Relações Internacionais

Só sobrou o Brasil: as eleições de 2026 e o projeto imperial de Trump para a América Latina

17 ago 2026

Segundo nova Estratégia de Segurança Nacional, “Após anos de negligência, os EUA reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a regiões-chave”.

Com o início da Guerra Fria entre 1945 e 1947, a política externa dos EUA passou a ter como eixo a contenção da ameaça comunista encarnada na União Soviética, que havia sido aliada de Washington na luta contra o nazifascismo durante a Segunda Guerra Mundial.

A política de contenção traduziu-se rapidamente na criação de duas organizações político-militares – a Organização do Tratado do Atlântico do Norte (OTAN) e a Organização dos Estados Americanos (OEA) – e, na Ásia, nas alianças militares com o Japão, a Coreia do Sul e a Austrália.

Dadas a enorme importância geopolítica da Europa na disputa com Moscou, a devastação material do velho continente causada pela Segunda Guerra e a força demonstrada pelos partidos comunistas e socialistas nas eleições do pós-1945 na região, Washington decidiu também investir pesadas somas de dinheiro na recuperação econômica do Reino Unido, Alemanha Ocidental, França e Itália e mais uma dúzia de países.

A América Latina, cujo subdesenvolvimento e pobreza igualmente fortaleciam partidos e movimentos de esquerda, também pleiteou dos EUA, na década de 1950, recursos financeiros para superar seus crônicos e profundos problemas sociais e econômicos.

A resposta dada por Washington às demandas latino-americanas foi bem distinta. Ao fim e ao cabo, a diplomacia estadunidense acabou por estimular os aliados localizados ao sul do Rio Grande a usarem suas forças armadas para combater o inimigo interno, sinônimo de comunismo à época. Para tanto, ajudou a formar quadros nos exércitos latino-americanos capacitados a livrar tal combate. O resultado dessa política é bem conhecido: a proliferação de ditaturas militares na América Latina.

Algumas décadas depois, com o fim da Guerra Fria, o colapso da União Soviética e o início do chamado momento unipolar – sob o qual os EUA se tornaram a única superpotência global –, Washington passou a ter como política para a América Latina a chamada “negligência benigna”, sobretudo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

A negligência benigna vigeu até o último ano do mandato único de Joe Biden em 2024. As coisas começaram a mudar no segundo mandato de Donald Trump. Em dezembro de 2025, a nova edição da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA afirmou que “Após anos de negligência, os EUA reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a regiões-chave. Negaremos a concorrentes de fora do Hemisfério a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério”.[1]

Ou seja, sob Trump II, a negligência benigna foi substituída pela intervenção ostensiva e feroz em nome da contenção à crescente influência chinesa na América Latina.

Assim, no dia 3 de janeiro de 2026, tropas estadunidenses assaltaram a residência do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, levando-o preso para Nova York e deixando no seu lugar a vice-presidente Delcy Rodrigues, mas mantendo praticamente intocado o regime autoritário bolivariano. Desde então, o país caribenho tem sido tratado como uma colônia dos EUA, recebendo ordens diretas de Washington. Difícil encontrar precedente para tal ataque militar e tamanha manifestação de imperialismo para com uma nação sul-americana[2].

Desde julho de 2025, o Brasil tem estado sob constante ataque de Trump e do seu secretário de Estado Marco Rubio, conquanto tenha havido momentos de distensão. Os ataques têm se dado por meio (1) da imposição de tarifas que ferem a legislação comercial internacional e as próprias leis estadunidenses; (2) de ameaças e falsas acusações às instituições políticas nacionais; (3) da suspensão do visto de entrada nos EUA de alguns membros importantes dos Poderes Executivo e Judiciário; (4) do apoio político explícito à família Bolsonaro; (5) da tentativa (corretamente frustrada pelo Itamaraty) de envio de funcionários do Departamento de Estado para levantar suspeitas sobre o sistema de votação do país e, por último, (6) da suspensão do visto da Embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Viotti, ato de aberta hostilidade em resposta à legítima e legal (do ponto de vista do direito diplomático) demora por parte do governo brasileiro em conceder o agrément ao nome indicado pela Casa Branca para ser o embaixador dos EUA em Brasília.

Se se somam aos seis itens listados acima os insultos recentemente dirigidos ao Presidente Lula e ao Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, por Javier Milei, presidente da Argentina e grande aliado de Trump, vê-se nitidamente um projeto político de reafirmação da autoridade imperial de Washington e de subordinação da América Latina aos desígnios da Casa Branca.

