Recuperação relativamente lenta do mercado de trabalho não é um bom sinal sobre o fortalecimento da economia americana

14/10/2020

Na crise atual, após uma forte queda da atividade econômica dos EUA no primeiro semestre deste ano, em especial no segundo trimestre, as expectativas são de uma recuperação no segundo semestre. Notadamente, após o fundo do poço de abril, a partir de maio começou a recuperação da atividade econômica. No mercado de trabalho, porém, a recuperação ocorre numa velocidade mais lenta.

A Tabela 1 mostra quatro variáveis do nível da atividade econômica, em três momentos deste ano. Todos com base 100 em fevereiro, o mês anterior ao começo da crise; abril, o “fundo do poço”; e o último dado disponível. Começando pelos “soft data”, o PMI da indústria chegou a recuar mais de 30%, e em setembro estava 5% acima do período anterior ao início da crise. O PMI de serviços, segmento mais impactado pela crise, caiu pela metade, e já se recuperou totalmente, e em setembro estava 10% acima do nível de fevereiro. No tocante aos “hard data”, a produção industrial, após cair quase 17%, se recuperou um pouco, mas em agosto ainda estava pouco mais de 7% abaixo do nível pré-crise. Já as vendas no varejo, em termos reais, após caírem mais de 20%, já se recuperaram totalmente, voltando e até passando um pouco do patamar de fevereiro deste ano.

Sobre o mercado de trabalho norte-americano, o BLS divulga duas pesquisas mensalmente:[1] Household Survey / Current Population Survey (CPS), uma pesquisa com uma amostra de mais de 60 mil famílias; e a Establishment Survey / Current Employment Survey (CES), com uma amostra de mais de 145 mil empresas (businesses and government agencies). O Gráfico 1 mostra o número de empregos perdidos durante os dois meses mais agudos da crise, a recuperação a partir de maio (até setembro) e o gap entre o nível de emprego em setembro e fevereiro, o mês pré-crise. Nas duas pesquisas, houve uma “destruição” de mais de 20 milhões de empregos em março e abril, e uma criação próxima da metade das vagas destruídas. Tanto de acordo com os dados da CPS quanto da CES, ainda precisam ser criados por volta de onze milhões de vagas para o nível de emprego voltar ao patamar anterior á crise do coronavírus, em fevereiro deste ano.  

Para a recuperação da economia, é necessário a diminuição das incertezas, notadamente as sanitárias. Uma das restrições à volta do consumo, principalmente do setor de serviços, é a confiança das pessoas em se sentirem mais seguras para irem em restaurantes, bares, viagens, entre outros. Para os empresários, também é necessário diminuir as incertezas para poderem investir, e assim gerar mais empregos. O ritmo de contratação de mão-de-obra, e o consequente aumento do nível de emprego, costuma ser reflexo da confiança dos empresários com o futuro da economia, principalmente a longo prazo. E, a diminuição mais forte das incertezas da pandemia somente deverá acontecer com a descoberta e a efetiva aplicação da vacina. Em suma, o ritmo lento de recuperação do mercado de trabalho comparativamente ao já visto em alguns indicadores de atividade econômica não é um bom sinal sobre o real fortalecimento da economia americana.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

 


[1] The household survey measures labor force status, including unemployment, by demographic characteristics. The establishment survey measures nonfarm employment, hours, and earnings by industry.

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