Três meses do Desenrola 2.0: o que os números já mostram

Em três meses, o Desenrola 2.0 renegociou R$ 44,1 bilhões em dívidas de famílias e empresas, com desconto médio de 82% para famílias. O balanço mostra adesão recorde, mas ainda não permite avaliar se o padrão de reendividamento foi alterado.
Segundo informações divulgadas pelo governo e repercutidas pela imprensa, em julho de 2026, sobre o Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias, instituído pela Medida Provisória nº 1.355, de 4 de maio de 2026, o Desenrola Famílias renegociou R$ 20,9 bilhões em cerca de 3,5 milhões de operações, reduzindo o saldo devedor para R$ 3,7 bilhões.
O Desenrola Empresas respondeu por outros R$ 23,2 bilhões, sendo R$ 21,7 bilhões via Pronampe (crédito para micro e pequenas empresas) e R$ 1,5 bilhão via Procred (crédito para microempresas), ambos com garantia pública. O uso do FGTS como fonte de quitação de dívidas, novidade desta edição, somou R$ 55,5 milhões, apenas 0,68% do limite de R$ 8,2 bilhões anunciado pelo governo, mobilizando cerca de 97 mil trabalhadores.
O balanço ainda não inclui os resultados do Desenrola Adimplentes nem do Fies Empreendedor, lançados a partir de 29 de junho. Cada um desses números descreve um mecanismo técnico distinto, e vale examiná-los separadamente antes de tirar conclusões sobre o programa como um todo.
O ritmo de adesão e os limites da fricção reduzida
Um recorde de adesão não é, por si só, evidência de que o problema estrutural do endividamento foi resolvido. Ele é compatível com a hipótese de que o desenho do programa reduziu a fricção para agir. Duas mudanças específicas parecem explicar essa aceleração, enquanto uma terceira, o uso do FGTS, revela onde essa redução de fricção encontrou seus limites.
O desconto de até 90% reduz a distância entre "minha dívida é impagável, não vou nem tentar" e "isso talvez caiba no meu orçamento". Em termos ilustrativos, uma dívida de R$ 10 mil que antes costumava gerar uma proposta de pagamento entre R$ 7 mil e R$ 8 mil continua sendo percebida como impagável por quem evita até abrir o aplicativo do banco, um comportamento de esquiva amplamente documentado na literatura sobre superendividamento. Com um desconto de 90%, a mesma dívida passa a exigir um desembolso de apenas R$ 1 mil a R$ 2 mil, tornando a renegociação uma decisão psicologicamente menos custosa do que continuar adiando o problema.
O bloqueio do CPF em plataformas de apostas por 12 meses para quem adere ao programa atua sobre um problema diferente, o de evitar que a liquidez gerada pela renegociação seja direcionada para um ambiente que incentiva novas decisões de risco.
Em "Bets não vendem apostas, vendem decisões" (Blog do IBRE, 6 jul. 2026), argumentamos que essas plataformas são desenhadas para explorar vieses cognitivos previsíveis e induzir decisões impulsivas, mais do que para oferecer apostas em um sentido estritamente racional. O bloqueio fecha temporariamente esse canal, embora não elimine a possibilidade de que a renda liberada pela renegociação seja direcionada para apostas após o término da restrição.
O FGTS como fonte de quitação ataca uma fricção diferente das anteriores, a de liquidez, e não a de decisão. Ele oferece um canal de pagamento que não depende de caixa mensal disponível, o que deveria acelerar a adesão de quem tem saldo acumulado, mas sem sobra de renda corrente. No entanto, o uso ficou em apenas 0,68% do limite disponível, mobilizando cerca de 97 mil trabalhadores até agora, o dado que mais destoa do restante do balanço.
Duas hipóteses, não mutuamente exclusivas, ajudam a explicar essa baixa adesão. A primeira é de fricção informacional e operacional, já que usar o FGTS exige que o trabalhador procure a informação, entenda que a opção existe e calcule se ela compensa, diferente da renegociação de dívida, que costuma ocorrer de forma quase passiva quando o banco oferece a proposta.
A segunda hipótese decorre do mental accounting (ou contabilidade mental), o hábito de tratar diferentes reservas de dinheiro como categorias mentais separadas e não intercambiáveis, mesmo quando misturá-las seria financeiramente racional. Nesse caso, o trabalhador trata o FGTS como uma reserva psicologicamente intocável, embora utilizar parte desse saldo para quitar uma dívida cara seja financeiramente mais vantajoso.
Já argumentamos, em "O celular e o superendividamento das famílias brasileiras" (Blog do IBRE, 25 mai. 2026), que o celular se tornou simultaneamente banco, crediário e cassino, acelerando o processo de endividamento porque contratar crédito passou a exigir muito menos esforço. O FGTS no Desenrola representa a lógica oposta, um instrumento de alta fricção para uma decisão financeiramente vantajosa, e sua baixa adesão sugere que a mesma lógica de fricção comportamental que acelera decisões ruins também desacelera decisões boas.
