O Brasil envelheceu depressa e ainda não decidiu o que fazer sobre isso

O Brasil cruzou a taxa de reposição em 2004 e envelhece rápido: a população ocupada cairá após 2037. A queda da fecundidade tem diversas razões, e se concentra entre as menos escolarizadas. O país, no entanto, segue fora do debate sobre o tema.
I- A transição brasileira deixou de ser uma história do futuro
Em 1960, uma brasileira tinha, em média, 6,3 filhos ao longo da vida. O Censo Demográfico registrou taxa de fecundidade total de 1,58 em 2022. Na projeção oficial, a taxa cai para 1,47 em 2030, alcança 1,44 por volta de 2040 e depois se recupera lentamente, chegando a 1,50 em 2070. Mesmo com essa pequena recuperação, permanece muito abaixo do limiar convencional de reposição, próximo de 2,1. O Brasil cruzou esse limiar por volta de 2004 e realizou em poucas décadas uma transição que, em partes da Europa, levou mais de um século.
O efeito sobre a população total aparece com atraso, por causa da inércia das coortes. O IBGE projeta um pico de aproximadamente 220 milhões de habitantes em torno de 2041 e redução para cerca de 199 milhões em 2070. A mudança da estrutura etária chega antes: a população de 65 anos ou mais cresce rapidamente, enquanto as coortes que entram no mercado de trabalho ficam menores.
Um artigo recente dos economistas Jesús Fernández-Villaverde e Patrick Norrick mostra que esse é um fenômeno mundial. Em um modelo de fator comum aplicado a 236 países e territórios entre 1950 e 2023, os autores encontram 219 tendências nacionais negativas. O componente comum atingiu o pico em 1978 e, desde então, a queda recente é explicada sobretudo por trajetórias específicas que começam em momentos diferentes, sem sinal claro de estabilização na amostra.
No artigo, os economistas argumentam que a fecundidade mundial provavelmente já ficou abaixo da reposição em 2026 e que, se as tendências recentes persistirem, a população global poderia atingir o pico perto de 9 bilhões em meados da década de 2050. Eles argumentam que, como filhos vêm em números inteiros, não é necessário que toda a sociedade mude para a taxa cair de 1,8 para 1,3. Basta aumentar moderadamente a parcela de mulheres sem filhos, deslocar algumas famílias de dois filhos para um e reduzir famílias com três ou mais. E não existe um mecanismo claro que, por si só, empurre a fecundidade de volta para 2,1.
No Brasil, o gráfico abaixo mostra que, para cada coorte mais recente, o número de crianças é menor para todas as idades. Entre mulheres que nasceram entre 1995 e 2000, a queda foi ainda maior do que as anteriores, mostrando uma aceleração dessa tendência.
Gráfico 1: Número de crianças no domicílio de mulheres por coorte e idade

Fonte: Elaboração própria com dados da PNADC/IBGE
II- A conta demográfica começa pela oferta de trabalho
A atividade econômica (PIB) pode ser decomposta pela produtividade por trabalhador multiplicada pelo número de ocupados. Para separar o efeito puramente demográfico, é possível construir um cenário com a PNADC do terceiro trimestre de 2025. Mantive fixas, para cada unidade da Federação e faixa etária, as taxas de participação e ocupação observadas em 2025. A Projeção da População do IBGE altera apenas o número de pessoas e o peso de cada célula.
O contrafactual principal mantém a trajetória populacional do IBGE em cada UF, mas fixa PO/POP (ocupados per capita) no valor de 2025 em cada estado. Assim, retira-se o efeito interno do envelhecimento sobre o emprego por habitante, preservando o tamanho da população, sua redistribuição geográfica e a mesma produtividade por trabalhador.
As trajetórias estaduais são distintas. São Paulo e Rio de Janeiro, UFs de produtividade elevada, perdem participação no emprego nacional, o que reduz a produtividade média ponderada. Mas esse efeito é parcialmente compensado porque Santa Catarina e Mato Grosso, também relativamente produtivos, ganham peso, enquanto algumas UFs de baixa produtividade também encolhem. Mantendo a produtividade de cada UF fixa no nível de 2023, a simples mudança geográfica reduz a produtividade nacional em aproximadamente 1% até 2060. O sinal é negativo, como esperado, mas a magnitude é pequena.
Em 2060, o PIB real por habitante é R$ 64,5 mil na trajetória atual e R$ 69,8 mil sem essa redução da oferta de trabalho: diferença de R$ 5,35 mil, ou 7,7%. Isso significa que a redução de oferta de trabalho potencial devido à demografia levará a um crescimento quase 10% inferior ao que teríamos se mantivéssemos nosso perfil demográfico atual.
Dois contrafactuais históricos ajudam a medir a velocidade desse processo. Pode-se decompor a oferta de trabalho potencial entre taxa de ocupação, participação e atividade. Matematicamente, e fórmula segue PO/POP = (PO/FT) × (FT/PIT) × (PIT/POP), em que cada grupo etário tem uma taxa de ocupação e participação, que será mantida fixa. Mantendo as mudanças demográficas médias de 2013-2018 para cada UF, o PIB por habitante chega a R$ 67,5 mil em 2060. Já considerando as trajetórias demográficas de 2018-2023, cinco anos depois, o nível de renda chega a apenas R$ 65,5 mil. Tais diferenças vêm de trajetórias anuais estimadas para cada UF, mostrando que o período mais recente passa por envelhecimento mais intenso.
Nesse exercício, a população ocupada passa de 102,7 milhões em 2025 para um pico de 105,6 milhões em 2037. Depois cai para 93,7 milhões em 2060: redução de 11,3% em relação ao pico e de 8,8% em relação a 2025. A janela até o pico é curta, e quase nenhuma criança nascida em resposta a uma política atual entrará no mercado de trabalho antes da segunda metade da década de 2040.
Gráfico 2: Emprego e PIB real por habitante sob a demografia projetada

