O hiato do produto continuou positivo no 4º trimestre de 2024
PIB cresce acima do potencial desde o 1º tri de 2023. Já o hiato do produto industrial está em zero, após três trimestres positivos. Maior dificuldade para o crescimento brasileiro pós-1980 está na estagnação das produtividades.
O HIATO DO PIB[1]
O hiato do produto apresenta sua oitava estimativa consecutiva positiva (3,1%), após ter permanecido nove anos, desde 2014, em terreno negativo (as séries usadas neste artigo podem ser acessadas aqui). O Gráfico 1 indica uma reversão na trajetória do hiato negativo, sugerindo ausência de capacidade ociosa na economia nos últimos oito trimestres. Desde o segundo trimestre de 2014, quando o hiato foi de 0,2%, não havia sido observada leitura de hiato do produto positiva.
No primeiro trimestre de 2014 foi datado, pelo CODACE, o início do ciclo recessivo que perdurou até 2016. Até aquele momento o produto potencial e o efetivo cresciam simultaneamente (em média 3,2% ao ano). A partir de 2016 até 2024, o produto potencial volta a crescer lentamente e a taxas inferiores ao produto efetivo, que ultrapassa o potencial a partir do primeiro trimestre de 2023.
Ou seja, a atividade econômica superou o produto potencial devido ao maior crescimento do produto efetivo em relação ao crescimento do potencial; ou seja. foi por falta de oferta e não apenas devido a um excesso de demanda. O Gráfico 2 mostra que esse crescimento potencial (1,2% acumulados em 8 trimestres) foi composto por crescimento do capital potencial em 0,8 p.p., do trabalho potencial em 0 p.p. e por queda da PTF em 0,1 p.p. Tendo em vista que o crescimento da atividade econômica no primeiro semestre do ano foi fortemente puxado pela agropecuária, é também coerente que o crescimento potencial tenha sido mais forte em capital, pelas máquinas agrícolas.
Fonte: informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI). Elaboração própria.
Se olharmos a decomposição do crescimento potencial e pensando que a discussão de produto potencial é estrutural e de longo prazo, e ao notarmos que a economia cresce com uma taxa de investimento em torno de 18% e uma PTF que não cresce muito acima de 0,4%, dificilmente veremos o produto potencial acima de 1,6%. (Tabela 1).
Tabela 1
Observa-se no Gráfico 3 que a PTF apresentou tendência declinante na segunda metade da década de 1980 e início da década de 1990, fato que pode ser associado as diversas crises econômicas vivenciadas pelo Brasil neste período. Desde então, a tendência da PTF foi ascendente até 2010, tendo passado sem maiores dificuldades pela crise de 2008-2009. A partir de 2010 a trajetória se reverteu com declínio do nível da PTF que se prolongou até o quarto trimestre de 2015. A partir de então a PTF volta a crescer, mas essa trajetória ascendente foi interrompida com a eclosão da pandemia, em 2020. A partir de então, a PTF segue em níveis historicamente medianos, porém com trajetória de estagnação e seu nível atual é inferior ao do segundo trimestre de 2010 que foi seu nível mais elevado dos últimos 30 anos.
Fonte: informações primárias do IBGE e elaboração própria
O Gráfico 4 apresenta as informações da evolução das produtividades do trabalho e do capital que estão ambas virtualmente estagnadas desde o fim de 2016.
Fonte: informações primárias do IBGE e elaboração própria
A produtividade do capital foi declinante entre os anos 1970 e 1984; a partir de então cresce até 2009 e então declina até 2015 quando volta a subir e cai com a pandemia. A seguir fica estagnada até 2024.
A produtividade do trabalho cresce durante a década de 1970, cai e se mantém estagnada durante os anos 80, se reduz daí em diante até 82 quando volta a crescer até 2009 quando volta a subir e se mantém estagnada desde 2016.
Conclui-se que a maior dificuldade para o crescimento brasileiro pós 1980 está na estagnação das produtividades.
O HIATO DA INDÚSTRIA.
A indústria brasileira, considerando-se o agregado da extrativa mineral, transformação e construção (exclui-se a eletricidade) tem crescido pouco (2,4% ao ano) durante o período 1998-2024, comparado com o PIB que cresceu 3,4% ao ano. O hiato do produto industrial (Gráfico 5) está em zero, após 3 trimestres positivos, quando interrompeu a trajetória negativa desde 2014.
O produto efetivo e o potencial vinham em declínio desde 2014. Esses declínios foram pontualmente acentuados com a pandemia e no ano seguinte retomaram sua trajetória de estagnação.
Fonte: informações primárias do IBGE e elaboração própria
O Gráfico 6, ilustra as produtividades do trabalho e do capital; Elas alternam períodos de crescimento e de queda, ao longo dos últimos 27 anos. A produtividade do trabalho declina desde o início do período observado (1998-2024) e inicia uma trajetória de crescimento a partir do final da crise financeira de 2008-2009. De 2010 em diante cresce até 2012 e permanece estagnada até o presente.
A produtividade do capital, por sua vez, cresce até 2006 e apresenta uma trajetória de declínio acentuada até 2015 e inicia uma trajetória de crescimento até a pandemia e volta a crescer desde então.
A produtividade total dos fatores da indústria (Gráfico 7) declinou acentuadamente desde o ano de 1998 até 2015 quando Iniciou uma vigorosa trajetória de recuperação que durou até o final da pandemia em 2022 e está estagnada desde então, com tendência declinante.
O HIATO DE SERVIÇOS.
A atividade agregada de serviços compreende aqui: comércio, transportes, serviços de informações, e outros serviços; exclui, portanto, as atividades de serviços imobiliários, financeira e administração pública. O Gráfico 8, abaixo, mostra que a atividade de serviços da mesma forma que a indústria e o PIB apresentou um hiato negativo desde a grande recessão de 2014 e volta a ficar positivo apenas em 2022 e assim permanece até o presente, com hiato zero no quarto trimestre de 2024.
A produtividade do trabalho (Gráfico 9) cresceu desde 2004 até 2014, caiu até a pandemia e estagnou desde então. A produtividade do capital caiu fortemente até a pandemia, recuperou um pouco e permanece estagnada desde então.
A produtividade total dos fatores (Gráfico 10) declinou fortemente de 1998 até 2017, quando inicia uma trajetória de recuperação até 2023 quando fica estagnada até 2024.
Uma vez mais, pode-se concluir, que o PIB total e seus componentes Indústria e Serviços não conseguem vencer a barreira que impede que suas produtividades cresçam e assegurem assim um crescimento sustentado de longo prazo.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
[1] No resultado do segundo trimestre, divulgado anteriormente, fizemos um aprimoramento em nosso método de cálculo do produto potencial, que envolve o tratamento da variável Produtividade Total dos Fatores (PTF). Essa variável não é mais considerada um resíduo da função de produção, após a estimativa do capital e do trabalho utilizados. Doravante, a reconhecemos como a tendência daquela série obtida pelo resíduo, após aplicação de método de filtragem. Isso resulta em uma série com menos ruído e volatilidade.
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