Tomados em conjunto, os três mecanismos atuam sobre dimensões distintas da decisão do devedor, o custo de agir, o destino da renda liberada e a origem dos recursos utilizados para quitar a dívida. É essa combinação, mais do que qualquer alteração relevante nas taxas de juros de mercado, que explica por que R$ 44,1 bilhões foram renegociados em um terço do tempo da edição anterior. A ressalva necessária é que a velocidade de adesão mede a eficiência do desenho do programa, mas não permite concluir se o padrão de reendividamento foi quebrado.
Em "Desenrola de novo?" (Blog do IBRE, 5 mai. 2026), mostramos que a primeira edição também teve adesão relevante, com R$ 53 bilhões renegociados entre julho de 2023 e maio de 2024. Usando aqui o indicador de endividamento das famílias do Banco Central, mais preciso que o percentual de famílias endividadas da CNC citado naquele artigo, o quadro permanece o mesmo, ou seja, o endividamento em relação à renda acumulada em 12 meses voltou a atingir 49,8% em maio de 2026, ante 47,8% em julho de 2023, quando o programa original foi lançado.
O desconto de 82% no Desenrola Famílias
Os R$ 20,9 bilhões renegociados no Desenrola Famílias resultaram em um saldo devedor de R$ 3,7 bilhões, um desconto da ordem de 82%. É o dado do balanço mais sujeito a interpretações equivocadas, seja pela leitura de que o governo está sendo generoso demais com os devedores, seja pela de que as famílias estão simplesmente sendo salvas. Ambas deixam de lado o que esse desconto revela sobre a composição econômica do estoque de dívida renegociado.
Em "Quem paga o custo do crédito no Brasil?" (Blog do IBRE, 17 mar. 2026), mostramos que o mercado de crédito brasileiro atravessa um processo de segmentação estrutural. O setor público amplia sua captação via emissão de títulos, grandes empresas se financiam cada vez mais via mercado de capitais, e as famílias permanecem presas à intermediação bancária tradicional, em modalidades de recursos livres com juros mais altos e inadimplência maior do que a observada para pessoas jurídicas.
Uma dívida mantida em modalidades como o rotativo do cartão de crédito, que opera a cerca de 435,9% ao ano, cresce sob juros compostos em um ritmo que rapidamente se descola do valor originalmente tomado. Depois de alguns meses nesse regime, boa parte do saldo nominal deixa de refletir o principal e passa a representar predominantemente juros acumulados sobre juros. Um desconto de 80% ou mais reflete, portanto, a avaliação de que grande parte desse saldo dificilmente seria recuperada de outra forma, considerando que a alternativa ao desconto tende a ser a inadimplência prolongada, e não o pagamento integral da dívida.
Em "Novas evidências sobre o peso do crédito nas famílias brasileiras" (Blog do IBRE, 7 abr. 2026), aprofundamos esse diagnóstico mostrando que essa concentração de crédito caro amplia desigualdades e concentra seus efeitos contracionistas nos agentes mais vulneráveis da economia. Por esse ângulo, o desconto agressivo do Desenrola Famílias pode ser lido como uma correção parcial de uma distorção distributiva preexistente, e não como uma benesse pontual. Esse argumento explica a magnitude do desconto, mas não o transforma em solução estrutural, já que atua sobre o estoque de dívida já formado sem alterar a segmentação do mercado de crédito que lhe deu origem.
Desenrola Empresas, um problema de acesso, não de comportamento
O Desenrola Empresas respondeu por R$ 23,2 bilhões do total, sendo R$ 21,7 bilhões por meio do Pronampe, destinado principalmente a micro e pequenas empresas, e R$ 1,5 bilhão por meio do Procred, voltado às microempresas. Vale separar esse número do restante do balanço, pois a natureza do problema é distinta. Pronampe e Procred são linhas de crédito para capital de giro com garantia pública, oferecidas em condições mais favoráveis que as normalmente disponíveis no mercado, e não programas de renegociação comportamental de dívidas vencidas.
O mecanismo predominante aqui é a substituição de dívida cara por crédito com garantia pública. Empresas que antes recorriam ao cheque especial ou ao cartão de crédito empresarial, com taxas facilmente superiores a 5% ao mês, passaram a poder substituir essa dívida por linhas indexadas à Selic acrescida de até 6% ao ano, o que corresponde, no patamar de juros de 2026, a aproximadamente 1% a 1,5% ao mês.
A ampliação da tolerância de atraso, de 14 para 90 dias, e a duplicação do teto de crédito para empresas de faturamento até R$ 4,8 milhões, de R$ 250 mil para R$ 500 mil, ajudam a explicar o montante alcançado pelo programa. Esse é, com sinal trocado, o mesmo tema de concentração de crédito caro documentado para as famílias. Pequenos negócios sem acesso a linhas com garantia pública ficavam presos a crédito caro principalmente por estarem fora do teto de elegibilidade anterior, e não necessariamente por falta de disciplina financeira.
