O que é Produtividade - 1

25/08/2020

Indicadores econômicos normalmente representam o resultado do efeito de alguns fatores. Sua estimação indica determinado resultado econômico, que caso não se tenha possibilidade de compreender sua metodologia não se poderá avaliar as causas do resultado medido.

“National accounts constitute the preferred statistical source for productivity measurement. The utility of national accounts for productivity analysis can be greatly enhanced when they are set up jointly and consistently with an input-output framework”. (OECD, 2001)

I - INTRODUÇÃO

Indicadores econômicos normalmente representam o resultado do efeito de alguns fatores. Sua estimação indica determinado resultado econômico, que caso não se tenha possibilidade de compreender sua metodologia não se poderá avaliar as causas do resultado medido. Tomemos como exemplo o Produto Interno Bruto – PIB de determinada região: o simples conhecimento da sua variação real ou de seu valor corrente não são explicativos do que aconteceu. O completo conhecimento e compreensão do Sistema de Contas Nacionais (SCN) possibilita avaliar as causas da variação no PIB. É possível avaliar se houve impacto de variáveis da demanda final ou que atividades causaram os impactos, por exemplo.

No caso de indicadores de produtividade não existe uma estrutura como o SCN que possibilite avançar na análise das causas de sua variação. Desta forma deve ser realizado um esforço para compreender os fatores que impactam a produtividade de uma economia ou mesmo de uma atividade econômica pois olhar o resultado per se pode levar a olhar apenas um efeito agregado sem compreender as causas. O que é inútil para definição de políticas públicas.

Com este texto iniciamos uma série dedicada ao estudo da produtividade. Serão alguns textos, como este, conceituais acompanhados dos resultados correspondentes.

Não adianta se desenvolver análises baseadas em sofisticados modelos se duas questões básicas não forem cumpridas: dispor de uma base de dados de qualidade e compreender as diferenças entre os conceitos teóricos e a realidade da medida obtida para representar esse conceito.

Para isto o estudo que está se iniciando será dividido em 4 partes:

  1. Nessa primeira iremos nos valer das informações elaboradas para a estimativa de uma função de produção usada para a mensuração do produto potencial e, consequentemente, do hiato do produto. Um resultado preliminar do hiato do segundo trimestre deste ano já foi divulgado e sua versão definitiva será divulgada proximamente. Para sua estimativa são utilizadas as informações das Contas Nacionais Trimestrais do IBGE e as estimativas de capital utilizado e de trabalho utilizado elaboradas pelos autores. Através da função de produção chega-se à produtividade total de fatores que vem a ser o resíduo da função. Os procedimentos metodológicos para a estimação destas variáveis e da própria função de produção estão no apêndice.
  1. Na segunda parte do estudo estimaremos medidas de produtividade para o período de 2010 a 2017 com base nas Matrizes de Insumo-Produto do IBGE, para 2010 e 2015, e nas Tabelas de Recursos e Usos, de 2010 até 2017. O objetivo, não é apenas apresentar resultados, mas discutir aspectos metodológicos das medidas de produtividade, de forma a pontuar como as limitações dos dados estatisticamente disponíveis podem afetar as medidas teóricas. Um olhar mais focado nas práticas disponíveis em função das bases de dados estatísticos. Ou seja, apenas, e simplesmente, olhar as estatísticas disponíveis e identificar quais os fatores que impactam mudanças em determinados indicadores que são usadas como medidas de produtividade.
  1. Na terceira parte aplicaremos uma metodologia para transformar os resultados do Valor Adicionado das Tabelas de Recursos e Usos para o período 2000-2017 de forma semelhante a estimativa de Matrizes de Insumo-Produto. O objetivo é mostrar as diferenças entre produtividades econômicas e produtividades técnicas.
  1. Finalmente, na quarta parte, aplicaremos as informações estimadas de investimento e de estoque de capital por atividade econômica, no período de 2000 a 2017 para estimar funções de produção para os segmentos de atividades econômicas da indústria extrativa mineral, da transformação, da construção e de alguns serviços. Poderemos, dessa forma, estimar a produtividade total de fatores para essas atividades além das produtividades do trabalho e do capital e da relação capital trabalho desses segmentos.

