Quem paga o custo do crédito no Brasil?

Expansão do crédito é assimétrica. Enquanto setor público amplia captação via títulos e grandes empresas recorrem a mercado de capitais, famílias permanecem dependentes do crédito bancário, enfrentando juros mais altos e maior inadimplência.
Introdução
As estatísticas monetárias divulgadas pelo Banco Central no início de 2026 revelam um fenômeno que, à primeira vista, poderia ser interpretado como mera oscilação conjuntural, mas que carrega implicações estruturais relevantes para a economia brasileira. Embora o crédito ampliado continue em expansão, seu crescimento não é homogêneo entre os diferentes agentes econômicos. Ao contrário, os dados apontam para um processo de segmentação do mercado de financiamento, no qual Governo, empresas e famílias enfrentam condições substancialmente distintas de acesso, custo e exposição ao risco.
Em janeiro de 2026, o crédito ampliado[1] ao setor não financeiro alcançou cerca de R$ 20,8 trilhões (162,6% do PIB), registrando crescimento de 12,6% em 12 meses, segundo dados do Banco Central. A decomposição dessa trajetória, contudo, revela que a dinâmica recente foi fortemente impulsionada pela expansão do financiamento ao setor público, predominantemente via emissão de títulos, enquanto o crédito bancário tradicional para famílias e empresas apresentou desempenho mais moderado. A divergência entre essas modalidades sugere não apenas mudanças cíclicas, mas uma recomposição na arquitetura do sistema de crédito, com implicações distributivas e macroeconômicas.
Esse movimento ocorre em um contexto de política monetária ainda restritiva, com taxa básica de juros em patamar elevado e aumento do Índice de Custo de Crédito (ICC), indicador que sintetiza o custo médio do estoque de dívida no Sistema Financeiro Nacional. Em ambiente de juros altos, maior necessidade de financiamento do setor público e reavaliação de risco nas carteiras bancárias, os incentivos à alocação de recursos tornam-se assimétricos. O resultado é uma reorganização financeira na qual o crescimento agregado do crédito convive com reprecificação e redistribuição de risco entre agentes, fenômeno que se aproxima do conceito de crowding out financeiro, entendido aqui não necessariamente como contração quantitativa do crédito privado, mas como recomposição de portfólio e encarecimento relativo para determinados segmentos.
As empresas, especialmente as de maior porte, ampliaram o uso de instrumentos de mercado de capitais, reduzindo a dependência dos empréstimos bancários tradicionais. Já as famílias permanecem majoritariamente vinculadas à intermediação bancária, sobretudo nas modalidades com recursos livres, que registram elevação relevante das taxas médias de juros e níveis de inadimplência superiores aos observados para pessoas jurídicas. Essa assimetria sugere que o atual ciclo monetário não afeta de forma uniforme os agentes econômicos.
Este artigo analisa a evolução recente do crédito no Brasil a partir dessa perspectiva estrutural. Argumenta-se que o país atravessa um processo de segmentação financeira no qual o setor público amplia sua absorção de liquidez, parte relevante das empresas se desintermedia via mercado de capitais e as famílias concentram parcela desproporcional do encarecimento do crédito. A análise, baseada nas estatísticas monetárias do Banco Central até janeiro de 2026, busca avaliar as implicações dessa configuração para o consumo, o investimento e a estabilidade macroeconômica ao longo de 2026.
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[1] Crédito ampliado ao setor não financeiro é o estoque total de recursos financeiros que diferentes agentes — não apenas bancos — oferecem ao conjunto de tomadores não financeiros da economia (governo, empresas e famílias). Fonte: Estudo Especial nº 49/2019 (BACEN).










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