Renda cresce e pobreza cai, mas Brasil segue marcado por desigualdades regionais

Em 2021-2025, Brasil teve recuperação recorde da renda domiciliar per capita e forte redução da pobreza (39,1% para 25,1%). Extrema pobreza caiu de 11,2% para 4,6%. Mas NO e NE ainda concentram menor rendimento e maior parcela da pobreza no país.
Introdução
A análise dos indicadores de renda e pobreza é um instrumento central para compreender as condições de vida da população e qualificar o debate sobre desenvolvimento econômico e social. O rendimento domiciliar per capita permite acompanhar a evolução do nível médio de recursos disponíveis para as famílias, funcionando como uma medida sintética da capacidade de acesso a bens e serviços. No entanto, a análise da renda média, isoladamente, não é suficiente para revelar como os ganhos econômicos estão distribuídos entre os diferentes grupos populacionais.
Nesse sentido, os indicadores de pobreza e extrema pobreza complementam a análise da renda ao identificar a parcela da população que permanece abaixo de determinados limites mínimos de rendimento. Esses indicadores permitem avaliar se o crescimento da renda está alcançando os grupos mais vulneráveis ou se os avanços permanecem concentrados em segmentos específicos da sociedade. Assim, enquanto a renda média informa sobre a evolução geral das condições econômicas, a incidência de pobreza revela a extensão da privação monetária e a capacidade da economia de reduzir situações de vulnerabilidade.
A análise conjunta desses indicadores é especialmente importante em um país marcado por profundas desigualdades regionais, como o Brasil. Diferenças persistentes entre regiões em termos de renda, pobreza e extrema pobreza indicam que o crescimento econômico não produz efeitos homogêneos no território nacional. Portanto, acompanhar esses indicadores ao longo do tempo contribui para identificar avanços, retrocessos e desigualdades persistentes, oferecendo evidências relevantes para o desenho, o monitoramento e a avaliação de políticas públicas voltadas à redução da pobreza e à promoção de maior equidade social.
Renda
A Figura 1 apresenta a evolução do rendimento domiciliar per capita médio no Brasil e nas grandes regiões entre 2012 e 2025. Em 2025, a média do rendimento domiciliar per capita no Brasil atingiu R$ 2.264, o maior valor da série histórica da PNAD Contínua, com crescimento de 6,9% em relação a 2024. Esse resultado confirma a trajetória de recuperação iniciada após a queda observada no período da pandemia, especialmente entre 2020 e 2021.

Figura 1. Rendimento domiciliar per capita médio – Brasil e regiões (2012-2025)
Fonte: Elaboração própria com dados do IBGE/ PNAD Contínua.
O gráfico mostra que o crescimento recente foi generalizado entre as regiões. Entre 2024 e 2025, todas apresentaram aumento do rendimento domiciliar per capita. O destaque foi o Centro-Oeste, que passou de R$ 2.436 para R$ 2.712, crescimento de aproximadamente 11,3%. Em seguida, aparecem Norte e Nordeste, ambos com crescimento próximo de 7%. Já o Sul e o Sudeste cresceram em ritmo mais moderado, embora permaneçam entre as regiões de maior rendimento médio.
Pobreza e extrema pobreza
A incidência de pobreza monetária corresponde à proporção de pessoas com rendimento domiciliar per capita inferior a uma linha de pobreza previamente definida. Neste estudo, considera-se como linha de pobreza o valor de US$ 8,30 por dia, em paridade de poder de compra de 2021, parâmetro adotado pelo Banco Mundial para países de renda média-alta. Esse valor foi convertido para reais e ajustado para um valor equivalente mensal, resultando em uma linha de aproximadamente R$ 775 por pessoa ao mês. Assim, o indicador expressa o percentual da população cujo rendimento domiciliar per capita mensal se encontra abaixo desse limite.
A Figura 2 apresenta a incidência de pobreza monetária para o Brasil e as grandes regiões. Os dados do gráfico mostram que a evolução da pobreza monetária acompanha, em sentido inverso, a trajetória do rendimento domiciliar per capita médio. Após o aumento expressivo da pobreza em 2021, associado ao contexto da pandemia e seus efeitos, observa-se uma redução contínua entre 2022 e 2025, período em que a renda domiciliar per capita também se recupera e atinge o maior nível da série.