O Desenrola Empresas ataca uma fricção de acesso e elegibilidade, diferente da fricção de decisão que caracteriza o Desenrola Famílias. Vale registrar que cerca de metade do volume total do balanço, R$ 23,2 bilhões de R$ 44,1 bilhões, não diz respeito ao superendividamento de consumo, e que o dado que efetivamente testa a tese comportamental do programa é o do Desenrola Famílias, e não o total agregado.
Uma integração anunciada recentemente ilustra o mesmo mecanismo de acesso em outra escala. Motoristas de aplicativo, taxistas, entregadores e caminhoneiros que quitam pendências bancárias pelo Desenrola passam a poder acessar em seguida o crédito veicular do programa Move Brasil, voltado à renovação de frota. É a mesma lógica de substituição de dívida cara por crédito com garantia pública vista no Pronampe e no Procred, mas aplicada a um ativo produtivo individual, o veículo de trabalho, em vez de capital de giro empresarial.
O que os dados ainda não captam
O balanço de R$ 44,1 bilhões ainda não captura todo o alcance potencial do programa, já que o Desenrola Adimplentes e o Fies Empreendedor foram lançados apenas em 29 de junho de 2026 e ainda não entraram na consolidação divulgada pela Fazenda. Sob a ótica da economia comportamental, o Desenrola Adimplentes é a frente conceitualmente mais interessante do pacote.
O Desenrola Adimplentes é destinado a trabalhadores informais que estão em dia ou com atraso de até 90 dias em operações de crédito pessoal não consignado de até R$ 15 mil por instituição, público que ficava fora do escopo das edições anteriores, voltadas exclusivamente aos inadimplentes.
A proposta permite substituir a dívida atual por uma nova, com juro-teto de 1,99% ao mês, ante taxas que hoje giram entre 6% e 12% ao mês para esse público, com potencial para alcançar até 500 mil trabalhadores. Pela primeira vez, o programa deixa de mirar exclusivamente quem já caiu na inadimplência e passa a mirar quem ainda está pagando em dia, mas sob uma trajetória de juros que aumenta significativamente o risco de inadimplência no médio prazo.
Um detalhe reforça o argumento desenvolvido em "A Copa das bets" e em "Bets não vendem apostas, vendem decisões". Uma das condições de adesão ao Desenrola Adimplentes é o bloqueio do CPF em plataformas de apostas por seis meses, criado para evitar que a renda liberada pela redução do custo da dívida seja direcionada para apostas online. Mantém-se a lógica adotada no Desenrola Famílias, mas com bloqueio de seis meses, em vez de doze, estendida agora a um público que nunca havia sido alcançado por essa restrição.
Alívio no estoque de dívida, sem resposta sobre o fluxo
Vale lembrar o pano de fundo em que o programa opera. Maio, mês de lançamento do Desenrola 2.0, foi também o mês em que a inadimplência bancária bateu recorde, com a taxa de atrasos acima de 90 dias subindo para 4,7%, considerando pessoas físicas e jurídicas. Em junho, o indicador repetiu o mesmo patamar, confirmando o maior nível da série histórica revisada do Banco Central, iniciada em 2011, com 5,6% entre famílias (também recorde) e 3,2% entre empresas (pior desde novembro de 2017). No mesmo período, o Serasa registrou 83,7 milhões de CPFs negativados até junho, o maior número da série histórica. Os números do balanço permitem uma leitura em duas partes, e ambas precisam ser consideradas em conjunto.
O desenho comportamental do Novo Desenrola Brasil melhorou de forma mensurável, com um desconto elevado combinado a restrições a canais ligados a apostas, um novo canal de liquidez via FGTS e, com o Desenrola Adimplentes, um primeiro movimento de prevenção em vez de apenas correção. Isso explica por que o programa renegociou mais dívida em menos tempo do que sua primeira edição.
Ao mesmo tempo, a evidência apresentada em nossos artigos anteriores mostra que esse tipo de alívio, isoladamente, não interrompeu o ciclo estrutural do endividamento das famílias brasileiras. A primeira edição também renegociou um volume relevante de dívida, e ainda assim o endividamento das famílias em relação à renda permaneceu em patamar mais elevado em maio de 2026 do que em julho de 2023, quando o programa começou. O Desenrola atua sobre o estoque de dívida já acumulada, enquanto os fatores que continuam alimentando esse estoque, como os juros estruturalmente elevados do crédito rotativo, do cheque especial e do crédito pessoal não consignado, permanecem em vigor.
O programa está mais eficiente em tratar o sintoma. A questão em aberto é se ele afeta a causa. Essa resposta não está nos números de adesão divulgados até aqui e só deve aparecer nos indicadores de inadimplência dos próximos 12 a 18 meses, quando será possível observar se as famílias que renegociaram voltarão a se endividar no mesmo ritmo de antes.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.










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