O que Trump e Marco Rubio têm a oferecer à região em troca da subordinação a Washington?

Aparentemente, eles podem oferecer dinheiro. Afinal, Trump emprestou 20 bilhões de dólares a Milei para que este pudesse estabilizar a moeda argentina e ganhar as eleições legislativas de outubro de 2025. Porém, em janeiro de 2026, o empréstimo já havia sido completamente reembolsado. Foi um auxílio de curto prazo a Milei, não um investimento de longo prazo. Estariam Trump e Rubio dispostos a emprestarem centenas de bilhões de dólares a vários países latino-americanos – e em condições mais favoráveis do que as dadas a Milei – para alcançarem a desejada subserviência política? Certamente não.

Afinal, então, o que pode oferecer o governo Trump?

A reposta se encontra na cúpula “Escudo das Américas”, realizada na Flórida em março deste ano. O evento reuniu Trump e doze presidentes latino-americanos, todos de direita. Lula, Claudia Sheinbaum (presidente do México) e Gustavo Petro (então presidente da Colômbia), três chefes de governo inclinados à esquerda (sobretudo Petro), não foram convidados. A cimeira diplomática tinha como pauta a formação de uma coalizão de segurança hemisférica contra o narcotráfico e a redução da influência da China na região. Durante a cúpula, Pete Hegseth, o secretário da Guerra dos EUA, asseverou que os países latino-americanos deveriam usar ofensivamente suas forças armadas contra o narcotráfico.

Qualquer semelhança com o que aconteceu na década de 1950 não é mera coincidência. Migalhas às forças armadas latino-americanos e treinamento para o uso agressivo destas contra “os novos inimigos internos” como prêmio pela subserviência a Washington – eis a política do governo Trump para a região. Suas consequências poderão ser funestas. Todavia, a história não se repetirá. É improvável que tenhamos novos regimes militares, mas certamente colheremos a degradação dos nossos regimes democráticos se não resistirmos aos projetos da extrema-direita trumpista.

É imperativo que os brasileiros acordem para esta triste realidade.

O Brasil, por ser a grande potência latino-americana, tem capacidade única de resistir aos planos de Trump et caterva. Entre os maiores países da região, Trump, Rubio e Hegseth já contam com a intensa cooperação da Argentina, da Venezuela e da Colômbia (agora governada pelo direitista Abelardo de la Espriella). No México, Claudia Sheinbaum vê sua margem de manobra limitada pelo fato de o país ter cerca de 80% de suas exportações direcionadas aos Estados Unidos.

Em suma, só sobrou o Brasil. Um grande passo que os brasileiros podem dar para derrotar a nova onda de imperialismo sem máscara vinda de Washington é negar seus votos aos súditos de Trump em solo pátrio – leia-se Flávio Bolsonaro e sua família. As eleições de outubro estão aí para isso.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV

 

[1] Ver Renato Vasconcelos, “Estratégia de Segurança Nacional dos EUA 2025: O que diz o documento sobre cada região do mundo”, O Globo, 5/12/2025, disponível em https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/12/05/estrategia-de-seguranc....

[2] Cabe registrar que os países da América Central sempre foram tratados com esse nível de brutalidade pelos EUA.

Comentários

Jair Koiller
Lucido arrigo e corajosa a defesa dos nossos valores democraticos. Parabens, Octavio!!
Sidney Parizotto
A triste realidade brasileira está na violência urbana, com o tráfico de drogas como sua maior causa. Onde está a soberania onde o tráfico domina? A triste realidade brasileira é a corrupção, o desvio de recursos de aposentados sem haver a punição aos corruptos e pagos depois pelos contribuintes. Triste realidade é a de um país onde a produtividade e o PIB per capita não crescem, país submisso e condenado a ser fornecedor de petróleo bruto, soja e minério de ferro para os chineses. Triste realidade também está na indústria estagnada, que diminui sua participação no PIB e que está sendo expulsa do país, como disse a CEO de uma grande e tradicional indústria têxtil. E mais triste, uma carga tributária que não para de subir e que mesmo assim é cada dia mais insuficiente para sustentar um Estado perdulário. Triste realidade é a conta dos desperdícios e da corrupção ser jogada aos brasileiros que ainda não nasceram para pagarem, estes nascerão pobres e endividados. Nossos males todos estão dentro de nossas fronteiras, país onde setores superprivilegiados absorvem a maior parte da renda nacional pelos seus direitos imorais adquiridos ou pela associação ao poder público para ter benefícios, ou pela corrupção mesmo.

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