relativamente frágil. Lá, após a fase aguda, houve alguma normalização da atividade econômica, com destaque para o setor industrial, mas o setor serviços ainda sofre efeitos mais severos da pandemia. Em abril, por exemplo, a indústria chinesa cresceu 3,9% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto o comércio varejista recuou 7,5% na mesma comparação, após ter se contraído 15,8% em março. Além da mudança de comportamentos, o avanço da pandemia no resto do mundo e o medo de uma segunda onda de contágio seguem dificultando a normalização da atividade na China.

A própria incerteza em relação à forma como se dará a recuperação vai funcionar como trava a uma retomada mais forte. Há muitas dúvidas, por exemplo,  sobre a possibilidade de novas ondas de contágio do coronavírus e sobre a possibilidade de os efeitos na atividade econômica serem mais duradouros. De fato, há notícias de aumento de casos em alguns países como Alemanha, Coreia do Sul e até na China, após medidas de flexibilização entrarem em vigor. E há a necessidade de desmontar algumas medidas extraordinárias de estímulo e apoio à criação de redes de proteção social, processo que tende a ser contracionista.

Dessa forma, só se poderá ter certeza de uma recuperação completa e sustentável se e quando um tratamento eficaz de prevenção ou combate à pandemia estiver disponível. Mas esse já é um tema fora do mundo da economia.

No Brasil, o momento é desafiador. Por um lado, estamos ainda na fase aguda da pandemia, pois os números de novos casos e de novas mortes diárias vêm crescendo bastante ao longo do mês de maio, sem sinais concretos de tendência de desaceleração significativa a curto prazo. E, com isso, os impactos econômicos têm sido severos. Desde março, os indicadores de atividade mostram contração mais intensa do PIB no primeiro e no segundo trimestres que o anteriormente previsto. Revisamos a queda esperada do PIB no primeiro trimestre, em relação ao trimestre anterior, de 0,7% para 1,0%, e, para o segundo trimestre, o recuo foi revisto de 5,7% para 9,6%. Para o ano, mudamos a previsão de contração do PIB de 3,4% para 5,4%.

Uma piora mais aguda do que anteriormente prevista para a atividade econômica, por sua vez, faz com que os riscos fiscais tenham aumentado. A piora no déficit público em 2020 decorre principalmente do aumento de gastos para mitigar o impacto da pandemia, além da retração da atividade econômica. Nossa estimativa do resultado primário é de um déficit de 8,2% do PIB, com a dívida bruta atingindo 92% no fim de 2020.

A dimensão da crise econômica e de suas repercussões sociais tem motivado inciativas na esfera política com potenciais implicações negativas, não apenas para o arcabouço fiscal, como também para o ambiente de negócios. É sempre bom lembrar que a piora das variáveis fiscais eleva o risco de o país retornar a uma trajetória de endividamento insustentável, e com isso a sustentabilidade das taxas de juros nas mínimas históricas, meta que conta com apoio quase universal, ficaria mais difícil.

Projetos de lei com o objetivo de interferir em contratos privados, como congelar preços e tabelar juros, estão na pauta de votação no Congresso, com pouco espaço para debate. Além disso, o Executivo tem tido dificuldade de se articular politicamente para evitar medidas econômicas que podem prejudicar ainda mais o ambiente de negócios e a recuperação da economia no pós pandemia.

Consequentemente, diante desse quadro, não podemos descartar de todo o risco de um cenário com quadro recessivo mais intenso e duradouro.


Esse é o sumário do Boletim Macro Ibre de maio de 2020. Para ler o boletim inteiro clique aqui.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

 

 

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