PIB: Atividade melhora, mas serviços dependem da vacinação

02/06/2021

A economia cresceu 1,2% ante o 4º trimestre de 2020, e 1,0% ante o 1º trimestre de 2020. Mas o setor de serviços que, segundo o IBGE, pesa 73% no PIB, está longe de se recuperar:  retraiu-se em 0,8% no primeiro trimestre deste ano comparado com igual trimestre de 2020.

O IBGE divulgou na manhã do dia 01 de junho o resultado do PIB do primeiro trimestre. A economia cresceu 1,2 % comparado ao quarto trimestre de 2020, e 1,0% comparado ao primeiro trimestre de 2020, números ligeiramente inferiores aos divulgados no dia 17 de maio pelo Monitor do PIB do FGV IBRE, embora mostrem a mesma tendência de melhora da atividade econômica.

Inicialmente, qualquer previsão para o ano com base na série ajustada sazonalmente é de valor duvidoso, já que a pandemia certamente deve ter alterado substancialmente os elementos sazonais anteriores. Num exercício que fizemos no Monitor divulgado em 17 de maio, mantendo os fatores sazonais de 2019, a economia teria crescido 1% e não o 1,7% estimado no indicador com os fatores sazonais atuais.

Adicionalmente, verifica-se que o setor de serviços que, segundo divulgado pelo IBGE, pesa 73% no PIB, está longe de se recuperar:  retraiu-se em 0,8% no primeiro trimestre deste ano comparado com igual trimestre de 2020. Embora tenha saído de uma queda de 10,2% no segundo trimestre de 2020, no primeiro trimestre do ano passado a economia já havia sentido os primeiros efeitos da crise econômica gerada pela pandemia e os serviços já haviam se retraído em 0,7% com relação a 2019; ou seja, caíram no 1º trimestre de 2021 na comparação com um período que já era de queda. Esse setor depende fundamentalmente da interação entre as pessoas e, por isso, sua recuperação plena neste momento em que a pandemia ainda não está controlada acarretaria um aumento da mortalidade causada pela COVID-19.

Senão vejamos: o comércio teve bom desempenho graças ao comércio atacadista; o setor de serviços de informação, que contém todos os serviços de streaming,  cresceu significativamente; o mesmo ocorre com intermediação financeira decorrente da desmonetização de parcela significativa da economia com o aumento do uso generalizado de cartões de crédito e de débito e compras online.

No entanto, os componentes do setor de serviços com maior participação no PIB, que necessitam da interação das pessoas, ainda estão bastante deprimidos: o componente de outros serviços – hotelaria, bares, restaurantes, serviços prestados as famílias –, embora esteja bem melhor do que a queda de 20,8% registrada no segundo trimestre de 2020, ainda segue em queda de 7,3% com relação ao 1º trimestre de 2020. Finalmente a administração pública também registra queda de 4,4%, devido aos resultados da educação pública e saúde, sem seu pleno  funcionamento.

Resta chamar a atenção que a Formação Bruta de Capital Fixo (investimentos) está ainda muito influenciada pela internalização de um restante de plataformas de exploração de petróleo. Essa internalização impactou concentradamente esse componente nos anos de 2018, 2019 e 2020, com um resíduo no primeiro trimestre de 2021. Como o registro dessas informações não permite que essas plataformas sejam distribuídas ao longo do período em que operaram para a Petrobrás, teremos de forma permanente esse acúmulo de investimento durante esses três anos que inflam o componente investimento.

A série do PIB trimestral divulgada pelo IBGE, ilustrada no gráfico abaixo, mostra que, no primeiro trimestre, a economia, embora tendo voltado a crescer após a recessão de 2014-16, tem um valor bem inferior ao primeiro trimestre de 2014 e pouco acima do de 2019. E, tendo em vista o peso do setor de serviços e de ele depender da interação social, só com a vacinação em massa a economia poderá ter a chance de voltar a crescer de forma sustentada. Isso já estava difícil mesmo antes do início da pandemia devido a problemas estruturais de longa data da economia brasileira e da falta de uma política econômica que contemple o crescimento.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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