Retomada em meio à incerteza

24/06/2020

No último mês, a pandemia começou a dar sinais de estar sendo controlada nos países desenvolvidos, com exceção de alguns estados americanos. Nos países desenvolvidos, os governos têm avançado com o processo de reabertura da economia, ainda que mantendo medidas preventivas para reduzir o risco de novas ondas de contaminação. Ao mesmo tempo, os fortes estímulos monetários e fiscais iniciados em março têm contribuído para evitar uma recessão mais profunda e prolongada. Após um grande recuo da atividade em março e, principalmente, abril, dados preliminares de maio indicam que essas economias estão começando a se recuperar. O pior pode ter ficado para trás; mesmo que novas ondas de contaminação ocorram, é improvável que levem ao fechamento generalizado das atividades.

Mas, será que a recuperação mundial será em “V”? Provavelmente não. Tanto da lado da oferta, como do da demanda, o cenário central é de uma retomada mais forte, mas parcial, no terceiro trimestre, seguida de expansões mais moderadas nos trimestres seguintes. Apenas em meados de 2022 o PIB mundial voltaria ao nível do final de 2019.

Porém, o processo de recuperação será muito heterogêneo entre os países, refletindo tanto as variadas condições anteriores à crise como as diferentes formas pelas quais eles têm enfrentado a pandemia, em termos de saúde pública e volume de estímulos. Na Ásia emergente, e em particular na China, a retomada da economia tem sido mais rápida, com segmentos como o mercado imobiliário residencial e os investimentos em infraestrutura tendo desempenho mais forte. Segundo projeções do IBRE, a China deve crescer  1,4% em 2020 e 7,5% no próximo ano. 

Com relação aos outros países, ainda há muita incerteza, mas o mais provável é um cenário de lenta retomada, com queda no acumulado do ano, a julgar pelo que projetam os principais órgãos multilaterais que fazem previsões econômicas, como FMI, OCDE e Banco Mundial. Destaque aqui para a entrevista coletiva do porta voz do FMI, no dia 18 de junho, confirmando que as previsões de crescimento serão reduzidas para 2020, sem grandes revisões para 2021.[1]

Na América Latina, na Índia e no Oriente Médio, a economia deverá seguir sofrendo com a pandemia, que ainda é bem preocupante. O número de novos casos de Covid-19 continua subindo, sem sinais de estabilização. Mesmo assim, o processo de flexibilização gradual das medidas de distanciamento social está em curso em vários países e o risco de reabertura prematura existe, podendo ser necessário um novo período de fechamento em algumas regiões. De fato, na Índia, o estado de Tamil Nadu ordenou novamente o confinamento de sua capital durante a segunda quinzena de junho.

A economia brasileira está passando, com certa defasagem, pelo mesmo processo experimentado pelos países desenvolvidos. Após expressivo recuo da atividade em abril, dados preliminares de maio indicam que o pior já deve ter passado. Em abril, o Indicador de Atividade Econômica (IAE) do IBRE retraiu-se 8,8% com relação ao mês de março e o IBC-Br também se contraiu em 9,7%, considerando o mesmo período.  Para maio, a previsão do IBRE é que o IBC-Br fique estável em relação a abril. Para junho, a prévia dos índices de confiança do IBRE, publicada no último dia 16, mostra avanço mais expressivo no mês, após esses índices terem despencado para os menores níveis históricos em abril, e mostrar ligeiro aumento em maio.

Com base nessas informações, estimamos que o PIB do segundo trimestre tenha caído 9,8% em relação ao primeiro, a pior queda da nossa história, segundo estimativas do PIB trimestral do Brasil desde 1980, desenvolvidas pela equipe do Monitor do PIB do IBRE. Esperamos recuperação muito gradual no segundo semestre, o que deve levar a uma queda do PIB de 6,4% no ano, com efeitos devastadores no mercado de trabalho, com aumento expressivo da taxa de desemprego (18,7% na média do ano) e redução sem precedentes da massa ampliada de rendimentos (contração de 9%), já considerando todas as políticas adotadas para amenizar a queda de renda das famílias brasileiras.

De qualquer forma, diante de tanta incerteza, não podemos descartar novas revisões do PIB. Pois, além de estarmos passando por uma crise de saúde e econômica, atravessamos também intensa e prolongada crise política. A contínua tensão entre os Poderes cobra o seu preço em termos de crescimento e emprego.

É importante ressaltar que os riscos fiscais aumentaram no último mês, não apenas para 2020, mas também para o próximo ano. A pressão por mais gastos públicos deve permear o debate político. Além disso, o contexto político tem favorecido medidas com implicações muito negativas, não apenas para o arcabouço fiscal, como também para o ambiente de negócios. Por exemplo, a aprovação pelo Senado da proposta que suspende pagamento de empréstimo consignado por pessoas que não sofreram perda de renda na pandemia é uma medida populista, que deve afetar o mercado de crédito e prejudicar a retomada da economia.

Consequentemente, diante desse quadro, não podemos descartar cenário de grave crise fiscal e quadro recessivo mais intenso e duradouro. Somente a combinação de estabilidade política com retomada da agenda de reformas poderá alterar esse quadro.

A despeito de tantas incertezas inerentes a essa crise, os indicadores de condições financeiras mostraram consistente melhora desde 23 de março e, em uma segunda onda, depois de 13 de maio. Essa melhora nas condições financeiras internacionais também se refletiu nos mercados brasileiros. Em um mês, a cotação do CDS de 5 anos já caiu mais quase 70 bps e a Bolsa se valorizou 20%.

A significativa recuperação dos mercados globais de ações e títulos de dívida corporativa reflete, em parte, a ausência de alternativas de investimento e também as expectativas favoráveis para a atividade, devido aos elevados estímulos fiscais e monetários. Porém, como a melhora da economia real não está assegurada, não se pode destacar o risco de que haja um descolamento entre os mercados financeiros e a economia real. Ou, colocado de forma mais simples, que a forte valorização de ativos não passe de uma grande bolha.


Esse é o sumário do Boletim Macro Ibre de junho de 2020. Para ler o boletim inteiro clique aqui.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

[1] A atualização do  relatório do  World Economic Outlook será divulgada no dia 24 de junho.

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