Fonte: Cálculos próprios com PNADC, IBGE e deflator do PIB. Notas: cenários sob PO/POP de 2025 fixo em cada UF e sob a continuação das tendências de POP, PIT/POP e PITj /PIT das UFs entre 2013-2018 e 2018-2023. Todos os cenários usam a mesma trajetória de produtividade real por UF, seguindo a tendência de 2018-2023.
A pressão fiscal é ainda maior que o efeito geográfico. Em cálculos baseados na projeção do IBGE, a razão entre pessoas de 65 anos ou mais e a população de 15 a 64 anos sobe de 16,8 por 100 em 2025 para 46,1 em 2060: aumento de 29,3 pontos. Isso não determina sozinho o gasto público, mas altera a relação entre contribuintes e beneficiários de previdência, saúde e cuidados de longa duração.
II.I- Envelhecer necessariamente significa crescer menos?
A literatura oferece duas respostas sobre os efeitos da demografia do envelhecimento. Modelos de crescimento baseado em ideias preveem que coortes menores produzem menos pesquisadores e empreendedores, e populações mais velhas podem adotar tecnologias e realocar recursos mais lentamente. O consenso até então é que uma população envelhecida leva a um crescimento mais distante da fronteira.
Acemoglu, Autor, Beirne e Scott (2026) dão o principal contraponto otimista. Eles documentam que países e regiões dos Estados Unidos com menor natalidade no passado tiveram maior crescimento do PIB por adulto em idade ativa e mais inovação poupadora de trabalho. Os resultados são consistentes com a ideia de que escassez de trabalhadores jovens induz automação. O estudo também explora mortes militares na Segunda Guerra Mundial para reforçar a interpretação causal. Mas o resultado central entre países continua sendo uma relação histórica, não uma garantia de compensação futura.
O novo paper de Fernández-Villaverde e Norrick limita tal otimismo. Na amostra histórica de Acemoglu e coautores, o menor nível de 1950 era aproximadamente a reposição, e mesmo o painel de 1980 não observava a escala atual da Coreia. Uma taxa de 1,5 e outra de 0,75 são regimes quantitativamente muito distintos, com prováveis diferentes consequências. Há pouca evidência histórica sobre o comportamento de economias avançadas ou de renda média durante muitas décadas de fecundidade ultrabaixa.
III- Por que a fecundidade tem caído tão depressa?
Não há uma causa única capaz de explicar a direção quase universal da queda e, ao mesmo tempo, seu calendário específico em cada país. Custos diretos, oportunidade profissional das mulheres, contracepção, instabilidade no trabalho, moradia, falta de creche e conflito entre carreira e família ajudam a explicar diferenças de intensidade e momento. Nenhum deles, isoladamente, reproduz a velocidade observada em países tão distintos.
A evidência brasileira sobre habitação é particularmente forte. Um artigo de Van Doornik, Fazio, Ramadorai e Skrastiņš (2025) usa sorteios de cartas de crédito de consórcios habitacionais. Entre participantes de 20 a 25 anos, receber a carta para comprar uma casa ou apartamento elevou em cerca de um terço a probabilidade de ter filhos e o número observado de filhos.
Smartphones são outro candidato. Depois da publicação de uma evidência descritiva da variação negativa da fecundidade após a introdução dos smartphones, publicado na The Economist (apresentado abaixo), Myers e Hooper (2026) exploram a exclusividade inicial do iPhone na rede da AT&T e estimam redução de nascimentos entre mulheres jovens. Os autores encontram que os efeitos foram significativos em locais com alta cobertura 3G, especialmente para grupos etários mais jovens, tendo sido também acompanhada de menos interação presencial e atividade sexual.
Gráfico 3: Variação da fecundidade em relação à tendência anterior aos smartphones
Anos antes e depois da difusão dos smartphones*