Nosso Guia e principal fonte de inspiração é o Manual da OECD sobre a mensuração da produtividade e a epígrafe deste texto, acima, é nossa orientação,[1] embora nem sempre possamos segui-la.

II - RESULTADOS

Para esta primeira parte foram construídas três séries de informação iniciadas em 1980 até o segundo trimestre de 2020, cuja metodologia resumida está no apêndice, a saber: (i) indicador para o estoque de capital (potencial e utilizado), (ii) indicador de trabalho (potencial e utilizado), (iii) Produto Interno Bruto (efetivo e potencial).

Também foram elaborados três indicadores de produtividade: (i) a produtividade do trabalho, (ii) a produtividade do capital e (iii) a produtividade total de fatores para uma série iniciada em 1984. Adicionalmente foi calculada a relação capital-trabalho.

O Gráfico 1, abaixo, apresenta a evolução da produtividade do trabalho. De modo geral, nota-se que ela apresenta períodos de expansão e de retração e que apesar de ter alcançado um patamar superior a partir de 2006, recua sistematicamente a partir da recessão e, em 2019, se encontrava em patamar semelhante ao que detinha em 1989.

Avaliando sua evolução observa-se que a produtividade do trabalho cresceu 5,7% durante o período 1984 até 1987 e ficou estagnada até 1989, com o agravamento do processo inflacionário; declinou, então, 17,5% até o quarto trimestre de 1992, como resultado do plano Collor I e II e o impeachment do Presidente Collor; retomou o crescimento de 14,3% até o segundo trimestre de 1997, durante o governo Itamar e FHC I, com o Plano Real; iniciou outra vez a queda de 6,7% até o segundo trimestre de 2003, como resultado das crises da dívida e da escassez de energia; voltou a crescer 23,5 % durante os sucessivos governos do PT  até o primeiro trimestre de 2014, quando iniciou-se a recessão com o impeachment da Presidente Dilma Rousseff e não voltou a subir desde então, terminando o segundo trimestre de 2020 com uma queda de 16,5% devido à pandemia.

Chama-se a atenção que este resultado contraria o pretenso fato estilizado de que a produtividade do trabalho declinou durante a década de 80; isto não ocorre segundo nossos cálculos; provavelmente isso ocorreu durante a recessão dos anos 1981-83.

Observa-se, ainda no Gráfico 1 que, como seria teoricamente esperado, a produtividade do trabalho está fortemente correlacionada (0,78) com a intensidade de capital por unidade de trabalho.

No Gráfico 2 observam-se as produtividades do capital e do trabalho. Suas trajetórias são distintas, não apresentando, inclusive, qualquer correlação (-0,02). A produtividade do capital caiu durante a década de 1980, devido à inflação e ao baixo nível de investimento; com a estabilidade proveniente do Plano Real, cresceu 28% daí em diante até o segundo trimestre de 2009, e emendando com a crise financeira, caiu então 16% até o segundo trimestre de 2014; a despeito da recessão,  voltou a crescer 22% até o segundo trimestre de 2020.

Por sua vez, de fato houve declínio da produtividade do capital, devido à baixa taxa de investimento. Como será visto adiante, a baixa e declinante produtividade do capital durante a década de 80 arrastou a produtividade total dos fatores e ela também declina durante o final da década de 80.

 

No Gráfico 3 está ilustrada a trajetória da Produtividade Total dos Fatores: observa-se que ela declina durante a década de 1980 até o segundo trimestre de 1992. A partir daí cresce continuamente até o segundo trimestre de 2011, cai a partir daí até o quarto trimestre de 2015, volta a crescer até o primeiro trimestre de 2019 e volta a cair até o segundo trimestre de 2020

Por fim, o Gráfico 4 a seguir traz as três produtividades. A produtividade do trabalho está mais associada (correlação de 0,78) à produtividade total de fatores do que esta está associada com a produtividade do capital (correlação de 0,63).

APÊNDICE – METODOLOGIA DA FUNÇÃO DE PRODUÇÃO


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

[1] OECD (2001), Measuring Productivity measurement of aggregate and industry-level productivity growth, OECD Manual, Paris.

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