Figura 2. Incidência de pobreza monetária – Brasil e regiões (2012-2025)
Fonte: Elaboração própria com dados do IBGE/ PNAD Contínua.
Linha de pobreza do Banco Mundial definida em US$ 8,3/ dia ≈ R$ 775/ mês (PPC de 2021).
Em 2021, a incidência de pobreza no Brasil alcançou 39,1% da população, o que correspondia a aproximadamente 81,8 milhões de pessoas vivendo com rendimento domiciliar per capita inferior à linha adotada na presente análise. A partir de 2022, esse contingente passou a diminuir de forma consistente, chegando a 71,0 milhões de pessoas em 2022, 63,3 milhões em 2023, 56,4 milhões em 2024 e 53,4 milhões em 2025. No intervalo entre 2021 e 2025, o país registrou uma redução de aproximadamente 28,4 milhões de pessoas em situação de pobreza monetária.
Apesar da melhora expressiva, a queda da pobreza não ocorreu de forma homogênea entre as regiões. Assim como observado no indicador de renda, a incidência de pobreza evidencia fortes desigualdades regionais. As regiões Norte e Nordeste continuam apresentando proporções de pobreza muito superiores à média nacional, refletindo seus menores níveis de rendimento domiciliar per capita e a maior concentração de famílias nos estratos inferiores da distribuição de renda.
Em 2025, enquanto o Brasil registrou 25,1% de pessoas abaixo da linha de pobreza, o Nordeste ainda apresentava 42,4% e o Norte, 38,2%. Em contraste, o Sul registrou 12,8%, o Sudeste, 17,1%, e o Centro-Oeste, 17,3%. Em termos absolutos, isso significava cerca de 24,2 milhões de pessoas pobres no Nordeste, 15,2 milhões no Sudeste, 7,0 milhões no Norte, 4,0 milhões no Sul e 3,0 milhões no Centro-Oeste.
Esses números mostram que a pobreza monetária permanece fortemente concentrada nas regiões Norte e Nordeste. Em 2025, o Nordeste reunia sozinho aproximadamente 45% do total de pessoas pobres do país, embora representasse uma parcela menor da população brasileira. Somadas, as regiões Norte e Nordeste concentravam cerca de 31,2 milhões de pessoas em situação de pobreza, equivalente a aproximadamente 58,5% do total nacional.
Por sua vez, a Figura 3 mostra a incidência de extrema pobreza monetária, isto é, a proporção de pessoas com rendimento domiciliar per capita inferior à linha internacional de US$ 3,00 por dia em PPC de 2021, que foi convertida para um valor equivalente de aproximadamente R$ 280 mensais por pessoa. Essa linha é mais restritiva do que a linha de pobreza de US$ 8,30 por dia e, por isso, identifica a parcela da população em situação de insuficiência de renda mais intensa.

