Construção

Minha Casa Minha Vida: programa impulsiona a atividade e empresas seguem mais otimistas que a média do setor

16 out 2026

Empresas que operam com o MCMV seguem mais otimistas que o restante da construção, mas dificuldades cresceram reduzido o entusiasmo. Escassez de mão de obra é o principal entrave, enquanto custos e limitações financeiras ganham importância.

No primeiro semestre do ano, o Programa Minha Casa Minha Vida dominou o mercado habitacional do país. De acordo coma pesquisa da CBIC/BRAIN, o programa representou mais de 50% das vendas realizadas no período. Na cidade de São Paulo, esse percentual alcançou mais de 70% dos lançamentos e das vendas realizadas até julho.

A ampliação das faixas de renda atendidas, o aumento dos limites de valor dos imóveis financiáveis e a disponibilidade recorde de recursos do FGTS permitiram o aumento no volume de lançamentos e contratações. Paralelamente, o mercado de habitações, para a média/alta renda, que dispõe de financiamento com taxas de juros mais elevadas, encolheu.

Nesse contexto, é natural supor que as empresas ligadas ao programa continuem exibindo indicadores superiores à média do setor.

De fato, as empresas de Edificações Residenciais e Incorporação que atuam no programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) continuam apresentando desempenho superior ao observado entre as empresas que não operam no programa. Os resultados da Sondagem da Construção referente a setembro de 2026 mostram, entretanto, que o aumento de dificuldades, especialmente relacionadas à contratação de trabalhadores, contribuiu para minar a percepção positivos em relação aos negócios correntes.

Os dados da pesquisa indicam que a percepção sobre a situação atual dos negócios entre as empresas do MCMV voltou a se deteriorar após a forte recuperação observada em março de 2026. Em setembro, 17,1% das empresas classificaram a situação como boa, enquanto 23,4% a consideraram fraca. O saldo entre avaliações positivas e negativas tornou-se novamente negativo (-6,3 pontos percentuais). Em março, esse mesmo saldo havia atingido +15,8 pontos percentuais. Na comparação com o cenário de setembro de 2025, a piora foi menos expressiva – o saldo também era negativo (-2,3 p.p), sugerindo que houve um momento de maior euforia em março, depois corrigido.

O cenário ainda é relativamente mais favorável do que o observado entre as empresas que não atuam no programa. Nesse grupo, o saldo entre avaliações positivas e negativas alcançou -10,2 pontos percentuais em setembro de 2026, resultado mais desfavorável do que o registrado pelas empresas do MCMV.

A carteira de contratos também sinaliza certa acomodação das atividades. Na comparação com setembro de 2025, houve pequena melhora, mas as assinalações mencionando um nível abaixo do normal prevalecem: 10,6% das empresas do MCMV consideraram sua carteira acima do normal, enquanto 29,0% a classificaram abaixo do normal. Ainda assim, o indicador permanece acima daquele observado para as empresas fora do programa.

Indicador de Situação dos negócios e de carteira de contratos: MCMV x demais empresas fora do programa

Indicador = 100+ assinalações positivas – assinalações negativas

Fonte: FGV IBRE

Em relação às expectativas de demanda para os próximos meses, ocorreu o mesmo movimento:  houve o crescimento forte do otimismo em março e depois retornado ao patamar equivalente ao de setembro de 2025. Entretanto, em setembro de 2026 as assinalações continuam preponderantemente positivas, embora menos intensas do que as registradas em março. Entre as empresas vinculadas ao programa, 21,4% esperam aumento da demanda, contra apenas 5,6% que projetam redução. O indicador de demanda prevista alcançou 115,8 pontos em setembro de 2026. Entre as empresas que não operam com o MCMV, o indicador ficou em 105,9 pontos, evidenciando que o programa continua oferecendo perspectivas mais favoráveis.

Situação semelhante ocorre com a tendência dos negócios. Em setembro, 18,8% das empresas do MCMV acreditavam em melhora dos negócios e apenas 5,6% projetavam piora. Embora o saldo positivo permaneça expressivo, ele é consideravelmente inferior ao observado um semestre antes, quando praticamente metade das empresas esperava melhora do ambiente de negócios.

O arrefecimento das expectativas em relação aos negócios também afetou o mercado de trabalho. Em março, quase metade das empresas do programa pretendia ampliar o quadro de funcionários. Em setembro, apenas 6,1% indicaram intenção de contratar mais trabalhadores, enquanto 85,7% esperam manter o nível de emprego estável. O resultado sugere que o setor segue operando em ritmo elevado, mas o ritmo de expansão será menor.

Indicador de Demanda Prevista: MCMV x demais empresas fora do programa

Indicador = 100+ assinalações positivas – assinalações negativas

Fonte: FGV IBRE

De todo modo, a escassez de mão de obra qualificada continua sendo o principal problema enfrentado pelas empresas do programa, mencionada por 45,7% dos entrevistados. Embora abaixo do pico de 52,3% registrado em março, o percentual permanece acima da média do setor. Entre as empresas que não operam com o MCMV, a escassez também é a maior limitação, mas o percentual alcançou 38,9% em setembro.

Além disso, observa-se um crescimento importante das preocupações relacionadas aos custos e às condições financeiras. O custo de matéria-prima foi citado por 37,9% das empresas, quase o dobro do observado um ano antes. Vale lembrar que o aumento do preço do barril de petróleo repercutiu nos preços de vários insumos, atingindo assim o orçamento das obras. O componente Materiais e Equipamentos do INCC-DI em setembro estava 1,5 p.p acima do registrado no mesmo período do ano passado.  O custo da mão de obra chegou a 28,6%, como resultado das condições mais adversas do mercado de trabalho.

Por sua vez, as limitações de ordem financeira saltaram para 30,5%, tornando-se um dos principais obstáculos à atividade, enquanto o acesso ao crédito bancário também voltou a ganhar relevância, sendo apontado por 35,4% das empresas. O aumento de assinalações nesses quesitos pode ser resultado da escassez da linha de financiamento à produção do programa.

Assim, a combinação de custos elevados, desafios financeiros e restrições de crédito ajuda a explicar a redução do entusiasmo observada em relação à pesquisa anterior.

O resultado da sondagem sugere, portanto, que o MCMV continuará exercendo papel central na sustentação da atividade setorial nos próximos meses. O ambiente segue favorável para as empresas participantes do programa, mas os desafios relacionados a custos, financiamento e disponibilidade de mão de obra qualificada ganharam peso na gestão dos empreendimentos.

Fatores limitativos aos negócios*

* Percentual de assinalações

Fonte: FGV IBRE


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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