Fonte: The Economist
A conjectura mais abrangente é a própria modernidade: credenciais longas, carreiras organizadas em torno de grandes instituições, alto investimento de tempo por criança e proteção social que reduz a dependência econômica dos filhos. Esse arranjo torna o terceiro filho caro e a ausência de filhos relativamente menos custosa. O descompasso entre as oportunidades femininas fora de casa e a divisão do cuidado dentro dela agravaria o processo.
III.I- Maternidade e educação
Uma teoria comumente aceita, relacionada à questão da modernidade e do desenvolvimento, é o papel da educação feminina, que levaria quase mecanicamente a uma redução da fecundidade. É possível testar essa hipótese com dados do Censo Demográfico. Comparando mulheres de 20 a 44 anos em coortes separadas por cada versão do Censo, a queda no número de filhos é decomposta entre a mudança da estrutura educacional das mães (mulheres mais educadas tendem a ter menos filhos) e a mudança no número de filhos para cada grupo educacional das mães.
O Gráfico abaixo mostra que, de fato, há um forte papel da educação principalmente para idades mais jovens. No entanto, conforme os grupos etários avançam e o ciclo de fecundidade se fecha, ela fica mais próxima de 40%. Isso sugere que o canal educacional é responsável principalmente por um adiamento da maternidade, enquanto, analisando ao fim do ciclo completo da fecundidade, em torno dos 40 anos, ela explica menos da metade do fenômeno.
Gráfico 4: Participação do efeito da composição educacional na queda observada entre 2000 e 2022

Fonte: elaboração própria. Uma parcela acima de 100% indica que o efeito nível compensou parcialmente a redução gerada pela composição.
É possível ainda decompor a redução da fecundidade analisando-a no fim de seu ciclo biológico, para mulheres entre 45 e 49 anos, entre as decisões de não ser mãe e as de ter menos filhos. Com isso, pode-se investigar quanto desses dois fenômenos (que ocorreram simultaneamente) se devem à mudança composicional da educação. A tabela abaixo mostra a decomposição.
Tabela 1: Queda da prevalência de maternidade e número de filhos devido à educação

Fonte: Elaboração própria com dados do Censo 2000, 2010 e 2022
Se observarmos a fecundidade de cada grupo educacional, há um padrão interessante. Há redução de fato para todos os grupos, mas principalmente para mulheres com Fundamental Incompleto, isso é, com baixa escolarização. Enquanto estas tinham em torno de 3,5 filhos por mulher no ano de 2000, mais de 20 anos depois, esse número era pouco maior que 2,5, cerca de o dobro do das mulheres com Ensino Superior (que em 2000 tinham uma fecundidade de 1,6).
Gráfico 5: Fecundidade acumulada por escolaridade entre mulheres de 40 a 44 anos

Fonte: elaboração própria a partir dos microdados da amostra dos Censos Demográficos.
Portanto, a redução da fecundidade se concentra em mulheres pouco escolarizadas. Isso também se observa a nível regional. O Gráfico abaixo mostra que, enquanto em 2000 e 2010 havia uma forte correlação negativa entre PIB per Capita e fecundidade, de quase 0,7, essa associação se aproximou de zero em 2022, chegando a pouco mais de -0,5. Portanto, há uma aproximação entre grupos educacionais e regiões mais e menos desenvolvidas em relação à (baixa) fecundidade.
Gráfico 6: Fecundidade e PIB per Capita Estadual no Brasil

Fonte: elaboração própria a partir dos Censos Demográficos e Contas Nacionais Regionais
IV- Conclusão
Décadas atrás, a baixa taxa de fecundidade era vista como um fenômeno de países desenvolvidos e famílias mais ricas. No entanto, isso rapidamente mudou, e hoje o mundo inteiro se vê com uma baixa natalidade, e ainda caindo. O Brasil não é exceção, com o número de filhos por mulher estando abaixo da taxa de reposição há mais de 20 anos, e cada vez menor – puxado, principalmente, pela queda nos filhos das mulheres de baixa escolaridade, e pelo aumento da educação média da população.
Uma sociedade com menos filhos significa um envelhecimento populacional cada vez mais acelerado, e isso tem consequência não só sobre a situação previdenciária, mas sobre o próprio crescimento. Os países desenvolvidos, já observando esses impactos, como no Japão e Itália, tentam aumentar suas taxas de fecundidade com diversas políticas públicas. O Brasil, no entanto, se encontra alheio a esse debate, apesar de estar em processo relativamente rápido de redução da natalidade e aumento do envelhecimento.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
Referências selecionadas
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Fernández-Villaverde, J.; Norrick, P. (2026). Terra Incognita: The Economics of a Shrinking World. Manuscrito preparado para Annual Review of Economics. doi.org/10.1146/annurev-economics-081026-024323
Gauthier, A. H.; Gietel-Basten, S. (2024). Family Policies in Low Fertility Countries: Evidence and Reflections. Population and Development Review. doi.org/10.1111/padr.12691
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IBGE. Censo Demográfico 2022: taxa de fecundidade do país caiu para 1,55 filho por mulher. educa.ibge.gov.br
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Myers, C. K.; Hooper, S. (2026). The Smartphone and the Baby Bust. NBER Working Paper 35310. nber.org/papers/w35310
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United Nations (2024). World Population Prospects 2024. un.org/development/desa/pd/world-population-prospects-2024
van Doornik, B.; Fazio, D.; Ramadorai, T.; Skrastiņš, J. (2025). Housing and Fertility. Banco Central do Brasil, Working Paper 612. bcb.gov.br/WP612.pdf










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