Figura 3. Incidência de extrema pobreza monetária – Brasil e regiões (2012-2025)
Fonte: Elaboração própria com dados do IBGE/ PNAD Contínua.
Linha de pobreza do Banco Mundial definida em US$ 3,0/ dia ≈ R$ 280/ mês (PPC de 2021).
Assim como observado no indicador de pobreza monetária, a extrema pobreza apresenta trajetória semelhante, embora em níveis menores. Após o pico em 2021, quando a incidência nacional alcançou 11,2%, observa-se uma redução contínua: o indicador caiu para 7,7% em 2022, 5,8% em 2023, 4,8% em 2024 e 4,6% em 2025.
Em termos absolutos, esse movimento representa uma queda expressiva no número de pessoas em situação de extrema pobreza. Em 2021, aproximadamente 23,5 milhões de pessoas viviam com rendimento domiciliar per capita inferior à linha de R$ 280 mensais. Em 2025, esse contingente foi reduzido para cerca de 9,8 milhões de pessoas. Portanto, entre 2021 e 2025, houve uma redução de aproximadamente 13,7 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza monetária no Brasil.
Essa queda recente dialoga diretamente com a evolução do rendimento domiciliar per capita médio. O aumento da renda contribui para reduzir tanto a pobreza quanto a extrema pobreza, mas essa relação não é automática. A extrema pobreza diminui quando a recuperação da renda alcança também os estratos mais baixos da distribuição, seja por meio da elevação dos rendimentos do trabalho, seja por meio de transferências públicas direcionadas às famílias mais vulneráveis.
A comparação regional mostra que a extrema pobreza permanece fortemente concentrada nas regiões Norte e Nordeste. Em 2025, a incidência de extrema pobreza foi de 8,7% no Nordeste e 6,8% no Norte, valores superiores à média nacional de 4,6%. Nas demais regiões, os percentuais foram consideravelmente menores: 2,8% no Sudeste, 2,5% no Centro-Oeste e 2,1% no Sul.
Em números absolutos, o Nordeste concentrava, em 2025, cerca de 5,0 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza, o maior contingente regional do país. O Sudeste registrava aproximadamente 2,5 milhões, seguido pelo Norte, com 1,3 milhão, Sul, com 664 mil, e Centro-Oeste, com 420 mil. Assim, embora a extrema pobreza tenha diminuído em todas as grandes regiões, sua distribuição territorial permanece bastante desigual.
O caso do Nordeste merece destaque. A região alcançou 21,8% de extrema pobreza em 2021, o que correspondia a aproximadamente 12,3 milhões de pessoas. Em 2025, esse percentual caiu para 8,7%, com cerca de 5,0 milhões de pessoas ainda nessa condição. Trata-se de uma redução expressiva, de aproximadamente 7,4 milhões de pessoas, mas o Nordeste permanece como a região com maior incidência e maior contingente absoluto de extrema pobreza no país.
A região Norte apresenta trajetória semelhante. A extrema pobreza passou de 18,6% em 2021 para 6,8% em 2025. Em termos absolutos, o número de pessoas nessa condição caiu de aproximadamente 3,3 milhões para 1,3 milhão no período. A redução foi intensa, mas o patamar final ainda é superior ao observado no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Considerações Finais
A análise da extrema pobreza reforça duas mensagens principais. A primeira é positiva: houve redução expressiva da privação monetária mais severa no Brasil entre 2021 e 2025. A segunda é de alerta: mesmo após essa melhora, quase 10 milhões de pessoas ainda viviam em situação de extrema pobreza em 2025, com forte concentração nas regiões Norte e Nordeste.
Esses resultados estão diretamente associados à recuperação recente do rendimento domiciliar per capita observada no período pós-pandemia, impulsionada tanto pela melhora do mercado de trabalho quanto pela ampliação das políticas de transferência de renda. A redução da pobreza e da extrema pobreza mostrou-se mais intensa nas regiões em que o crescimento da renda foi mais expressivo e onde os programas de transferência de renda têm maior peso na composição dos rendimentos das famílias, como é o caso das regiões Norte e Nordeste, onde quase 40% das famílias são beneficiadas por programas sociais.
Embora os avanços recentes representem uma inflexão positiva após os efeitos adversos da pandemia, a persistência de elevados níveis de privação monetária em regiões historicamente mais vulneráveis indica que a redução das desigualdades territoriais permanece como um desafio central. Nesse contexto, justifica-se a relevância do acompanhamento sistemático dos indicadores de renda, pobreza e extrema pobreza, especialmente sob uma perspectiva regional, pois as médias nacionais podem ocultar diferenças relevantes entre as regiões do país.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.










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